Por um mundo com mais Palhaços

28.11.2016

Vivemos uma época de crescente interesse pela arte do palhaço. A cada ano surgem novos cursos, festivais especializados, publicações, oficinas e espetáculos. Representante de uma arte milenar, a figura do palhaço esteve presente em todas as culturas e suas primeiras manifestações se deram em rituais de antigas civilizações. O arquétipo do palhaço foi se desenvolvendo ao longo do tempo e das sociedades, assumiu funções míticas e de cura nas culturas tribais , participou de festas populares na idade média e trabalhou divertindo reis e nobres nas cortes renascentistas. Mas foi na Inglaterra moderna, com Joseph Grimaldi 3, que o palhaço começou a apresentar as características com as quais o identificamos hoje. No final do século XVIII assistimos à consolidação do circo moderno e a partir de meados do século XIX os interlúdios cômicos foram se tornando parte essencial do espetáculo circense. O palhaço seguiu expandindo suas atribuições e nos dias atuais podemos encontrá-lo nos mais diversos ambientes: circos, teatros, feiras, hospitais, festas, televisão, cinema. Arrisco-me a dizer que hoje quase todo mundo, ou tem algum amigo palhaço, ou conhece alguém que já fez uma oficina, uma peça, um trabalho voluntário em hospital. Mas a que se deve este crescente interesse pela arte da palhaçaria? Nós, palhaços, tentamos entender esta repentina multiplicação dos profissionais da bobagem. Ainda não se sabe a causa, mas considero o fenômeno positivo. 

 

Roger Avanzi (1922), o palhaço Picolino, estreou no Circo Nerino enquanto ainda era

um bebê de colo. Tem hoje 94 anos de idade e levou toda sua vida dedicada à

palhaçaria. (Foto:Luis Alfredo)

 

Palhaço é uma profissão difícil! E ainda há que se encarar o árduo desafio de trabalhar e militar pela arte no Brasil . A palhaçaria tem modos de fazer específicos, diferentes do circo e do teatro. Não é só botar um nariz e sair por aí... o ofício tem seus riscos e cuidados! Precisa de muito estudo e dedicação, de aprofundamento teórico e prático 5. Costuma-se dizer que palhaço bom é palhaço velho. A formação é longa, mas, àqueles que querem encarar esta estrada, que sejam todos muito bem vindos, pois precisamos mesmo de cada vez mais palhaços neste mundo!

 

Em nossa sociedade, vivemos sob competição constante. Cada indivíduo trava diariamente sua luta pessoal em busca da perfeição. Somos pressionados a não errar e a esconder nossos defeitos para sermos bem sucedidos e amados. E esta é uma terrível contradição, afinal, errar não é humano? Acredito que é justamente neste contexto que o palhaço se faz necessário. Enquanto nos desumanizamos escondendo nossas falhas, o palhaço é aquele que erra. É um ser humano torto: desajeitado, idiota, distraído... tem pés grandes e sempre tropeça ou cai! Ele é o perdedor. Mas com um detalhe muito importe: ao perder, ele é aplaudido e amado pelo seu público. E assim ele nos mostra que todos merecemos ser amados como somos, com qualidades e defeitos, erros e acertos. Merecemos ser amados simplesmente porque estamos vivos! Essa é a importância do palhaço!

Que seja bem vinda a avalanche de bobos profissionais!

Que possamos almejar um mundo com mais amor e imperfeição!

 

 

 

1 O arquétipo é um tipo de personagem particularmente genérico, um modelo ou padrão passível de ser reproduzido. No caso do palhaço, o artista parte do modelo para logo em seguida lhe conferir características individuais. Cada palhaço é, ao mesmo tempo, universal e único.

2 Um exemplo são os hotxuás , palhaços sagrados dos índios Krabô, do Brasil, que desempenham relevante papel em sua comunidade, com importância similar a de seus líderes.

3 Joseph Grimaldi (1778–1837), ator inglês, era descendente de uma família de artistas italianos especializados em Commedia dell’Arte. Através de seu palhaço “Joe” tornou-se um dos mais populares cômicos da época. É considerado o criador do palhaço moderno e sua biografia foi escrita por Charles

Dickens.

4 A opção de encarar profissionalmente a arte é assunto longo e que merece atenção! Cuidaremos disto em um dos próximos textos a serem escritos para o “1 Olhar”.

5 Um palhaço precisa estudar e praticar muito por diversos motivos! Técnicas teatrais e circenses são sempre importantes e é desejável aprender música, mágica ou alguma outra habilidade especial. É preciso dominar o uso da voz para ser bem compreendido pelo público, ou estudar mímica com primazia. Fazer quedas e tropeções bem feitos exige uma grande habilidade técnica e muito treinamento. Um bom palhaço deve aprender a fazer rir sem expor o público ao ridículo, sem magoar, sem invadir o espaço alheio. Tem que utilizar o humor sem reproduzir exclusões ou preconceitos e saber conduzir com perfeição o tempo da cena pra gerar o riso. Criar números, espetáculos e ensaiar requer muita dedicação e tempo. Para trabalhar em hospitais, além da questão artística, também necessita adquirir conhecimentos sobre todos os cuidados que este ambiente exige. Para atuar em rua deve saber como fechar uma roda e ter uma incrível capacidade de improvisação e de domínio do público.  Além disso, têm que conhecer a tradição, a história da palhaçaria, os repertórios clássicos e muito mais.

 

 

Lili Castro

 

Palhaça, comunicadora e atriz. Participa de festivais e eventos nacionais e internacionais. Dá cursos de palhaçaria e circula com o espetáculo solo “O maior prêmio do mundo”. Atualmente cursa o mestrado em Artes Cênicas na UNIRIO, onde desenvolve uma pesquisa sobre a dramaturgia do palhaço.

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