• Nathércia Sena Van Vliet

A PORTA PARA O JARDIM


A quantos quilômetros por hora você tem seguido? Você tem feito pausas pelo caminho? Tem observado as paisagens por onde passa? E as outras pessoas ao seu redor? Você tem conseguido chegar ao seu destino?

Recentemente tivemos a oportunidade de sair por uma semana de férias em família, essa foi a primeira vez que pudemos fazer isso desde que nos entendemos por família, leia-se 7 anos e meio. Fomos para pertinho, para um parque de férias, desses populares aqui na Europa, onde você aluga um chalé e tem tudo ao seu redor para as crianças curtirem: parques, piscina, praia, natureza. Tínhamos a simples pretensão de descansar enquanto as crianças se divertiam. Assim foi! Foi fantástico poder acordar tranquilos, abrir as portas que davam para o jardim, vê-los correr livres enquanto tomávamos o nosso café da manhã. Foi gratificante poder brincar, correr, nadar e fazer castelinhos de areia com eles, sem olhar para o relógio. Foi maravilhoso termos um tempo de casal, depois de colocar as crianças na cama, e poder tomar um vinho e conversar efemeridades sem nos preocuparmos com a hora de dormir.

E até aqui você deve estar pensando: “Sim, mas isso são coisas que fazemos nas férias. Qual a novidade?”. Pois é, aqui começa a minha narrativa. Ao mesmo tempo em que foi tão ímpar viver essa calmaria, nós também entramos numa reflexão que nos fez enxergar inúmeras coisas, inclusive o quanto estamos correndo pela vida, literalmente passando apressados por ela, sem aproveitarmos, sem olharmos ao redor e enxergarmos essas paisagens, esses contextos, essas “coisas”. Sem enxergarmos muitas vezes ao outro e a nós mesmos, as nossas próprias emoções, frustrações, necessidades. Estamos seguindo com o pé fincado no acelerador, esquecidos literalmente onde fica o pedal do freio, e o pior, não estamos chegando a lugar nenhum.

Ao mesmo tempo em que nos alimentávamos daqueles bons momentos, também vieram à tona pequenas e grandes frustrações, as quais estamos tentando passar por cima com um rolo compressor, e o que nos deixa exaustos e não necessariamente bem sucedidos, porque por mais que tentemos esmagá-las, elas permanecem ali, e hora ou outra esbarramos nelas. Como aquela simples porta para o jardim é importante para nós! Como nos encheu de paz vê-los brincando naquele gramado! Como precisamos daquela porta em nossa vida! E você tenta pensar: “Mas eu sou feliz mesmo sem aquela porta!”, até que brilha em luzes de neon bem na sua cara: “Não, você não é!”. Ai você enxerga que está insatisfeito com a casa que mora ou com a organização da mesma, com o seu trabalho ou a forma que o tem desempenhado, com as perspectivas próximas, e principalmente com essa correria insana que nos faz passar pela vida sem vivê-la, sem poder usufruir dos pequenos e simples momentos, justamente aqueles que dão todo sentido à vida. E não é uma questão de reclamar, mas de agradecer por finalmente poder enxergar, e se fazer uma pergunta: por que e para quê eu corro tanto?

Não nos deparamos apenas com essas verdades, mas também com um desafio: antes de mais nada, DESACELERAR. Reaprender a respirar, a ver, a ouvir, a falar, a sentir. O desafio de sermos menos máquinas e mais humanos, de nos reconectarmos conosco e com nossas emoções, e com o outro.

Voltamos provocados a reformular nossos planos, sonhos, propósitos, instigados a recriar as chances e as oportunidades, determinados a continuar cumprindo com as responsabilidades da vida real sem férias, mas a fazer tudo isso de forma mais consciente, sóbria, e sem atropelarmos coisas tão importantes pelo caminho, inclusive a nós mesmos e a quem amamos.

E sabe, estamos bem cansados. Todo esse refletir e transformar é de fato uma tarefa exaustiva, não lhes mentirei. Mas parece que a cada resposta encontrada, a cada nova plaquinha de direção que enxergamos pelo caminho, nós nos enchemos de um entusiasmo que alimenta e fortalece para seguirmos firmes nesses novos propósitos. Hoje mesmo, ao tomarmos nosso café da manhã em família - eles são cada vez mais frequentes - nós relembrávamos gratos daquela porta para o jardim, e agora já conseguimos enxergar mais facilmente a nossa, num futuro cada vez mais próximo, para o qual seguiremos sem pressa. E quando iríamos nós imaginar que nosso pedal de freio estava escondido justamente naquele jardim?

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NATHÉRCIA SENA VAN VLIET

Sou brasileira, 30 anos, graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal da Paraíba, tendo atuado na área por alguns anos. Moro há pouco mais de 2 anos na Bélgica, para onde vim com

meu marido holandês e nossos 2 guris, agora 3. Ser mãe é a grande missão da minha vida, e meu job em tempo integral. E não bastasse a loucura que é a vida de imigrante e mãe de 3, fui recentemente diagnosticada com Fibromialgia. Para buscar informações e trocar experiências com outros portadores dessa síndrome, criei um perfil no Instagram, onde escrevo sobre a nova vida que eu preciso aprender a levar. Instagram: @com_fibro_e_fibra

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