O mundo e a guinada à direita

28.11.2016

 

 

Donald Trump venceu a eleição presidencial nos EUA contrariando praticamente todas as previsões dos principais meios jornalísticos. O governo do PT foi removido no Brasil por um processo de impeachment considerado polêmico por muitos. Líderes de esquerda na América Latina, especialmente Nicolás Maduro, na Venezuela, perdem apoio e possivelmente irão ser destituídos dos seus cargos em breve. A Inglaterra optou por sair da União Europeia e muitos países naquele continente se fecham à imigração. O mundo está passando por uma guinada à direita? Para responder a esta pergunta vamos em primeiro lugar examinar o que significam os termos esquerda e direita no vocabulário político, e em segundo lugar examinar se estes termos se aplicam aos exemplos aqui mencionados.

 

 Os termos esquerda e direita no vocabulário político remontam à Revolução Francesa. Naquele período diversos grupos com características diversas se reuniram no objetivo comum de dar um fim à monarquia absolutista no país. Grupos considerados mais conservadores, ou seja, que desejavam conservar características do antigo regime sentavam-se no lado direito do parlamente francês. Grupos mais radicais, que desejavam uma ruptura mais extrema com o passado, sentavam-se no lado esquerdo. Outra característica da Revolução Francesa é que grupos da direita enfatizavam a liberdade, enquanto que grupos da esquerda enfatizavam a igualdade. Desde então grupos mais radicais e com mais ênfase na igualdade são chamados de esquerda, e grupos mais moderados e com mais ênfase na liberdade são chamados de direita. Mas esta classificação possui muitos problemas de aplicação.

 

Aquilo que é visto com uma ruptura radical com o passado em um contexto pode ser visto como conservador em outro. Muitas das reformas advogadas na França no final do século 18 foram feitas de forma pacífica na Inglaterra um século antes. Do outro lado do Atlântico, nos futuros EUA, os revolucionários pediam pela conservação de seus direitos como ingleses, não uma ruptura radical com seu passado. De maneira semelhante, conservadores nos EUA contemporâneos defendem o liberalismo clássico legado pelos Pais Fundadores, enquanto que defender o liberalismo clássico é uma atitude radical em um país como o Brasil, onde esta ideologia teve sua influência limitada por diversos fatores ao longo da história.

 

A defesa de igualdade e liberdade também é um ponto polemico. Liberais clássicos certamente defendem alguma forma de igualdade ao defender a igualdade perante a lei e a igualdade de participação política. Socialistas em geral defendem liberdade econômica, mas o histórico de países socialistas demonstra que nestes regimes a igualdade política e legal muitas vezes não está presente. De forma semelhante, liberais clássicos e socialistas possuem conceitos diferentes de liberdade: os liberais entendem que o indivíduo deve ser livre para fazer suas escolhas individuais; os socialistas, seguindo Rousseau, acreditam que a sociedade pode forçar um individuo a ser livre, um conceito contraditório na concepção liberal de liberdade.

 

Por muito tempo se convencionou que socialistas, comunistas e liberais modernos (no sentido empregado nos EUA) seriam grupos de esquerda, enquanto que liberais clássicos (no sentido empregado no Brasil e Europa), conservadores e nazifascistas seriam grupos de direita. Esta classificação, porém, é cada vez mais questionada. Uma das observações mais relevantes no debate político contemporâneo é que nazifascistas têm em comum com socialistas e comunistas a tendência ao totalitarismo. Esta observação, presente em Hanna Harendt e Friedrich Hayek, contraria a perspectiva da Teoria Crítica de que há uma mentalidade totalitária no conservadorismo norte-americano. Ao contrário: o conservadorismo norte-americano (que basicamente equivale ao liberalismo clássico) enfatiza a liberdade individual, enquanto que nazismo, fascismo, socialismo e comunismo têm em comum a submissão do indivíduo a uma identidade coletiva, e assim ao totalitarismo.

 

O mundo está passando por uma guinada à direita? Se por direita entendermos liberalismo clássico ou conservadorismo anglo-saxão (representado por autores como Edmund Burke, Russell Kirk, Roger Scruton e outros), a resposta é não. Ou apenas em parte. Esta direita democrática sempre enfatizou a liberdade individual, a possibilidade do individuo possuir uma identidade única, a despeito de grupos a que pertença. Também enfatizou a liberdade econômica, dentro e através das fronteiras nacionais. O que estamos vendo é em grande parte a ênfase em identidades nacionais e uma tendência ao protecionismo econômico, características talvez não de uma esquerda nazifascista, mas ao menos de um populismo que foge dos preceitos liberais e conservadores clássicos.

 

Inicialmente a esquerda possuía um forte discurso econômico, principalmente com Karl Marx. Quando a teoria econômica de Marx foi duramente desmentida pela lógica e pelos fatos, a esquerda tornou-se militante em outras esferas, principalmente nos estudos culturais. Foram criados conceitos como identidade cultural e identidade de gênero. Atualmente vemos o feitiço virando contra o feiticeiro. A esquerda falou durante décadas sobre direito de minorias. Trump foi eleito por um grupo que, apesar de numeroso, se vê como uma minoria: homens brancos, sem nível superior, vítimas de desemprego em regiões antes industrializadas dos EUA. Olhando para trás, era apenas questão de tempo que este grupo criasse sua própria identidade e buscasse lideranças que os representasse. Um comentário semelhante pode ser feito a respeito de outros casos de chegada da “direita” ao poder. A direita democrática representada pelo liberalismo e conservadorismo clássicos ainda não chegou ao poder. Mas a esquerda começa a provar do seu próprio veneno.

 

 

Bruno Rosi é Historiador, Internacionalista e Cientista Político e ex-professor de Relações Internacionais na Universidade Candido Mendes.

 

 

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