• Hugo Ottati

Prisão de Eike e a seletividade do discurso de ódio


A prisão de Eike Batista, nesta semana, evidenciou a seletividade dos discursos de ódio, principalmente dos adeptos dos Bolsonaros (aliás, alguém viu alguma palavra dele sobre a prisão de Sérgio Cabral e Eike Batista, acusados de corrupção?).

Pois bem, o ''bandido bom é bandido morto'' novamente evidenciou como características físicas e sociais dos indivíduos determinam o nível de reprovabilidade de suas condutas perante a sociedade.

Eike Batista, branco, rico, empresário (ainda que sem curso superior completo), acusado de pagar US$ 16,5 milhões (cerca de R$ 52 milhões de reais) ao ex-governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), como parte do esquema para ocultar US$ 100 milhões remetidos ao exterior, foi preso sem causar grande revolta e gerar sucessivos discursos de ódio.

Pelo contrário, nos Estados Unidos foi parado por brasileiros para tirar selfies, e pela internet recebeu até notas de apoio. A sua careca foi o foco de piadas.

Eu, particularmente, não escutei/li nas redes sociais nem unzinho ''bandido bom é bandido morto'' ou "pendura no poste", ainda que o prejuízo à coletividade causado por seu esquema de corrupção tenha sido infinitamente maior do que aquele jovem que furtou um celular nas ruas de Copacabana. E isso sem adentrar nas reflexões sociais - de oportunidades e serviços públicos, bastante desiguais e ausentes no segundo caso.

E aí vai mais uma das incoerências: tratam-se exatamente das pessoas que batem panelas e vão às ruas levantar a bandeira e bravar o canto da ''anti-corrupção".

Ora, R$ 52 milhões em um esquema de corrupção de R$ 300 milhões tá pouco? Insuficiente para que Kims, Reinaldos, Jaires e semelhantes façam vídeos e textos repudiando, ofendendo e desejando paredões e fuzilamentos ao(s) ''BANDIDO(S)"?

Não esqueçamos que são esses que criticam os militantes de direitos humanos, dizendo que ''defendem bandidos'', mas posam para foto e votam em bandidos. Então, está na hora de colocarem em seus discursos o ''depende do bandido''. Se o bandido for branco e rico, tá ok. Agora se for preto e pobre, aí é vagabundo, não quer nada com a vida, não merece ter seus direitos respeitados e tem que morrer.

Os parâmetros de reprovabilidade de conduta são muito discrepantes. Essa é a seletividade, pautada no recorte racial e social e apoiada pela mídia convencional.

Ou vamos ignorar quando o jovem morador da Barra da Tijuca preso por vender drogas ilícitas é chamado de ''jovem classe média'' nas reportagens; enquanto o menino preto e favelado é estampado nas capas como ''traficante"?

Nós estamos falando de:

  • R$ 52 milhões pagos por Eike,

  • R$ 300 milhões em cerca de cinco países,

  • R$ 151 bilhões de isenções fiscais desde 2007 concedidas pelo PMDB no Rio,

  • E tantos outros números integrando o montante absurdo, que sustenta o grande empresariado e a classe política corrupta.

Enquanto isso, servidores permanecem sem salários no Rio. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro e o ensino público sucateados. Mas se forem para as ruas e uma vidraçazinha for quebrada, aí já é vandalismo; tudo vagabundo.

E, assim, as contradições e incoerências surgem, sucessivamente.

Aliás, será mesmo incoerência?

Ou defesa pela manutenção do status quo e de privilégios pessoais?

Tem dúvida ainda? Eu não.

fotos: reprodução internet

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Hugo Gomes Ottati de Menezes, carioca, 22 anos, graduando em Direito pela Universidade Federal Fluminense (Niterói), militante dos direitos humanos e da luta pedagógica diária e adepto à pedagogia crítica de Paulo Freire. Socialista e tricolor.''

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