Doenças comuns ainda matam na infância.

Apesar de grande esforço mundial, muitas doenças comuns e tratáveis, continuam preocupando e ainda apresentam altas taxas de morbidade e mortalidade que insistem em desafiar a comunidade científica pelo mundo, levando muitos, a considerar o conceito de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) utópico, principalmente considerando as doenças infecciosas. Para a OMS, a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças. E essa abordagem positiva tem norteado as ações em saúde pública desde o final da Segunda Guerra Mundial, mas ainda assim parece que mesmo com todo o esforço por parte dos países, vemos cada vez mais distante o sonho de erradicação de algumas doenças infecciosas. 

 

 

É importante manter-se esclarecido e ter consciência de que nenhuma doença é tão branda que não possa evoluir para óbito, assim como também, nenhuma doença é tão grave que não se possa reverter o quadro e se restabelecer. Observando os dois aspectos, é muito pior considerar que doenças comuns, e que em geral são preveníveis e tem tratamento, ainda continuam tirando vidas de crianças nos dias de hoje. Também é preciso deixar claro que apesar de tanto desenvolvimento científico e tecnológico, muitas das doenças não apresentam a tendência de erradicação. As características dos agentes associados ao número cada vez maior de pessoas susceptíveis apresenta um cenário complexo e dinâmico, que pode explicar o porquê de ainda estarmos comentando doenças comuns.

 

Outra informação importante é que a maior parte dos recursos e das ações de melhorias para o enfrentamento das doenças infecciosas está em países desenvolvidos que podem arcar com programas de saúdes mais eficientes e tem na infraestrutura sua base para que tantas mortes sejam evitadas. O tema está no âmago da sociedade e somente nela pode-se encontrar o melhor caminho para um desafio que ninguém quer mais admitir.

 

Muitos autores, jornais, revistas, em todo tipo de mídia de comunicação, destacam que toda ação tem uma reação. Isto está claro, mas quero discutir de forma diferente e chamar a atenção para cada ação não tomada e dizer que a reação pode ser ainda maior. Em saúde pública, e falo isso em todos os aspectos possíveis, ações não tomadas ou não realizadas podem acabar em instantes com décadas de ações positivas e de sucesso. É como se andássemos contra o vento o tempo todo e quando paramos para descansar, o vento forte e continuo nos levasse para trás com muito mais facilidade e muito mais distante do que o ponto onde começamos.

 

A realidade que teima em separar países e determinar indicadores de desenvolvimento dos mesmos em blocos parece não acreditar que cada vez mais estamos intimamente ligados e que os reflexos de tudo aquilo para o qual continuamos de olhos fechados nunca chegarão. Ainda hoje acredita-se que saúde pública é coisa do governo. Na verdade é, mas não é só do governo, não é só do Município ou Estado, não é só de um governo, é de todos. O problema é de todos os países, de toda a sociedade e as doenças infecciosas mostram claramente isso.

           

Como exemplo, quero neste momento destacar a doença diarreica aguda, uma doença comum que para muitos é considerado um problema apenas em países que estão abaixo da linha da pobreza, mas a realidade mostra que não e o impacto vai muito além das fronteiras dos países. A mortalidade desta doença está diretamente relacionada à desnutrição e a falta de assistência médico-hospitalar. O diagnóstico e o tratamento são relativamente simples e estão disponíveis, mas os custos e a falta de estrutura além da falta de monitoramento permitem que a doença siga seu curso natural. É a segunda maior causa de mortalidade infantil no mundo e com o aumento da população mundial, a migração populacional por parte dos refugiados, as questões sociais e econômicas internas, o acesso a alimentos seguros e água potável de qualidade, além do fato de ainda existirem muitos agentes infecciosos, torna o enfrentamento da doença cada vez mais difícil.

 

O rotavírus é a causa mais comum de diarréia grave em crianças <5 anos de idade em todo mundo. Desde 2006, duas vacinas contra o rotavírus foram licenciados em mais de 100 países e em 2009, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendou que todos países, particularmente os países com altas taxas de mortalidade associadas a diarréia em crianças, introduzam vacinas contra o rotavírus em seus programas nacionais de imunização. Até o final de 2014,  mais de 70 países haviam introduzido a vacina contra o rotavírus em Programas de imunização infantil e diversos países que implementaram, apresentaram resultados com impacto significativo sobre diarréia grave e doença causada por rotavírus com consequente hospitalização.  Além disso, alguns países, incluindo México, Brasil e Panamá, documentaram diminuições substanciais de 22% a 50% na mortalidade por diarréia em crianças <5 anos após a introdução da vacina. No entanto, a implementação de vacinas contra rotavírus em contextos de alta mortalidade infantil na África e na Ásia está apenas no começo, e o potencial real de salvar vidas da vacinação ainda não foi evidenciado. Para facilitar a tomada de decisão sobre a adoção de vacinas contra rotavírus por países e para auxiliar no financiamento e priorizar investimentos em intervenções de saúde, são necessárias estimativas atualizadas da mortalidade infantil por rotavírus e determinar o cenário mais próximo da realidade possível de cada país . Além disso, estimativas basais da mortalidade por rotavírus são necessárias para medir o impacto da vacinação e suas conseqüências na saúde pública. Em 2008, a estimativa da OMS alcançava 453.000 mortes por rotavírus em crianças em todo o mundo e foi obtida a partir de dados sobre a mortalidade infantil total por diarréia no ano aplicando os dados de vigilância sobre a taxa de detecção de rotavírus em crianças hospitalizadas com diarréia. A disponibilidade de novos dados e o uso de novos métodos resultaram em várias estimativas atualizadas da mortalidade por diarréia em crianças nos últimos anos  e  em 2010, a mortalidade por diarréia foi estimada em 1,24 milhões de em crianças < 5 anos com dados até 2008. Em 2013, esta estimativa chegou a 752.000 mortes com dados de 2010 e mostrou uma diminuição de 39% em relação à estimativa anterior. A vigilância se expandiu desde a sua criação em 2008 e atualmente inclui dados de muitos países onde o impacto da doença causada pelos rotavírus não estavam disponíveis anteriormente.

