E a Bolívia?

02.12.2016

Escrevo este texto com o mesmo objetivo do 1 Olhar, o de tentar gerar reflexões sobre verdades absolutas. Nos tempos de hoje, onde parece que tudo virou ciência exata, opiniões tem a pretensão de serem verdades absolutas com certos e errados “claros” para todas as situações. Talvez por gostar muito da lógica científica de questionar a “autoridade” – que muitas vezes é um amigo em uma mesa de bar – me pergunto o tempo todo sobre dogmas, soluções únicas para problemas complexos e mesmo a distância abissal que muitas vezes a teoria dos livros tem da prática. E realmente não consigo, para o bem ou para o mal, aceitar facilmente verdades absolutas ou receitas prontas de sucesso.

 

Quando levamos essa lógica para a discussão político-econômica é que o negócio fica pior. A conversa geralmente começa com alguns fatos comprovados e até testes empíricos e no final quase sempre caímos na armadilha da discussão ideológica com um “quê” de debate futebolístico. Argumentos determinísticos como se política e economia fossem ciências exatas, fórmulas teóricas como garantias de sucesso e filosofias românticas que passam longe da realidade complexa dos problemas de um país.

 

Bom, a essa altura você deve estar se perguntando “Ok, mas e a Bolívia”, não era isso de que se tratava esse texto? Nos parágrafos abaixo eu explico.

 

Estive na Bolívia 5 anos atrás e realmente se tratava (e ainda é) uma país extremamente pobre, daqueles países que você como turista não consegue ver grandes perspectivas. Pobreza generalizada, nível educacional baixo, economia pouco diversificada e extremamente dependente de commodities e para piorar, com um líder populista extremamente controverso e altamente intervencionista. Como latinos já vimos esse filme várias vezes e sempre com um final trágico.

 

Pois bem, esses dias, em uma discussão sobre economia com um amigo, ele me apresentou (novamente) o ranking da Heritage Foundation (http://www.heritage.org/index/ranking) sobre liberdade econômica, como a  verdade absoluta do motivo pelo qual o Brasil (estamos na 122º posição de 178 países) fracassou em sua política econômica. Não entrarei no mérito desta discussão aqui. O fato é que no dia estava lendo uma reportagem sobre a situação trágica e miserável que a Venezuela está vivendo e me veio a lembrança da Bolívia, pois como vocês devem lembrar, Bolívia e Venezuela tinham uma plataforma ideológica muito próxima que é o Bolivarianismo. E o pior: a Venezuela do passado sempre foi mais rica e próspera que a sempre pobre Bolívia. Então me perguntei: Será que a Bolívia acabou e ninguém me falou nada? Fui olhar os dados, começando com a evolução do PIB:

 

 

   

 

 

 

Tomou um susto né? Assim como você, fiquei espantado com os dados do PIB e resolvi procurar mais dados da economia no período de Evo Morales.

 

PIB per capita:

 

 

Inflação:

 

 

Rating:

http://www.tradingeconomics.com/bolivia/rating

 

Salário Mínimo

 

Em resumo, em 10 anos o governo de Evo Morales triplicou (!!) o PIB da Bolívia, ao mesmo tempo em que manteve a inflação em patamares civilizados (mais recentemente em trajetória estável de 5% a.a.), acumulou uma saudável reserva de divisas internacionais, e gerou condições para que, mesmo diante de uma grave crise de petróleo, tivesse uma melhora na percepção de risco dos investidores, expressa na evolução do seu rating. Por sinal, a Bolívia mesmo sendo uma país muito mais pobre, hoje tem o mesmo rating que nós para a maioria das casas de risco.

 

Outra comparação entre Bolívia e Brasil: quando eu viajei para lá em 2012 o câmbio estava 4 bolivianos para 1 real, e era uma festa para nós. Hoje, não chega a 2 bolivianos (1,92) para 1 real, algo inimaginável a época.

 

Já que estamos falando de Brasil, que tal falarmos de endividamento do setor público (nossa grande discussão atual com a PEC do teto dos gastos). Bolívia: 39% do PIB (era de 80% em 2005), Brasil 73% do PIB (era de 55% em 2005). Que lavada hein!

 

Do ponto de vista social a Bolívia alcançou resultados igualmente impressionantes: reduziu a população em estado de extrema pobreza de 38,2% para 17% e praticamente quadruplicou o salário mínimo no período. Com aumento da renda e controle da inflação, não é de se espantar que o povo boliviano teve um aumento muito expressivo no poder de compra.

 

Mas afinal, como esse “milagre” é possível? Só para complicar mais um pouco, lembram-se da verdade absoluta do meu amigo sobre o ranking da Heritage Foundation? Pois é, a Bolívia está em 160º lugar, abaixo de Serra Leoa (142º),  Liberia (143º) e Haiti (150º). Como pode?

 

 A primeira impressão que acredito que responde parte da questão diz respeito a base de comparação. A Bolívia era e ainda é extremamente pobre, de forma que, quando falamos de um incremento relevante sobre uma base pequena tem um efeito rapidamente perceptível. E este incremento veio bem na onda do superciclo de valorização das commodities com destaque para os hidrocarbonetos, principalmente o gás natural (responsável por 53% das exportações desse país em 2013), onde somos seus principais clientes. Até aqui não parece haver nenhuma novidade, a não ser a de que um governo de esquerda seja capaz de ser pragmático e responsável no que diz respeito a política econômica.

 

No entanto, ao olharmos os dados com maior atenção percebemos que, mesmo diante de uma crise de 2008 e a atual crise do preço do petróleo, a Bolívia teima em crescer, não a um ritmo chinês como antes, mas cresce. Chama a atenção que diversos outros países com economias fortemente dependentes de commodities, notadamente petróleo, a pancada foi grande, muito grande (vejam o que está acontecendo com Angola por exemplo).

 

Busquei algumas fontes alternativas que pudessem explicar melhor o que aconteceu na Bolívia, e me deparei com uma matéria do Instituto Mises, uma referência da escola austríaca do pensamento econômico. Fiquei muito curioso pela explicação desse pessoal, pois o modelo de Evo Morales é tudo aquilo que essa escola prega que não se deve fazer. Não custa lembrar que o governo boliviano controla boa parte dos preços dos insumos básicos da economia (combustíveis, energia elétrica etc.), é extremamente intervencionista, tendo estatizado dúzias de empresas. Bom, abaixo segue o artigo do Mises.

 

https://mises.org/library/what%E2%80%99s-driving-bolivia%E2%80%99s-booming-economy

 

Antes que você pergunte, não sou simpatizante de Evo Morales, mas com base em tudo aquilo que mostrei acima não tenho como não reconhecer os expressivos resultados que ele tem alcançado. Mais do que isso, a Bolívia é um exemplo claro de que não existem fórmulas únicas para resolver problemas complexos de um país e é por isso que não acredito em alternativas únicas ou verdades absolutas na discussão econômica!

 

E você, o que acha?

 

 

Bruno Ribeiro é administrador formado pela UERJ e pós graduado em finanças pela COPPEAD. É funcionário de carreira do BNDES e tem como principais interesses economia, análise de investimentos, mercado financeiro e tecnologia. Adora futebol e cerveja!

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