• Nathércia Sena Van Vliet

Quando a vida pede mudanças


Mudar para um novo país é algo bem mais complexo do que muitas pessoas imaginam. Tudo é novo, cultura, idioma, e a sua rotina como um todo. São necessárias muitas mudanças de hábitos, a fim de conseguir lidar com a nova realidade. No Brasil eu sempre tive várias mãozinhas, e confesso que nunca havia sentido o peso real da rotina, da maternidade. Mas você muda porque a vida pede mudança, porque sempre haverá os prós, apesar dos contras.

Moro na Bélgica há cerca de dois anos e meio, com meu marido e nossos filhos. Em setembro de 2016 nasceu nosso terceiro filho, um guri para completar a nossa trupe. Um sopro de vida na nossa família, que enfrentou nesse mesmo ano a perda de meu pai e meu sogro, ambos de forma muito repentina. A gravidez foi muito difícil e não poderia ter sido diferente. Quase um mês após a chegada do bebê, eu me sentia extremamente cansada. Culpei o puerpério, e dizia pra mim que era normal sentir tantas dores, que eu só precisava descansar. As dores eram principalmente nas pernas, e eu pensava: vou deitar que passa! O estranho era que justamente quando eu estava em repouso sentia tudo mais intensamente. Uma sensação de cansaço sobrenatural – peso? tremor? calor? Eu não sabia explicar, e continuei não sabendo dali a um mês quando finalmente resolvi procurar ajuda médica.

Meu bebê está fazendo oito meses, nesse meio tempo as dores foram piorando, outros

sintomas foram aparecendo, e há pelo menos seis meses venho pulando de médico em médico, hospital em hospital, feito macaco pula de galho. Muitos exames, muitas conjecturas, até que finalmente me deram um diagnóstico - sofro de uma esclerose no sacro ilíaco, um problema reumático que pode ter sido agravado pela gravidez. Fui encaminhada a uma Reumatologista, a qual numa primeira consulta me examinou inteira e pediu outros exames. Retornei a médica há cerca de duas semanas, pensando eu apenas para checar os exames e estabelecer o tratamento para o diagnóstico que eu tinha até então, esse que contei pra vocês. Depois de tantos meses entre exames e médicos tudo que eu não esperava eram mais novidades, mas ela tinha outro diagnóstico para mim.

Foi um choque! Saí do consultório chorando, fiquei com muita raiva, mas depois tentei

não pensar a respeito, acho que como forma de defesa. Até que a ficha começou a cair e eu peguei no fundo da minha bolsa aquele papelzinho que a médica havia me dado, tipo um rascunho, para que eu pudesse pesquisar sobre a minha nova condição (palavras dela), e estava lá: FIBROMIALGIA - até parece que daria pra esquecer essa palavra. Joguei no Google e fiquei mal, muito mal pra falar a verdade. De repente parece que todos os sintomas se intensificaram e outros novos chegaram para dar reforço, podia literalmente sentir sobre os ombros o peso de portar uma doença crônica. Fiquei de cama outra vez. Assim fiquei por uma semana, tudo doía, mas minha cabeça levaria o Oscar. Tive vontade de desistir, de tudo.

Recebi através da minha psicóloga o convite para participar de uma palestra sobre Fibromialgia. Fiz um grande esforço, e fui. Conheci outras pessoas com a mesma síndrome e voltei cheia de informações que precisavam ser processadas. No dia seguinte recebi uma carta da Reumatologista com o diagnóstico justificado segundo os parâmetros atuais. Olhando pra aquela carta processei que era real, estava ali preto no branco, e eu tinha duas opções: vitimar-me e deixar a doença ser maior que eu, ou aceitar e me tornar maior que ela, aprendendo a viver “apesar de”.

Resolvi lembrar que antes de me tornar uma mulher com fibro, eu sou e sempre fui uma mulher de fibra. Criei um perfil numa rede social para compartilhar informações e reunir uma rede de apoio. Desde então venho pesquisando e buscando assimilar todas as mudanças que precisarão ocorrer para que eu possa ter uma vida relativamente normal apesar da Fibromialgia. Mas isso já não me assusta, afinal de que mesmo que nós estávamos falando lá no primeiro parágrafo?

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NATHÉRCIA SENA VAN VLIET

Sou brasileira, 30 anos, graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal da Paraíba,

tendo atuado na área por alguns anos. Moro há pouco mais de 2 anos na Bélgica, para onde vim com

meu marido holandês e nossos 2 guris, agora 3. Ser mãe é a grande missão da minha vida, e meu job

em tempo integral.

E não bastasse a loucura que é a vida de imigrante e mãe de 3, fui recentemente diagnosticada com

Fibromialgia. Para buscar informações e trocar experiências com outros portadores dessa síndrome, criei um perfil no Instagram, onde escrevo sobre a nova vida que eu preciso aprender a levar. Instagram -> @com_fibro_e_fibra

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