• Jan Creveld

O poder corrompido: muda-se a estrutura ou mudam-se os indivíduos?


Depois de uma exaustiva semana de trabalho, me vejo espantado com uma notícia no Jornal Nacional, em que um prefeito da baixada fluminense atende pedidos de um traficante para que o político usasse de sua posição para impedir uma ação de combate ao narcotráfico em uma das milhares de comunidades conflagradas do Estado do rio de Janeiro. De imediato me pergunto o porquê de estar tão surpreso, talvez por ver um falar na televisão, algo que subliminarmente é transmitido em mensagens do cotidiano de quem mora em comunidades, ou já atuou trabalhando em qualquer área do serviço público em uma delas.

Corrupção, etimologicamente tem relação com apodrecimento, e é exatamente como me sinto como brasileiro, não existe a maçã podre no meio do povo, existem maçãs em diversos níveis de apodrecimento, seja por estarem corrompidas pela moral em ações, mas sobretudo, pela ética relativista tupiniquim, onde o erro está sempre no problema alheio.

O fisiologismo das relações entre o poder público e político e o crime não é nenhuma novidade, no entanto, vemos que do descaso com a gestão para uso de meios ilícitos e pessoais, passamos para uma outra dimensão, a do narco-estado, do aparato eleitoral com sede e força bélica proporcionada pelo tráfico de drogas. Como se já não bastassem as milícias, os santinhos, as cestas básicas e o coronelismo semi-feudal, agora ganhamos a notoriedade da relação podre entre o "pobre varejista de drogas", como a intelectualidade cita o traficante, com a autoridade maior de uma municipalidade. Chegamos no fundo do poço, ou talvez, perfuramos o fundo do poço para tentar chegar ao Japão pelo epicentro da terra como em um desenho animado do Pica-Pau…

De imediato, pensando no município citado, lembrei de caros subordinados que com muita luta e esforço se deslocam desde recrutas, desse distante município para doarem suas vidas ao cidadão carioca, milhares de policiais que nasceram e cresceram nessa condição de clientes da suja política eleitoral comum na baixada fluminense e outros cantos do Rio. Milhares de professores, advogados, enfermeiros e toda uma geração de profissionais que se habituou a entender a política do medo, o voto do interesse, o apadrinhamento na sacanagem.

Me pergunto, enquanto vejo as mais estapafúrdias declarações de defesa dos envolvidos, como sempre representados por excelentes e caros doutores das ciências jurídicas, como chegamos aqui. Vemos o filme da história de Pablo Escobar a distância e com certo deslumbramento pelo poder paralelo das FARCs de nossa vizinha Colômbia, mas temos inúmeras pequenas FARCs divididas em milhares de pequenos e grandes "Escobares". Como sempre, brasilianamente, vemos o outro como desastroso, e caminhamos nos fundos de poços abertos diariamente em nossas vidas.

A corrupção é estrutural, elástica, vertical, horizontal, visível de todos os ângulos, com lupa ou descarada, mas os julgamentos e julgadores, quase que em regra, até por necessidade da letra fria e positiva da lei, tem como alvo somente os indivíduos e seus valores pessoais. Como se julga uma estrutura? Esta pergunta carrego já há algum tempo. Vejo estruturas antigas, como o Brasil-Colônia serem julgadas, os governos militares sendo amplamente julgados, mas quando julgaremos a nossa geração? Um dia julgaremos as relações profanas entre o público-político e o provado-pessoal? Muitos já escreveram sobre isso, mas acredito que todos grande autores sobre o tema, também se surpreendem com o poder de diversificação das práticas criminosas em detrimento da boa administração, da democrática gestão de recursos, algo que tirando um ou outro louco e corajoso político tenha feito em algum momento da História Brasileira, é o padrão.

Continuamos procurando os messias e os ídolos que "mudarão" o país, nos enganando na figura paternal de um salvador da pátria, ou de alguns salvadores do passado, entre barbudos, estrelas douradas e outros senhores feudais que adoram mais a si mesmo que a nação, ficaremos fadados a fazer mais do mesmo e nos encostando em benefícios temporários que a ilusão e o romantismo das falas na política brasileira nos causam…

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JAN VAN CREVELD CARVALHO MONTEIRO

Especialista em Segurança Pública pela UFF - INeac, pós graduado em ciências sociais e policial há 14 anos, atualmente no posto de Capitão.

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