A dor e as delícias de ser vegana. Uma travessia dolorosa e bela.

06.12.2016

Era uma churrasqueira de primeira. Além de ser, desde menina, uma assídua frequentadora de Rodízios de carne, um dos maiores prazeres de minha vida sempre foi reunir amigos nos finais de semana, ora no clube, ora num pequeno chalé, em São Carlos, interior de São Paulo, para fazer churrasco. Era uma alegria imensa todo aquele ritual de temperar as carnes, furá-las no espeto, acender o fogo, fazer ele se agigantar, o cheiro do carvão queimando, servir a todos e, é claro, comer. E num destes dias, com um olho na grelha e outro na tv, assisti a uma breve entrevista com uma garota que dizia que não comia carne, pois não queria ingerir dor e sofrimento, nem ter cadáveres em seu estômago. Naquele momento, serenamente, continuei servindo a todos os convidados, inclusive marido e filhas, mas parei ali de comer animais. No dia seguinte, já em casa, comuniquei a todos que havia virado vegetariana. De lá pra cá, passaram-se quase 15 anos. Mas no meio do caminho tinha verdades à minha procura e o envolvimento com um longo job, relacionado à animais , me escancarou a tenebrosa realidade da indústria da carne, do leite, dos ovos e tudo o que se refere à escravidão e o holocausto animal.

 

Virar vegetariana foi tranquilo. Fui a uma nutricionista, que me orientou em como obter proteína através de outros alimentos, tais quais: grãos, folhas escuras, sementes, vitaminas etc... não senti, nunca mais, vontade de comer carne de nenhum bicho, nem da terra, nem do mar.

 

Há 4 anos, minha filha chega em casa com uma bomba: "mãe, agora virei vegana". A minha reação foi de uma autêntica mãe super protetora, judia:" como assim? Você está louca? Você já está magra, vai ficar um palito"! No que ela disse: "mãe, você está se escutando? Você, que sabe, mais do que ninguém, como a indústria do leite e dos ovos é monstruosa? Como tem coragem de me dizer isso?".... eu ainda insisti: "mas e seu marido? Você não vai mais conseguir jantar fora? E nas festas? E os doces que amamos? E a nhã benta da Kopenhagen?". Ela argumentou que havia chegado a hora e a partir dali, além da carne, não comeria ovos, não consumiria leite e seus derivados. Óbvio que meus escrúpulos berraram e dia após dia, a cada mordida, em algo que que não fosse vegano, eu me culpava.

 

Então virei vegana. Em principio uma vegana falsa. Comia escondido até de mim mesma, mas com o passar do tempo a consciência se agigantou diante da vontade de comer. Eu tinha paixão por queijo parmesão, provolone e por NHA BENTA, um chocolate dos deuses, da Kopenhagen. Mas todos tem além de leite e ovos, tutano de boi (na gelatina do marshmallow) e intestino de bezerros recém nascidos (nos  queijos). E aos poucos comecei a comer escondido cada vez menos, fui parando de abrir exceções e me restringindo, definitivamente, a uma alimentação alternativa. Tarefa fácil? Nem um pouco. Mas fui à luta, aprendi a cozinhar delicias com ingredientes vegetais e hoje faço parte de uma tribo que aumenta a cada dia. Encaro o veganismo como uma evolução moral e espiritual, que avança de forma desenfreada pelo planeta. Todos um dia serão veganos. Se não for por amor e compaixão pelos animais, ou pela saúde, será pela necessidade diante de um iminente esgotamento do solo no mundo. Ah, quanto às delícias, elas não se limitam à culinária. Elas se estendem, especialmente, à deliciosa sensação de fazer parte de uma história de amor ética e respeito aos demais habitantes desse planeta.

 

 

Sandra Zatz

 

Minha vida sempre se equilibrou, de forma muito louca, entre a alegria e a dor. E do bulling por ser gorducha, pulei para o lugar mais alto do pódio, em se tratando de graça e beleza. Meu trabalho sempre foi uma festa. De repórter à assessoria de Imprensa, tudo foi arte, show e rock and roll. Mas o tempo, implacável que é, machuca e te joga de novo no olho do furacão do bulling da idade avançada e da cara caída do trem. O glamour de ontem ficou lá atrás. Hoje rio da dor, do desamor e essa outra pessoa que habita em mim, é bem melhor do que já foi.

 

 

 

 

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