• Maria Claudia

Resenha do livro A AMIGA GENIAL – Elena Ferrante (Primeiro volume da Série Napolitana)


Esse livro é um sucesso de vendas na Itália e em todo o mundo e, como não tenho nada contra best-sellers, entrei de cabeça no primeiro volume da tetralogia (Série Napolitana) criada por Elena Ferrante, que se tornou uma autora conhecida por escrever sobre questões íntimas com muita clareza, sem se expor para divulgar seus livros. Li que alguns críticos dizem que sua ficção parece apresentar traços autobiográficos, mas que não dá para identificar os pontos comuns entre sua vida e sua obra, porque a escritora se recusa a comentar sua intimidade: Elena Ferrante é um pseudônimo dessa autora que nunca apareceu em público, não tira fotos e só dá suas entrevistas por e-mail e sempre mediadas por suas editoras. Mistério ou marketing? Não sei... só sei mesmo é que gostei bastante da sua maneira de escrever.

Para começar devo dizer que não foi muito fácil falar sobre esse livro, pois a história dá muitas reviravoltas e tem uma grande quantidade de personagens: ajudou muito a pequena lista com o resumo das famílias que existe logo no início do volume, principalmente para mim que tenho como ponto fraco justamente a memória. O que posso dizer é que é muito bem escrito e que foi difícil de largar, não dava vontade de parar de ler! No meu caso, enquanto escrevo essa resenha, já estou lendo o último volume da “Série Napolitana”... preciso dizer mais? Rsrsrsrs! Na verdade só foi difícil mesmo fazer a resenha, porque ler... ah! ler foi tudo de bom!

Mas vamos ao livro: a história é narrada na primeira pessoa pela personagem Elena Greco, que logo no início do livro aparece como uma mulher já com seus sessenta e tantos anos, nos dias de hoje. Quando sua amiga de infância Lila desaparece, Elena decide contar a história de sua própria vida – uma história na qual Lila está profundamente presente desde sempre. Então assim começa a narrativa, que neste volume se passa em Nápoles nos anos 50/60 e fala da infância até a adolescência das personagens (Elena e Lila). Elena conta, de forma direta e muito sincera, como surgiu a amizade entre elas e descreve intensamente diversos momentos que passaram uma ao lado da outra. Conforme o livro vai se desenvolvendo, descobrimos informações sobre as famílias das personagens e também da vizinhança: a família do marceneiro, da viúva louca, do verdureiro, a família Solara proprietária do bar e confeitaria (tem tudo lá na pequena lista do início do livro que falei anteriormente), todos representando uma amostra da sociedade da época que oscilava entre o fascismo, o comunismo e a temida máfia italiana, a Camorra. Começamos também a nos familiarizar com a estrutura escolar, os problemas enfrentados nas salas de aula, a descoberta da sexualidade, a luta pelos objetivos, enfim vamos entrando aos poucos na “vida comum” daquela parte da Itália da época do livro, bem como do país como um todo.

O fio condutor do romance é a amizade entre as duas meninas - elas têm personalidades bem diferentes, mas têm também duas características que as aproximavam: o amor pelos livros e a aspiração de se tornarem escritoras. A trajetória dessas duas amigas desde a infância até a adolescência é contada através dos olhos de Elena, a amiga genial, a única que consegue continuar estudando. A eterna admiração que Elena sente por Lila, que mesmo sem estudar continua sendo brilhante, é um sentimento complicado, mas a autora consegue contar brilhantemente essa história de amizade turbulenta entre mulheres (mesmo que ainda crianças), destacando todas as transformações que encararam em suas vidas e todos os obstáculos que têm que enfrentar (a violência inclusive).

Lila se destaca das demais crianças pela inteligência, sendo quase sempre a primeira da turma, uma autodidata que lia escondido de todos (essa parte achei muito interessante, pois são incríveis as artimanhas dela para conseguir ler um número absurdo de livros sem ninguém suspeitar de nada!), e, por ser uma pessoa sempre em busca de um desafio, é uma menina levada e destemida, por vezes até cruel, em quem Elena se espelha. A relação entre as duas é uma mistura de competição, inveja e admiração. E a força das palavras de Lila era o que enfeitiçava Elena, uma menina também muito inteligente e estudiosa, mas que sempre se sentiu inferiorizada pela amiga. A brutalidade está presente na infância das duas como algo inerente à vida ou ao próprio ambiente em que vivem. É uma história atual e ao mesmo tempo um clássico: enquanto fala sobre o vínculo de amizade, mostra uma infância marcada pela violência e apresenta informações sobre o cenário pós-guerra na Itália, período em que as mulheres sofriam com a submissão em relação aos homens e não possuíam voz ativa ou direito de estudar e escrever. No caso das duas protagonistas, por exemplo, Elena conseguiu continuar os estudos, mas Lila não. Uma opção? Provavelmente não! Apesar de Lila ter uma personalidade complexa, e sua família não a ter deixado prosseguir, ela, apesar de bastante voluntariosa, não só aceitou essa decisão como também resolveu se unir ao irmão para convencer seu pai a modernizar sua loja e dar outro rumo à sua vida! Ela é inteligente e bem complicada... quem ler vai ver!

Enfim, esse é um livro com uma ideia inicial bastante simples e até um pouco ingênua, mas que acaba encantando exatamente pela profundidade da narrativa e principalmente pela sinceridade da personagem principal, Elena Greco: tem horas que a franqueza dela chega a ser chocante! Uma leitura que vale a pena e que acho que mantém acesa a curiosidade para o segundo volume da série. Pelo menos em mim manteve... em breve trarei a resenha não só do próximo livro, mas também dos outros três que completam a tetralogia!

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Maria Cláudia de Macedo Miranda Marandino

Resendense de nascimento e carioca desde os meus três anos, sou professora (aposentada) especializada em alfabetização e pré-escolar. Amo ler pelo simples prazer de ler! Não sou especialista em literatura mas vou colaborar no 1 olhar com o resumo que faço de cada um dos muitos livros que leio na esperança de despertar o leitor que sei que vive dentro de cada um de nós: todos somos leitores, basta que o livro certo nos encontre!

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