• Sol Medeiros

Nós mulheres: as grandes Deusas



“Quando se tem uma Grande Deusa como a criadora, é seu próprio corpo que é o universo. Ela é idêntica ao universo. Ela é esfera inteira dos céus que circundam sua vida”

Joseph Campbell

Para homenagear as mulheres, durante o mês de março abordarei dois assuntos que estão presentes no universo feminino: TPM e Menopausa. Antes de iniciar estes temas, porém, vale a pena abordar sobre o espírito feminino que se perdeu na modernidade.

A mulher atual é a profissional que exige o máximo de si no trabalho, a dona de casa que limpa, cozinha e faz mercado, a mãe que acorda de madrugada para medir a febre do filho doente, a esposa que, depois de um dia de trabalho, se arruma para o marido, a filha que tem que cuidar dos pais idosos e ainda arrumar tempo para malhar e ficar bonita. É muita coisa que dá a sensação, algumas vezes, de mais deveres do que prazeres e acaba entrando no piloto automático. Priva-se, limita-se, adapta-se, escraviza-se, apaga-se e renúncia a si mesma.

A mulher, quando foi lutar pelos seus direitos, esqueceu de entrar em contato com as forças do feminino e com sua essência – criatividade, alegria, intuição, contato com o divino, reflexão, acolhimento, cuidado, culto à beleza e à amorosidade em todas as formas – e as varreu para debaixo do tapete.

Nem sempre foi assim. Para entender as raízes do espírito feminino, vamos viajar no tempo. No período Paleolítico (30000 a 7500 ac) e o Neolítico (7500 a 3500 ac), estudos revelam a existência de sociedades com cultura avançada e profundamente dedicada ao espírito feminino. Registros de desenhos mostrando a reverência que tinham pela natureza e pela associação das mulheres com o milagre da fertilidade e do nascimento. As vidas familiar e comunitária eram em volta da Grande Deusa, que representava os valores aos quais aspiravam tanto as mulheres como os homens (amor à verdade e à beleza, a paixão pela justiça, o compromisso com a cura, o cultivo com a sabedoria e o profundo respeito à Terra).

Durante 4 mil anos, a mulher desempenhou o papel de centro cura da sociedade da época. Era ao mesmo tempo mãe e enfermeira, humana e divina, cuidando dos doentes e moribundos e ao mesmo tempo era bela, harmônica e íntegra. Sabiam usar seus conhecimentos e ervas curativas e rituais para restabelecer a saúde do corpo e da alma. Além disso eram reverenciadas por serem as guardiãs dos fios invisíveis que ligavam os seres humanos ao cosmo através da gestação.

Havia respeito entre homens e mulheres sem fazer classificação de superioridade ou inferioridade porque acreditavam que um completava o outro e assim o poder seria redobrado.

A partir de cerca do quinto milênio antes de Cristo, os achados arqueológicos mostram um estado crescente de ruptura desta sociedade. Povos vindo do norte da Ásia e da Europa invadiram estes locais e questionaram esta sociedade pacífica alterando violentamente o modo de vida. Eles acreditavam no Deus masculino de vingança e destruição e diante de tamanha força bruta, as Grandes Deusas ficaram impotentes.

Na Europa dos séculos XVI e XVII, centenas de mulheres, consideradas curandeiras ou bruxas, foram enforcadas, torturadas até a morte, estranguladas, feridas com azeite ou queimadas na fogueira. Todas as guerras, pragas e acontecimentos ruins eram responsabilidades das mulheres. Se um bebê nascesse morto, a parteira era acusada (profissão que antes era honrada, havia se tornado inferior). Se o homem era impotente, a mulher e a sogra eram responsabilizadas. Mulheres velhas, jovens, solteiras, viúvas, ricas, pobres, feias ou bonitas eram todas suspeitas de tudo que acontecia de ruim na família e na sociedade.

A sabedoria duradoura da Grande Deusa, que representava os aspectos alegres, sensuais e afirmativos de vida do ser humano, foi profanada. A própria mulher foi humilhada e desonrada, e o homem, como o degradador, desprezou a si mesmo. Controlada por milhares de anos por uma energia predominantemente masculina, que enfatizou o pensamento linear ao invés da sabedoria intuitiva, a competição ao invés da cooperação e a guerra ao invés da paz.

A experiência feminina tem características peculiares quanto à intimidade do ser. A mulher desenvolve a capacidade de envolvimento. A natureza acolhedora é evidente na figura feminina. Permite ampliar os limites da sua própria experiência, desprender-se dos conceitos pré-estabelecidos e da necessidade de controle e poder da situação, interagindo harmoniosamente com as pessoas com as quais convive. É se permitir sentir a vida e aproximar-se cada vez mais da sua própria essência e respeitar-se acima de tudo.

Para o resgate da essência feminina vale a pena investir em atividades associadas à natureza, passar um período sem sentir-se escrava da vaidade, exercitar o corpo com prazer sem se preocupar tanto com a estética, fazer atividades manuais, preparar um bolo para receber as amigas e as mulheres da família para falar sobre medos, angústias, fraquezas, conflitos e assim, exercer a irmandade entre as mulheres, ter momentos de introspecção e cuidar-se como se fosse sua própria mãe.

Ser mulher é sentir-se inteira e plena com ternura e afetividade para que possa se nutrir e se preencher de si mesma.

“O que se requer é a união das duas forças, masculinas e femininas, de modo que, através da solidariedade, todos possam complementar e ajudar um ao outro mantendo-se unidos.”

I Ching

O próximo texto será sobre a TPM.

Até lá!

Sol Medêiros

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Sol Medêiros

Sou paulista e desde sempre tive curiosidade e interesse sobre assuntos relacionados ao desenvolvimento e conhecimento do ser humano, porém me formei em Turismo onde trabalhei por 20 anos, até que em 2008 larguei tudo e me abri para os estudos das terapias integrativas com foco na milenar Medicina Chinesa e sou apaixonada pelo que faço. Além disso amo ensinar, escrever e compartilhar meus conhecimentos e vivências com as pessoas para que tenham uma vida mais leve, saudável e descontraída.

www.solmedeiros.com.br

“Coloque silêncio nos seus sentidos, nos seus pensamentos e nos seus desejos e assim escutará a sua verdade interior “ Malebranche (1638-1715)

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