Educação no Brasil: tudo errado

08.12.2016

Há menos de um ano atrás, estávamos sob a tutela de Dilma Rousseff, com seu slogan oficial:  "Brasil, uma Pátria Educadora".  Não que os governos anteriores tenham feito um bom trabalho; longe disso.  Só que isso não impede que o slogan dilmesco tenha sido uma piada de mau gosto.


Desde 2000, o OECD (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) avalia, de 3 em 3 anos, como está a Educação no mundo, em dezenas de países associados ou convidados.


A avaliação PISA de 2015, que abrange cada vez mais países, alcançou 70 países e foi divulgada no dia 6 de dezembro.

 

A nota do Brasil em Ciências caiu de 405 em 2012, para 401 em 2015 (63º.); em Leitura, o desempenho caiu de 410 para 407 (60º). Finalmente, em Matemática, a pontuação dos alunos brasileiros caiu de 391 para 377 (65º).

 

Em Matemática, o Brasil só está na frente de Tunísia, Macedônia, Kosovo, Argélia e República Dominicana. Em Ciência, adicione Peru e Líbano. E em Leitura, acrescente Qatar, Geórgia e Indonésia.

 

Na média geral, o Brasil está em 63º, na frente do Peru (por apenas 1 ponto), Líbano, Tunísia, Macedônia, Kosovo, Argélia e República Dominicana.

 

O Brasil está atrás de todos os países da América Latina listados no ranking da PISA, exceto o Peru e a República Dominicana, ou seja, Colômbia, Argentina, Chile, Costa Rica, Uruguai e México.

 

O Peru está nos alcançando rapidamente. Enquanto a média do Brasil no PISA caiu 1,7% desde 2012, a média do Peru subiu 5,1% e a Colômbia, que estava atrás do Brasil em 2012, nos passou com um aumento de 4,5%. No Uruguai, o ranking subiu 4,4%, no Chile subiu 1,5% e na Argentina cresceu 18,2% (É muito estranho a Argentina, no apagar das luzes da Cristina Kirchner, ser o país onde a nota mais subiu no mundo inteiro no ranking do PISA)

 

Está tudo errado com o Ensino no Brasil.

 

Por quê?


Na média, sinto o jovem totalmente desmotivado, enfrentando um ensino maçante, burocrático e desinteressante. O único foco é um dia poder concluir o Ensino Médio e entrar na faculdade, se assim puder ou quiser.

 

E estou falando da elite. Com certeza, nas camadas mais humildes a situação é ainda pior.

 

A maioria dos alunos aprende uma coisa, com certeza: a odiar a área de Exatas. As outras áreas despertam mais indiferença do que raiva.

 

A maioria dos professores é  desmotivada,  além de ser despreparada e mal paga.  Desse modo, assuntos que poderiam despertar interesse e curiosidade são transmitidos de forma burocrática, tediosa e rotineira. Tudo isso é agravado pelo volume de matéria que eles têm que ministrar, para cumprir a ementa curricular.


As pessoas vão para as escolas por obrigação, para passar de ano e pegar o diploma. Parte quer derrotar o Vestibular. O Ensino em si é a parte chata da vida. O jovem, em geral, gosta de todo o resto: interação, redes sociais, mensagens, jogos, viagens, namoros, etc.

 

É muita matéria. A pessoa que tem afinidades com Exatas, precisa estudar detalhes e detalhes de História e Biologia; e assim por diante. Por outro lado, o cara que está se direcionando para humanas, precisa resolver equações trigonométricas.

 

Pesquisas mostram que 42% dos jovens terminam abandonando o ensino médio sem concluir. É assustador!

 

O “bom” aluno, muitas vezes, não vai além de um cãozinho adestrado para passar de ano e, quiçá,  ir bem no Vestibular. Não vai muito além disso.

 

O Brasil despreza ainda em larga escala o ensino profissionalizante, como se o único caminho aceitável na vida fosse frequentar uma Faculdade.  A pessoa que termina o Ensino Médio e não entra na Faculdade é um pária. Não terá nível superior e não tem uma bagagem profissionalizante.

 

Entrar em uma boa faculdade é uma verdadeira corrida de obstáculos.  Muitos dos que almejam ir para uma faculdade se preparam para o ENEM, que é um massacre de 2 dias. O primeiro com 4h30 e 90 questões e o segundo com 5h30, 90 questões, mais Redação.

 

No final, cobra-se muita decoreba, e pouco raciocínio. Na verdade, a ideia original do ENEM foi totalmente subvertida. Voltamos ao primitivismo da década de 70 e o malfadado vestibular maratona.

 

E o pior é que o ENEM não é uma garantia de se selecionar os alunos mais aptos. Na verdade, ele seleciona os alunos mais treinados.

 

Sobra teoria, mas falta qualquer visão ligada à vida real. Não existe no dia a dia, a fórmula do benzeno, guerra do Peloponeso, recursos minerais da Nova Zelândia ou tipos de rizoma em plantas decíduas.

