O partido do "Escola Sem Partido"

05.12.2016

A vida é feita de escolhas e toda escolha é política. Essa afirmação inclui a campanha do ''Escola Sem Partido" e o projeto em si. Ele é político e assume um lado, uma posição.

 

''Partido; substantivo masculino. Associação de pessoas em torno dos mesmos ideais, interesses, objetivos, etc; liga.''

 

É possível observar, já de início, a principal contradição do projeto. Em seu art. 2°, I, dispõe que  "a educação nacional atenderá aos seguintes princípios: I - neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado". O próprio projeto não tem neutralidade política, nem ideológica. Pelo contrário, visa cercear a liberdade de expressão, a democracia nos espaços públicos de aprendizado, limitando a atuação docente nas escolas e universidades.

 

 

Durante todo o ensino fundamental, médio, pré-vestibular e a faculdade, participei de aulas, palestras e atividades com professores das mais variadas posições e ideologias políticas: de esquerda à direita, incluindo até adeptos à ditadura civil-militar. E digo, seguramente: todos e todas foram fundamentais para o desenvolvimento da minha personalidade e meu amadurecimento como cidadão crítico e participativo, com a consciência de que as transformações na vida derivam da luta diária.

 

E sempre interpretei essa situação com muita naturalidade. Isto porque, na minha opinião, qualquer abordagem em sala de aula compreenderá um juízo de valor do ou da educadora - ainda que em assuntos distantes da conjuntura política. O que não é ruim, pelo contrário. Como escreveu Paulo Freire em sua obra ''Pedagogia da autonomia'', educar exige criticidade, isto é, o desenvolvimento de uma curiosidade crítica acerca da realidade.

 

Assim, a exposição crítica do educador sobre os fatos sociais compõem a sua prática educadora, que incentiva e desperta nos educandos a curiosidade e o senso crítico, necessários à formação individual e coletiva e opostos à mera apresentação memorizada, constituída da prática contínua da repetição e domesticação.

Educar também significa criar possibilidades. Ao invés de proibir e restringir a atuação do educador quanto às suas opiniões, deveríamos pensar em assegurar o respeito à curiosidade do educando, às suas posições, inquietudes, experiências, linguagem, timidez e liberdade. A preocupação deve estar em garantir que o corpo discente possa participar de debates e se posicionar durante aulas, mesmo que para discordar e contra- argumentar com o ou a professora.

 

Deveríamos pensar na garantia de acesso e permanência dos e das estudantes - atribuindo a devida importância à assistência estudantil - de participação efetiva na gestão educacional, de escolha da direção e do debate amplo acerca do currículo, dos métodos avaliativos e das diretrizes programáticas da escola ou universidade.

 

A partir disso, e não do "Escola Sem Partido", é possível fomentar o respeito, a pluralidade de ideias e o sentido de comunidade.

 

A escola e a universidade são, SIM, espaços de reflexão, de construção - e reconstrução - coletiva do saber, envolvendo educadores e educandos na radicalização da democracia, para que tornem-se cada vez mais inclusivos e humanos.

 

Não à mordaça!

 

 

Hugo Gomes Ottati de Menezes, carioca, 22 anos, graduando em Direito pela Universidade Federal Fluminense (Niterói), militante dos direitos humanos e da luta pedagógica diária e adepto à pedagogia crítica de Paulo Freire. Socialista e tricolor.'' 

 

 

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