Smartphones têm vida própria

10.12.2016

O primeiro smartphone a gente nunca esquece. Eu adorava meu celular basiquinho, mas chegou um momento em que o imediatismo falou mais alto. Já não dava para esperar chegar em casa para abrir um email, ou para conferir as notícias e fofocas no facebook. Assim, em meados de 2014, finalmente abracei o mundo e comprei um smartphone pra chamar de meu! Como era possível um aparelho do tamanho de um palmo me causar tantos sentimentos contraditórios? Sim, porque ao mesmo tempo que eu olhava para ele completamente embevecida, confesso que eu também sentia medo...muito medo.

A tecnologia assusta. Me lembrei da minha avó, que sempre se recusou a usar batedeira elétrica. Seus bolos, deliciosos por sinal, sempre foram feitos usando um batedor manual, daqueles bem antigos, que tinham um cabo de madeira acoplado a uma mola. Eu insistia tanto para que ela experimentasse a batedeira, mas era em vão. Só entendi exatamente o que ela sentia, quando me vi frente a frente com meu novo celular.

Nosso relacionamento inicial foi um verdadeiro desastre. Nem falo dos aplicativos, o simples fato de fazer ou atender uma ligação era motivo de pânico. Tudo funcionava a um simples toque, touch para os íntimos. Até que eu conseguisse atender, a pessoa já havia desligado, ou eu mesma escorregava o dedo pro lado errado e interrompia a chamada.

Nessa hora o que se faz? Apela-se para os filhos, claro! Quem estava em casa era o meu mais novo. Coitado... Os três primeiros minutos da aula de tecnologia de ponta foram traumáticos para nós dois. Começamos tentando criar uma senha desenhada. Com muita dificuldade, tentei traçar um Z. Após duas tentativas frustradas, Pedro desistiu, mudou a tela e, me acusando de falta de coordenação motora, mandou que eu escolhesse uma senha numérica. Por várias vezes senti que ele me lançava olhares atônitos, e cheguei a ouví-lo murmurar "eu não tô acreditando..."

Dois anos se passaram e hoje, superados os obstáculos iniciais, ainda tenho alguns probleminhas eventuais com meus smartphone. Por exemplo: o que dizer daquele momento em que você prepara o celular para tirar uma foto e a câmera está no modo selfie? Sinceramente, faltam-me palavras. O elemento surpresa paralisa a pessoa. Sim, porque antes de encarar um espelho você busca o melhor de si, mantendo sempre a distância e a iluminação adequadas. Com o dispositivo no modo selfie, não há tempo hábil para uma prévia do seu verdadeiro "eu"! Espero que um dia a tecnologia evolua a ponto de criar mecanismos capazes de bloquear a inversão da câmera, só desbloqueando o modo selfie mediante senha alfanumérica, composta por no mínimo 25 caracteres.

Outra coisa interessante é que nós, da terceira idade, acreditamos que smartphones têm vida própria. Sempre que eu tento mostrar alguma coisa pro meu marido no meu celular, ele invariavelmente faz a imagem desaparecer e ainda reclama que ela sumiu sozinha. Já a minha especialidade é dar sumiço nos ícones da tela inicial. Tenho certeza que eles entram em algum buraco negro do aparelho, ou desaparecem para todo o sempre. Estava justamente pensando sobre esses estranhos fenômenos, quando chegou um WhatsApp da minha mãe, de 83 anos. Era uma foto completamente incompreensível e fora de foco. Perguntei o que era aquilo. "Não sei, o telefone disparou sozinho e acho que fotografou o aparelho de pressão que estava na minha cama...", respondeu.

Pensando bem, nós da terceira idade não achamos que smartphones têm vida própria. Temos certeza!

 

Suely Rosset

 

Sou paulista, casada, e tenho dois filhos:  o mais velho é piloto comercial e dono de uma empresa de aluguel de veleiros, o mais novo estudante de engenharia estagiando no mercado financeiro. Sou formada em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, mas moro no Rio de Janeiro há mais de trinta anos.  Já trabalhei em metalúrgica, estatal, joalheria, tive meu próprio negócio e atualmente não trabalho.  Há alguns anos comecei a me interessar por política e hoje esse é um dos meus temas favoritos.  Costumo ler artigos do Rodrigo Constantino, Alexandre Borges, Felipe Moura Brasil e diversos autores do Instituto Liberal.  Em relação a partido político, me identifico com o Novo e sua ênfase no indivíduo, na meritocracia, na livre iniciativa, no respeito à propriedade privada e no desejo de um Estado menor e mais eficiente.

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