• Susana Savedra

Na contramão da nudez robótica


Quando decidi escrever esse texto tive que levar em consideração diversos temas pairando em torno do meu universo, que obviamente mudou muitas vezes desde que comecei meu processo de amadurecimento diante da vida.

Nadar contra a maré da nudez robotizada, proposta inicial que dá nome a essa matéria, não é necessariamente despir-se literalmente. Mas é imprescindível para aqueles a quem me dirijo, satisfazer a natureza e mais precisamente, a sua própria naturalidade.

Existe uma diferença entre o nu e a construção dele ao longo dos séculos. Nascemos sem roupa, puros, chorando, frágeis e aos berros. Portanto estar desnuda (o) não deveria ser uma questão problemática. Entretanto a necessidade do biquíni e afins, da modelagem dos corpos ― estimulada sobretudo pela mídia ― bancada por suas grandes patrocinadoras, a indústria da moda, degradou a naturalidade do corpo em pêlo, rico de subjetividades únicas e pessoais, pois cada um possui particularidades físicas bem peculiares, de nascença ou não, que pode agradar a uns e desagradar a outros. Aí é que se encontra a magia e a graça. Como profissional de modelo vivo há oito anos, vejo nos quadros e desenhos de diversos artistas e alunos nas escolas e Ateliers onde posei, distintos olhares sobre o meu rosto, minhas pernas, meus seios, cabelos e até mesmo com relação aos pés e mãos, partes consideradas um pouco mais complicadas de reproduzir.

Ainda que aparentemente a pose pareça sensual, não é o fato de estar semi ou completamente nua que define a sensualidade dentro dessa expressão artística. O que os profissionais ou amadores captam não é uma mera banalização da pose feminina ou, em outras palavras, fotos contemplativas para deleite masculino.

Considerando a questão em torno da arte como pessoal e fruto do gosto alheio, ao colocar uma mulher na velha posição de "cabide" ou simples objeto a tratamos como se ela não andasse, não risse, não chorasse, não se emocionasse e não respirasse. Evidentemente há fotos lindíssimas ao natural, mas a regra deste tipo de foto exclui as nuances, o sorriso e a poesia das especificidades do sujeito. Ninguém é igual a ninguém mental e fisicamente. A ordem mercadológica que encaixota corpos como se fossem produtos para vender em supermercados sempre existiu e ainda hoje, onde o "empoderamento" feminino ganha força no mundo através de campanhas e denúncias, encontra-se ativo e essa ordem segue mantendo a preferência no mais alto patamar da pirâmide estética.

Corpos nus verdadeiros costumam passar ao largo do vulgar, como demonstra a pintura realista de Eduardo Sívori (pintor argentino, 1847-1918) intitulada "El despertar de la criada".

As expressões antes não descobertas por todos os artistas (clássicos ou contemporâneos) pintores, desenhistas, escultores e fotógrafos possuem o claro propósito de elevar a personagem encontrada na modelo ao status de obra de arte atemporal.

Por esse motivo, assim como a música e a literatura, que podem alcançar a alma de uma pessoa paralisando o tempo por alguns segundos, a nudez artística vai muito além dos sorrisos óbvios e das silhuetas medidas pelo senso comum.

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Susana Savedra

É poeta, arte educadora, atriz, modelo vivo e estudante de letras. Integra duas coletâneas, "Lar" e "Baseado na estrada". Para conhecer melhor seu trabalho acesse sua página no Facebook e seus blogs:

Facebook: CurtaPoesiaVidaLonga

www.joaninhasusana.zip.net

www.cafeconpochoclos.blogspot.com.br

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