 

O indivíduo sai da escola, repleto de decoreba livresca e não sabe o que é uma aplicação financeira ou o significado do imposto de renda. E essa decoreba toda se esvai na primeira esquina, como se fosse o despejo de um fardo inútil.

 

Desafio a grande maioria das pessoas já formadas ou cursando alguma faculdade, a testar conhecimentos básicos em matérias do segundo grau, fora do seu campo de especialidade.

 

A verdade é que a fase da cultura Escolástica, onde todo mundo é um pequeno Leonardo da Vinci, já ficou para trás. Hoje sabemos quase nada sobre quase tudo.


Com isso, ao final temos no Brasil apenas 8% das pessoas entre 15 e 64 anos que podem ser considerados proficientes em letras e números, de acordo com uma pesquisa abrangente do Instituto Paulo Montenegro, cuja última edição foi em 2015. E dentre aqueles que terminam o Ensino Fundamental e não prosseguem, apenas 13% podem ser considerados alfabetizados intermediários.

 

E, pasmem, dentre aqueles que tem Ensino Superior completo, pouco mais que 1 em cada 5 caem nessa categoria, 1 em cada 11 dos que terminam o Ensino Médio e em 1 em cada 45 dos que concluem o Ensino Fundamental.


Em suma, as pessoas médias não sabem pesquisar, interpretar um texto, criar, etc.

 

O que falta?

 

Minha visão é bem pessoal e polêmica.

 

O ensino precisaria ser ministrado de forma a motivar os alunos, despertar sua curiosidade, e instigá-los.

 

A Sociedade precisa de pessoas espertas, com iniciativa, criativas, questionadoras, vivazes e motivadas; não, na melhor das hipóteses, apenas condicionadas a fazer tarefas, como provas e vestibulares.

 

É preciso rever a profundidade que as matérias são cobradas. Menos detalhes, mais interconexões, mais senso comum, mais raciocínio.

 

Falta um enfoque prático, técnico, vivencial que instile o jovem a descobrir sua vocação real. Algo que realmente preparasse para a vida e não apenas para testes e provas.

 

As pessoas deveriam ter uma educação financeira básica, noções de cidadania, empreendedorismo, técnicas de pesquisa, criatividade, sensibilidade artística, saúde, noções de psicologia, com especial foco na inteligência social (atitudes, relacionamentos, negociação, convencimento, influência, etc.) e pensamento crítico (para ensinar as pessoas a questionarem as “verdades”).

 

Vale até algumas noções de Sociologia e Filosofia, como tem hoje, mas de uma forma sucinta, prática e menos livresca.

 

Faltam mais experiências na escola, atividades comunitárias, e também atividades orientadas ao ar livre, etc.

 

Debates são maravilhosos. É um hábito das escolas inglesas. Escolha um tema polêmico e assuma um lado, mesmo que não seja o que você concorda. O professor avalia os dogmatismos, preconceitos e falácias; dentre outras coisas.

 

Os alunos, em geral, carecem de qualquer noção profissionalizante, com opções  eletivas de se ter noções básicas de economia doméstica, ensino técnico com  oficinas de mecânica, elétrica, marcenaria, etc

 

O aluno deveria poder optar ainda por música, pintura, desenho, esportes; além de outros aprofundamentos nas áreas de interesse do aluno, como robótica, programação, ciências humanas, etc., de acordo com suas vocações, que vão sendo descobertas.

 

Onde a Educação funciona?

 

Há dois paradigmas bem-sucedidos no mundo, o massacrante Oriente (liderado pela Cingapura), com seu ensino quase "militar" e alta taxa de suicídios) e a suave Finlândia, que pode ser visto resumidamente nesse vídeo, além da Estônia e do Canadá.

 

Eu, pessoalmente, gosto muito do conceito finlandês:

 

• O ensino começa aos 7 anos e se estende por 9 anos. Depois o aluno escolhe entre um tipo de 2º Grau de 3 anos, para se preparar para entrar na faculdade (pouco menos de 40% escolhem essa opção), Educação Vocacional que é uma educação mais especializada orientada para sua vocação (pouco menos de 60% escolhem essa opção) ou trabalhar direto (menos que 5% escolhem essa).

 

• A aula dura em média 5 horas, iniciando-se a partir das 9:00. O professor trabalha uma média de 600 horas anuais apenas. Quando entra na escola, é comum uma criança ficar com o mesmo professor até 6 anos, em turmas de 15-20 alunos. Isso permite ao professor conhecer as crianças e personalizar sua atenção.

 

• E se o professor for ruim? Bem, só 10% dos inscritos são aprovados para dar aula para o nível elementar. E há entrevistas pessoais também. Os finlandeses entendem que ser um professor é um dom e não basta apenas saber a matéria. Assim, universidades que preparam professores, exigem que eles tenham esse dom. Todos os professores, mesmo em nível elementar, devem ter mestrado.

