• Yedda Macdonald

Aquela viagem que nunca acabou...


Sabe aquela viagem incrível que você fez para Bahia em um ano com os amigos? E aquela no ano seguinte para os EUA com a sua família? E aquela outra para uma casinha de praia no sul que era para quatro pessoas e dormiram quinze? E aquela para a fazenda dos seus tios queridos com seus primos bagunceiros? Enfim, a cada ano uma emoção diferente na escolha de novos destinos ou com família ou com amigos. Tive muito pouco disso até quase os meus 25 anos. E, confesso que, toda vez que mudava meu destino do usual, eu me frustrava. Embora isso pareça repetitivo e rotineiro era o oposto, era criativo e enraizou em mim valores que até hoje prevalecem como estruturantes para a minha vida. Passei dos meus 5 anos de idade até meus 20 e muitos férias inesquecíveis na casa de praia de meus avós na Ilha de Paquetá.

Todo ano era a mesma coisa: a porta das barcas se abriam e saímos correndo para procurar alguém conhecido, para rever, colocar a conversa em dia. Ao chegar na Ilha, sempre tinha alguém que dizia “chegamos na Ilha da Fantasia”. E, de fato, a ilha era para nós um convite à fantasia, a invenção de brincadeiras na rua, estórias, anedotas. Um verdadeiro caldeirão de experiências, no qual, criávamos uma realidade paralela.

Foi lá que aprendi a fazer amigos, a alegria pelo simples, o convívio com a família por mais de 40 dias, às vezes engraçado, outras vezes tumultuado. Foi lá que absorvi o verdadeiro prazer do carnaval de rua, dos dias de verão sem fim entre casa de amigos, praia, piscina, pular muro, pique esconde no quarteirão, pique bandeira, queimado na rua, churrascos, coca-cola para bronzear a pele (sim! Além de não se usar protetor solar ousávamos para ficarmos “pretas” pras discotecas do clube, ou para colocar branco no Revellion). Jogos de roleta, buraco quando chovia. Andar de barco, experenciar ressacas, dançar abraçada aos amigos ao som de Your Song de Billy Paul, chorar pelas paixões desandadas, rir até doer das bobagens quando tomávamos pilequinhos, subir na árvore, cair da árvore, sentir a pele quente depois de dias de sol constantes, sair nos blocos de rua, cantar até o clube no Revellion, andar de bicicleta quase o dia todo, ver o por do sol na pedra da praia da Moreninha, namorar na praia, me esconder do meu avô quando dava incertas nas festas do clube, escolher as fantasias de carnaval, varar a madrugada filosofando no deck da casa dos meus avós, brincar daquela brincadeira do copo no salão de vidro e morrer de medo depois, inventar estórias de terror de casas abandonadas, ficar morgando no muro da casa da Amanda, fumar com minha avó escondida do meu avô, dar adeus a banda de carnaval até as barcas, contemplar o mar e sempre me emocionar quando estava chegando à ilha. Fazer brigadeiro no meio de uma tarde de 40 graus, juntar amigos para cantar com violão. Enfim, a lista é infinita de memórias...

E tudo se repetia ano a ano. Mesmo quando fomos saíndo da infância para a adolescência e da adolescência para o início da fase adulta, continuávamos crianças que ainda gostavam de pular elástico, de ver quem conseguia segurar o ar mais tempo embaixo dágua, de tomar banho de mar na chuva, quando apareciam ondas...A qualquer momento, alguém colocava uma música e dançávamos sem inibição. Cantávamos alto...Essa repetição dava identidade ao nosso grupo de amigos, legitimava um sentimento de estarmos em casa, a casa da nossa alma, a ilha da nossa alma, as férias mais almadas que tive. A intimidade entre nós e a ilha e essas repetições foram o que garantiram essa costura de lembranças que até hoje estão em mim. Mesmo quando não estou nostálgica e saudosa ou pensando na Ilha, percebo que a intimidade com o mar,​ com o verão, com a amizade e com a necessidade do eterno retorno, ainda que em sonhos.

Repetir, retornar, reviver criam raízes e somos seres em busca de origem, de retorno a algo que nos remeta a lar,a útero, a pertencer. Essa é uma viagem que nunca acaba. Mesmo quando nos desprendemos das nossas origens, temos a nostalgia do passado, saudades de outrora. Olhamos para frente, mas sempre com referências passadas. Qualquer transformação é fruto de matéria-prima já presente em nós. A minha remonta a uma ilha de cores douradas, dias quentes, abraços fraternos e é pra lá que sempre retorno na minha imaginação quando preciso me renovar. Um passo atrás para um salto para frente. Tudo que nos marca, nunca acaba. Por isso, essa é aquela viagem que nunca acabou. E cada um tem a sua: uma paixão eterna, um amigo fiel, uma casa de férias, avós inesquecíveis...Uma experiência muito significativa pode acabar literalmente, mas nos bastidores da nossa psique ela sempre permanecerá e poderá atualizar-se em outras experiências que despertem essas memórias.

Yedda Raynsford Macdonald, carioca de origem e de alma, paulista por hábito e respeito. Psicóloga clínica de adolescentes, adultos, casais e família. Autora do livro: Divagar, Devagar: depressão e criatividade lançado pela editora Appris e co-organizadora do livro "Pescaria Noturna: elaborando criativamente o lado sombrio da personalidade" a ser lançado em 2017 pela mesma editora. Amadora das palavras desde sempre.

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