• Bruno Rosi

O fantasma de Augusto Comte ainda assombra o Brasil


A Revolução Industrial transformou o mundo como poucos eventos antes dela. Começando na Inglaterra, no final do século 18, este evento foi composto de uma série de transformações. Para ficar em apenas alguns exemplos, em primeiro lugar, vagarosa, mas decisivamente, a população deixou o campo e dirigiu-se para as cidades, enquanto a maior parte da força de trabalho deixou de ser dedicada à agricultura e passou a se concentrar nas fábricas. Em segundo lugar, as fábricas tomaram o lugar antes ocupado por pequenas manufaturas e artesanato. Finalmente, criou-se a figura do operário (ou proletariado), aquele indivíduo que trabalha em uma fábrica em troca de um salário.

Foi no contexto inicial da revolução industrial inglesa que Adam Smith escreveu seu hoje clássico Riqueza das Nações. Segundo Smith, algumas nações europeias experimentavam uma prosperidade superior às outras porque se baseavam mais fortemente na divisão do trabalho. Assim, como dentro de uma fábrica, a divisão das tarefas entre várias pessoas permite uma produtividade muito superior ao artesanato, uma sociedade é beneficiada quando indivíduos se especializam em diferentes atividades econômicas. Porém, diferente de uma fábrica, onde as atividades dos indivíduos são coordenadas por um administrador central, Smith teorizou que na sociedade os indivíduos são guiados como que por uma mão invisível, ou seja, por nenhum administrador central. A ojeriza de Smith por aqueles que tentavam organizar a sociedade a partir de um plano central já havia aparecido em sua reflexão a respeito do homem de sistema, em seu livro Teoria dos Sentimentos Morais. Em Riqueza das Nações ele manteve sua confiança de que indivíduos seguindo seus objetivos individuais eram capazes de fazer mais do que lideranças políticas tentando impor algum plano mestre para toda a sociedade. Aliás, quando Smith fala sobre riqueza das nações, ele quer dizer riqueza dos indivíduos mais simples, e não das elites políticas que sempre prosperaram à custa dos mais pobres. Com seus livros Smith deu origem não apenas à Economia como disciplina acadêmica em seu formato moderno, mas também a uma escola de pensamento econômico chamada de Liberalismo, por defender a liberdade dos indivíduos.

Porém, nem todos pensadores da época foram tão otimistas com a Revolução Industrial quanto Adam Smith e os liberais. Karl Marx expressou grande admiração pelos feitos da nova classe industrial (a que ele chamou – erroneamente – de burguesia), mas também apontou (a seu ver cientificamente) que o sistema econômico que acompanhava a industrialização iria inevitavelmente colapsar por suas contradições internas. As premissas intelectuais da teoria econômica de Marx não fazem o menor sentido, e não à toa todas as suas previsões falharam, mas isto não impediu que o marxismo marcasse indelevelmente a história do século 20. Começando na Rússia e continuando em outros países, o marxismo foi a base de muitos estados totalitários que se estabeleceram no século passado. Embora seja muito comum ouvir que “deturparam Marx”, a verdade é que URSS, China, Vietnã, Coreia do Norte, Cuba e outros seguiram premissas básicas do marxismo: fim da propriedade privada e planejamento central da economia. Considerando isto, o fracasso econômico destes países não deveria ser nenhuma surpresa.

O Brasil também esteve na rota de influência do marxismo, porém, menos do que se poderia supor. Certamente que o movimento operário que se instaurou no país, principalmente no início do século 20, possuía alguma tendência marxista. O mesmo pode ser dito, e com mais propriedade, do movimento partidário comunista que surgiu na década de 1920 e segue até os dias atuais. Para além disso, podemos observar a influência marxista pela estratégia gramsciniana em muitos intelectuais e artistas bobocas que dizem que “a burguesia fede”. Mas o marxismo – quem diria – não merece ser culpado por todos os desacertos da história do Brasil.

Assim como Karl Marx ofereceu sua leitura negativa da Revolução Industrial, outro intelectual europeu tentou compreender o mundo em transformação do século 19 com consequências nefastas (ainda que baseadas em conclusões intelectualmente desprezíveis): Augusto Comte. Para ficar realmente breve na explicação, Comte é o pai do Positivismo, e responsável pelo lema “Ordem e Progresso” na bandeira do Brasil. Sua teoria pode ser resumida muito brevemente em que a sociedade precisa ser planejada centralmente por uma elite científica de tecnocratas. Ou seja: assim como Marx, Comte desprezava as ações dos indivíduos. Diferente de Marx, porém, Comte foi basicamente ignorado na Europa, mas infelizmente suas ideias encontraram acolhimento no Brasil.

Não foi acidental que o Positivismo de Comte tenha encontrado boa recepção por aqui. Desde o final do século 18 as elites portuguesas temeram o liberalismo de Adam Smith e procuraram manter o planejamento central da economia. Os portugueses eram adeptos do mercantilismo (sistema econômico tragicamente confundido com o capitalismo por muitos intelectuais brasileiros), e as elites brasileiras herdaram esta tendência. A monarquia brasileira foi indecisa na adoção do liberalismo (sendo a manutenção da escravidão o melhor exemplo disso), e esta má vontade foi herdada pelos republicanos.

Após a proclamação da república, o positivismo foi colocado de lado pelas elites cafeiculturas que assumiram o poder, mas a doutrina de Comte continuou forte no Rio Grande do Sul e chegou ao domínio nacional com Getúlio Vargas. Desde então o positivismo tem sido uma influência importante para intelectuais e políticos brasileiros, muitas vezes mais do que percebemos. O planejamento central é a tara de muitos dirigentes, e não exatamente por causa de Marx. Para se tornar uma nação próspera o Brasil precisa abraçar o liberalismo, e deixar no passado as teorias antiliberais do século 19. Mais Adam Smith e menos Comte.

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Bruno Rosi é Historiador, Internacionalista e Cientista Político e ex-professor de Relações Internacionais na Universidade Candido Mendes.

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