E será que a democracia falhou?

28.11.2016

Três decisões das urnas recentes, que causaram um certo estarrecimento tanto a mim quanto a muita gente, pelo menos com relação à expectativa que se tinha com relação ao resultado, me trouxeram certas reflexões sobre como anda o processo democrático hoje em dia. São elas: O Brexit, o plebiscito colombiano para validação do acordo de paz com as FARC e as eleições americanas vencidas por Trump.

 

Não quero discutir aqui, neste texto, sobre o impacto dos resultados das urnas, mas sobre o processo democrático que levaram até eles, e sobre que ideologia pode estar se formando por detrás deles. O primeiro fato que chama atenção é o fato de todos os três terem chegado a um resultado diferente do previsto nas pesquisas, o que já acende o sinal amarelo sobre os procedimentos metodológicos das pesquisas de opinião, além de deixarem a questão: será que as pessoas em geral estão assumindo posições no silêncio das urnas das quais não tem coragem de declarar nem mesmo em uma pesquisa anônima de opinião?

 

 

Neste texto estou mais para levantar perguntas do que para tentar pensar em respostas, mas estes três fatos, aparentemente desconectados, acontecendo em três locais diferentes do planeta, sobre decisões de cunho diferente entre si, provavelmente possuem algo a dizer sobre a nossa zeitgeist, o espírito da nossa época. Os visionários de plantão que souberem ler esses fatos e suas consequências, com certeza saem na frente para se posicionarem para o futuro.

 

Particularmente, tenho o hábito de ler um fato presente pela sua construção histórica. Vale lembrar que a democracia tal qual conhecemos hoje surgiu a partir dos ideais iluministas no campo intelectual, que se transformaram posteriormente na independência americana e na revolução francesa, para se espalhar pelo mundo, principalmente do seu lado ocidental. Ao definir seu ideal por liberdade E igualdade, definiria assim sua própria arena: a queda de braço inerente da contradição natural entre esses dois polos, já que igualdade restringe liberdade, por exemplo, de como gastar o dinheiro como quiser ao invés de entrega-lo em impostos, assim como a liberdade vai naturalmente criando desigualdades, como a

livre -iniciativa empreendedora vai criando fortunas desiguais.

 

E assim se desenrolou a queda de braço política do mundo pós-segunda guerra: alguns partidos à direita puxando mais para o lado da liberdade, outros mais à esquerda puxando para a igualdade. Alguns períodos marcadamente mais para um lado, como a década de 80 e 90 e seu neoliberalismo econômico puxando a corrente a favor da liberdade, a segunda metade dos anos 2000 com seus governos mais pendentes a esquerda tentando puxar a queda de braço para o lado da igualdade. No entanto, as discussões políticas estavam definidas e, acima de tudo, circunscritas à esta arena.

 

Quem lembra bem das aulas de história, deve ter sentido falta de uma terceira palavra nos ideais democráticos: a fraternidade. De certa forma inquestionável e um pouco fora da dicotomia liberdade-igualdade, sempre esteve presente no discurso de todos as nações democráticas, seja através das ajudas humanitárias aos países que sofreram desastres naturais ou nos jantares beneficentes de milionários americanos, o discurso politicamente correto de ajudar o próximo, o irmão fraterno ​da comunidade mundial em momentos difíceis estava lá, indiscutível, inquestionável. E, todos nós, em sua esmagadora maioria crescidos no mundo ocidental pós-segunda guerra mundial (digo isso porque não imagino que este texto será lido na Ásia), de maneira direta ou indireta, fomos criados com esses três ideais como modelo ético a ser seguido. A discussão e as diferenças políticas emergiam sempre na dicotomia da escolha entre liberdade OU igualdade, mas os três valores fundamentais democráticos estavam lá, inquestionáveis, definidos na nossa sociedade quase como se dados pelo nosso DNA.

 

No entanto, apesar de parecer para nós que o mundo todo é democrático e que não é possível existir outra espécie de mundo justo sem ser esse no qual fomos criados, por mais que de fato não soe justo na prática, os ideais presentes no mundo islâmico possuem um processo de construção completamente diferentes e, como era de se esperar, em choque com os ideais “do lado de cá” do globo.

 

Enquanto esses mundos não se comunicam muito, até que conseguem viver com uma relativa paz nesse mundo pós-segunda guerra, porém é bom lembrar que vivemos numa época em que os contatos culturais estão cada vez mais constantes e rápidos, graças a evolução tecnológica que, de certa forma, esse próprio mundo democrático nos herdou.

 

Desse choque, naturalmente os conflitos emergem, como surgiriam em qualquer ambiente de forte diferença cultural. O que é novo agora, é que o ambiente é o mundo. Ser fraterno sempre costumou ser relativamente comum com seu vizinho, mas o sujeito do outro lado do planeta nem fazia parte de um possível contato.

 

E se olharmos para o resultado dessas três eleições, sob um conjunto grande de aspectos, existem fortes elementos contra a ideologia da fraternidade. Não aceitar estrangeiros refugiados. Erguer muros. Aumentar as diferenças e as barreiras entre “nós” e “eles”. Não perdoar guerrilheiros para facilitar a construção de uma nova realidade.

 

Por isso chego aqui na pergunta do título, não para responde-la, mas para deixar novas: será que os erros das pesquisas têm a ver com a dificuldade de declarar posições que são motivadas por questões em conflito com os valores de nossa criação, principalmente o da fraternidade democrática? Se isso for verdade, qual será o mundo que está se formando? Um mundo com mais conflitos, consequentemente mais guerras e mais muros? Vivemos um longo período de paz relativa na história da humanidade, pouco comum ao longo dos últimos séculos. No entanto, esses elementos que nos são revelados pelo íntimo das urnas, por ironia um símbolo da democracia, parecem nos mostrar que, de alguma forma, dentro de boa parte de nós, mesmo que sem coragem de assumir publicamente, os valores da democracia já não são mais tão fortes assim.

 

Douglas Pinho é mestrando em administração pela UFRGS, formado em economia pela UERJ. Gosta de ler de tudo, porém possui um gosto particular por história, filosofia e ciências sociais, e principalmente sobre as interconexões entre esses temas, para compreensão das peças do quebra-cabeça que formaram a nossa sociedade atual.  Os textos publicados por ele aqui se concentrarão em transitar por essa interconexão a partir das questões da atualidade, mais concentrados em levantar perguntas do que trazer respostas. É importante ressaltar que ele não é um profissional especialista nesses temas, porém somente mais um interessado e curioso que também possui 1 olhar sobre eles.

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