• Carlos Bernardo

Nossa! Você é muito chique porque bebe vinho...


Um tema inaugural escolhido sem muita reflexão e sem nenhum motivo particular, sendo apenas um tema que me ocorre às vezes. Trata-se de tentar entender como o vinho é visto e considerado no Brasil em relação ao seu tratamento na Europa “latina” (França, Itália, Portugal, Espanha e adjacências).

No Brasil, o vinho é visto como uma bebida sofisticada e, logo, isto acaba por significar exclusividade e preços altos. Não dá para saber como este status de prestígio acabou sendo associado ao vinho por aqui, sobretudo considerado que a produção inicial de vinho até cerca de 1920 era de vinhos “ordinários”, conhecidos na Europa como “vins de table”. Este tipo de vinho é produzido com a preocupação de ser “bebível”, privilegiando-se a quantidade em relação à qualidade.

Refletindo sobre possíveis explicações para o vinho ter esse tipo de consideração no Brasil, podem-se elencar os seguintes pontos:

- popularidade da cerveja, vastamente produzida a preços acessíveis;

- pequena produção nacional de vinho, sendo que muitos vinhos disponíveis são de qualidade ruim;

- dificuldade para encontrar vinhos importados de qualidade e, uma vez encontrado, alto custo destes;

- clima (meteorologia) e costumes alimentares do Brasil que não são necessariamente atrativos para o consumo de vinho.

Estes argumentos contribuem para um baixo consumo de vinho no Brasil e podem explicar o fato de o vinho ser visto com uma bebida “chic”. Contudo, estes pontos não deveriam impedir que esta visão sobre o vinho evoluísse, de forma a aproximar-se do “status” na Europa onde é uma bebida praticamente do “dia-a-dia”, consumida por uma boa parte da população, independente de classe socioeconômica.

A título de comparação, o consumo médio de vinho na França é de 44 litros por pessoa ao ano, já no Brasil o consumo é de apenas 1,7 litros. Se considerarmos somente Rio, São Paulo e belo Horizonte, este consumo sobe para 9 litros, é um consumo bem baixo para tal país.

Em relação ao fato da cerveja concorrer com o vinho no Brasil, há de se notar que esta bebida é vista como um aperitivo na Europa. As pessoas geralmente tomam um ou dois copos de cerveja ante de passar para a comida e o vinho. Claro que se toma uma quantidade maior de cerveja em eventos e festas, mas quando o assunto é acompanhar uma refeição, o vinho é o escolhido. Devido à clareza do papel que cada bebida possui, para o europeu, não há esta história de vinho ser igual à bebida sofisticada e cerveja ser bebida popular.

Percebo também que algumas pessoas hesitam em beber vinho em uma refeição por não saberem qual vinho acompanha melhor o que se come. É uma hesitação sem sentido, pois no final das contas cada um tem o seu gosto e a diversidade de combinação vinho x pratos é muito grande; além disso, somente experimentando as combinações para poder saber o que é de mais agrado ao seu paladar.

Sobre o custo de compra de vinhos, realmente não dá para comparar as realidades entre Brasil e Europa. A começar por questões fiscais, em ambos os casos o vinho possui taxas de impostos elevados, contudo no Brasil o montante de impostos é demasiadamente vergonhoso. 64% vinho nacional e 84% em um vinho importado. Sobretudo, iguala-se o vinho às demais bebidas alcoólicas como cachaças e vodcas de baixa qualidade.

Não há como negar que este fator custo é um grande inibidor do consumo de vinho no Brasil e contribui para na manutenção do estigma que o vinho é uma bebida sofisticada e exclusiva, potenciado pelo fator cultural brasileiro onde algo de boa qualidade necessariamente possui um valor de compra alto. O elemento custo acaba por reduzir imensamente a oferta e variedade de vinhos no Brasil e, logo, não permite a popularização e aumento do consumo.

Para ilustrar esta questão do preço do vinho, o recente lançamento do “Beaujolais-Nouveau” 2016 permite mostrar o tamanho do problema. Este é um vinho do tipo “primeur” (produzido e lançado no mesmo ano da colheita) bem simples e o seu preço em média no supermercado na França é de cerca de 5,00 euros. No Brasil, uma loja no Rio o vende por 110 reais. Quase 6 vezes o valor.

Ultimamente surgiram alguns clubes de vinhos na internet, mesmo estando inscrito em alguns destes clubes, jamais fiz compras porque em nenhum momento encontrei ofertas com um bom custo-benefício segundo meu julgamento.

Evidentemente, a oferta de vinho na Europa é excelente, o consumidor não tem do que se queixar, clubes de vinho na internet são realmente interessantes em termos de preços e de exclusividade também.

Apesar de todas estas dificuldades no Brasil, ainda é possível comprar vinhos com uma relação custo-benefício suficientemente honesta, mas é necessário realmente pesquisar e arriscar nas escolhas.

Sláinte!

Carlos Bernardo de Oliveira

Originário da geração dos anos 80 e 90, tenho grande interesse em música, gastronomia, mixologia, geografia, Rugby, cinema, animais, história, cultura do mundo e vinhos. Já pude conhecer um pouco do mundo, visitando alguns lugares e produtores de vinho europeus e, sobretudo, já pude provar uma boa diversidade de vinhos. Para saber mais, ver meu perfil (Carlos Bernardo) no aplicativo Vivino onde desde 2013, segundo o aplicativo, já experimentei 27% das regiões vinícolas listadas.

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