 

• Durante o período de 5 horas, eles tem algum break, para tomar ar puro, se for o caso. Os professores também tem breaks. Existem salas de convívio e trocas de experiências.

 

• Como os professores são bem remunerados e bem preparados, eles têm bastante liberdade e sofrem pouca pressão. Essa liberdade e flexibilidade curricular, permite que o professor aproxime mais os alunos da vida real, ensinando habilidades, fazendo projetos, etc.

 

• Não tem essa neura de testes sobre testes. As matérias simplesmente fluem, inclusive a Matemática. A quantidade de conteúdo é muito menos maciça.

 

• Eles, nem de longe, têm a quantidade de dever de casa que existe na maioria dos países. Os alunos, em geral, são muito motivados nas aulas, prestando atenção e absorvendo as coisas.

 

• Confiança é a base desse sistema, não a estrutura. Não há muitas regras. A coisa toda funciona bem de maneira fluida e na base que cada parte confia no papel das outras.

 

O detalhe é que a reportagem referenciada acima foi escrita por uma professora norte-americana, que agora viaja pelo mundo coletando experiências. Ela não conhecia muito do sistema finlandês, antes de examiná-lo in loco.

 

Ou seja, os estudantes são mais preparados (tiram bem altas notas no PISA) e, com certeza, são mais felizes e completos.

 

Finlândia é diferente do resto do mundo? Com certeza, é um modelo praticamente único. A Finlândia é, de fato, junto com a Estônia e o Canadá, os grandes benchmarkings no mundo ocidental da Educação, todos eles muito próximos na pontuação de 2015.

 

Na Estônia, o primeiro país não oriental no ranking do PISA de 2015, o que é espantoso considerando que eles são resultados da desagregação da antiga União Soviética, que adotava um modelo muito tradicionalista na Educação. 

 

A filosofia de ensino  na Estônia envolve estimular a criatividade, fomentar a visão de empreendedorismo em todos os níveis, estimular a profissionalização, ensinar o aluno a aprender, tudo isso imerso em uma boa infraestrutura tecnológica, em classes pequenas em um ambiente com gestão parcialmente descentralizada, inclusive relativo ao currículo. 

 

O ponto forte da Estônia é o professor, que apesar de receber ainda menos que a média da OECD, tem sido bastante valorizado nos últimos anos e tem uma carga horária menos opressiva. Ele recebe uma preparação e capacitação para ensinar muito forte.  Ele precisa se submeter a um grande preparo prévio para ensinar, incluindo atividades práticas, além de estar em constante aperfeiçoamento durante o exercício de sua profissão. 

 

A carga horária anual na Estônia é mais alta que a Finlândia, mas mais baixa do que a média da OECD. Há cerca de 175 dias de aula por ano. Uma aula dura 45 minutos, com um recesso de 10 minutos, mas eles têm, ao contrário da Finlândia, bastante dever de casa.

 

Como Mudar?

 

Os modelos descritos acima não são aplicáveis no Brasil em curto e médio prazo, mas pode ser um objetivo a ser buscado em longo prazo.

 

Como vimos, o principal problema não é oferecer mais quantidade de aulas.

 

Precisamos sim tirar muito do peso do conteúdo atual, exageradamente repleto de detalhes factuais e inúteis, e substituir por vários dos tópicos sugeridos acima.

 

Para mudar de verdade, é preciso fazer um trabalho aprofundado, onde se questiona tudo o que existe hoje.

 

Na média, os professores são muito mal pagos, piores que a maioria das profissões, e muito mal preparados. Seria preciso um processo lento e paulatino, que leva muitos anos. Deve-se requalificá-los, reciclá-los, criar bons planos de carreira e melhorar seus salários.

 

A maioria das coisas não envolve muitos custos, exceto em relação à valorização do professor. A parte mais importante é o conteúdo, a forma de transmiti-lo e o material humano.

 

Trata-se de uma mudança muito mais qualitativa do que quantitativa. Não precisamos tanto de prédios e equipamentos caros.

 

A filosofia tem que ser totalmente diversa. O foco passa a ser motivar, encantar, provocar questionamentos, sair um pouco do pedestal de autoridade. Enfim, devolver o brilho dos olhos para as crianças e adolescentes;

 

Desse modo não se pode esperar que o Ensino Médio, antigo ou "reformado", supra essas deficiências. O problema é muito mais estrutural. Qualquer reforma proposta teria que abranger todo o ensino básico. Nada pode ser consertado, se tudo começa errado.

 

 

Antes que alguém queira culpar o governo Temer pelo resultado de ontem, o último teste PISA foi divulgado agora,  mas foi aplicado em 2015, antes do Impeachment da Dilma.

 

 

 

Paulo Buchsbaum é alguém muito conectado a todas as grandes questões da atualidade, navegando em áreas tão distantes como Economia, Exatas e Psicologia. Ele atua como consultor de negócios e empreendedor, mas tem paixão por escrever, já tendo 3 livros lançados. Seu site é www.negociossa.com

 

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