           

Se observarmos as estimativas atualizadas da mortalidade por diarréia, considerando o período de 2000 até 2013  e os dados de vigilância sobre a doenças por rotavírus e o impacto da utilização de vacinas em países que implementaram, destacamos que 37% das 578.000 mortes por diarréia em crianças crianças < 5 anos em 2013 foram devidas ao rotavírus (215 000 mortes por rotavírus nessa faixa etária). A proporção de mortes por diarréia devido ao rotavírus diminuíram apenas de 43% para 37% durante o período de estudo de 14 anos (2000 a 2013). No entanto, o número estimado de mortes por diarréia por qualquer causa diminuiu em mais da metade durante esse período, mostrando que em números absolutos a redução foi significativa.

                 

Embora a vacina contra o rotavírus tenha sido introduzida em mais de 60 países no mundo até o final de 2013, a maioria dos países que usaram a vacina contra rotavírus durante o período de revisão foi de baixa mortalidade e o impacto da vacina contra rotavírus nas estimativas globais de mortalidade por rotavírus tem sido limitado. O monitoramento sistemático das taxas de mortalidade por rotavírus e das mortes através da vigilância do rotavírus ajudará a determinar o impacto da vacinação.

           

Outro detalhe é que mais de 90% das mortes por rotavírus em 2013 ocorreram em 72 Países de renda baixa e média sendo os elegíveis para apoio à introdução de vacinas. A maioria (56%) de mortes por rotavírus ocorreu em países da África Subsaariana, a região que corresponde a 10 países e respondeu por todas as mortes em 2013 com taxas de mortalidade por rotavírus > 100 por 100 000 habitantes. Dada a sua grande dimensão populacional, a Índia apresenta o maior número estimado de mortes por rotavírus para um único país, representando mais de um quinto das mortes associadas ao rotavírus ocorridas no mundo em 2013. Com a implementação de vacinas contra rotavírus que teve início em 2012 em vários países da África Subsariana, e o licenciamento de um vacina para rotavírus de baixo custo, produzido na Índia no início de 2014, o impacto da vacinação na mortalidade infantil por rotavírus pode em breve ser mais evidente.

           

É óbvio que estes estudos e suas estimativas apresentam limitações, mas somente o monitoramento sistemático em diferentes países e a confirmação laboratorial, onde se tenha a uniformização dos critérios e dos dados é que será possível determinar o real impacto deste agente e das medidas e ações  propostas para a doença em si. Ainda assim podemos vislumbrar a tendência de melhora no cenário se o esforço de implementação de vacinas para os rotavírus for concentrado nos países onde a taxa de mortalidade é alta para a doença diarreica. Entretanto fica o pensamento de que se aplicarmos uma vacina e a taxa de mortalidade infantil reduzir como o esperado, o que vai acontecer com cerca de 100.000 crianças a mais na população da África a cada ano, por exemplo. Qual o impacto na população? Haverá comida? Haverá água? Essas crianças vão morrer de quê? Que melhorias devem acompanhar os programas de vacinação para que o custo-benefício social seja alcançado?

           

Em saúde pública temos que investir para que a sociedade possa ganhar em qualidade de vida e alavancar as melhorias em todos os outros setores. Desta forma não podemos mais pensar que se investimos em uma ação direta, não haverão mais custos, e sim muito pelo contrário, haverão muitos e estes deverão estar dimensionados para que essas ações pontuais não se percam. Caminhar contra o vento sempre, não descansar nunca para, quem sabe um dia, o vento contra pare de soprar.


 

Dr. Eduardo de Mello Volotão

 

É Bacharel em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui Mestrado e Doutorado em Ciências (Microbiologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz e Coordenador da Câmara técnica dos Serviços de Referencia do Instituto Oswaldo Cruz. Tem experiência na área de Microbiologia, com ênfase em Virologia, atuando como pesquisador e professor em programas de pós-graduação Stricto Sensu principalmente nos seguintes temas: diarréia infantil, gastroenterite virais, diagnóstico, caracterização molecular e epidemiologia de viroses humanas e animais.

 

 

 

 

 

Please reload

 SIGA-NOS AQUI TAMBÉM 
  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W
 os mais RECENTes : 

August 6, 2018

August 3, 2018

July 18, 2018

July 11, 2018

Please reload

Please reload

Copyright © 1Olhar 2017

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Twitter Icon
  • Grey Instagram Icon

O 1 Olhar é uma plataforma colaborativa com mais de 50 colunistas compartilhando o olhar, a opinião de pessoas normais sobre os acontecimentos que nos cercam.

Quer colaborar? Entre em contato