Objetificação da mulher e censura

22.12.2016

A fixação de alguns grupos em enxergar a objetificação da mulher em toda parte chega a ser opressora. É entediante a cobrança que tudo tenha que ter o carimbo de politicamente correta para ser aceito.

 

No caso, uma propaganda que mostre mulheres em poses ou atitudes sensuais pode até, muitas vezes, não se revelar um meio eficiente de anunciar, em  termos de resultado. No entanto, achar que esse tipo de propaganda desvaloriza a condição da mulher é um exagero e um pretexto raso para se estimular uma nefasta e castradora autocensura.  

 

Nossa Sociedade sempre sobreviveu a comerciais apelativos durante dezenas de anos e não foi esse fato ou a ausência dele que mudou ou irá mudar a condição da mulher. Na verdade, o que aparece na mídia acaba refletindo muito mais o que acontece na Sociedade do que o oposto.

 

Muitas das pessoas que bradam hoje contra a objetificação da mulher na publicidade parecem não se lembrar de que isso era a moeda corrente até os anos 90, década, aliás, repleta de bizarrices impensáveis nos dias hoje.

 

Não encontrei estudos que relacionem o uso de mulheres sensualizando em propagandas com a maneira como a mulher é tratada na nossa sociedade. Por isso, me voltei para pesquisas que estudem a correlação da violência na mídia com a violência na nossa sociedade.

 

Alguns levantamentos sobre esse tema são prejudicados por uma atitude enviesada de seus autores, que resultam em artigos com conclusões prontas antes mesmo do trabalho ser desenvolvido. No final, por vezes, prova-se a causalidade utilizando-se de critérios estatisticamente questionáveis.

 

Vivemos, de fato, em uma sociedade violenta com muita violência na mídia. Fica fácil concluir apressadamente, sem considerar outros fatores, que a violência na mídia resulta em violência no mundo real. É, de fato, uma conclusão tentadora.

 

No entanto, um vasto metaestudo (estudo que compila de forma comparativa diversos outros estudos) de 2012 reanalisou 50 anos de pesquisas sobre o tema e não conseguiu achar uma relação causal entre a violência na mídia versus indicadores de violência na Sociedade.

 

Há países como o Japão, muito menos violentos que os Estados Unidos, que tem bastante violência na TV, mas apresenta índices muito baixos de criminalidade.

 

Eu, cá para mim, não vejo como filmes policiais induzem pessoas a cometerem assassinatos ou jogos de videogames como GTA induzam pessoas a cometerem delitos.

 

Pânico, um filme de 1976,  já falava sabiamente: “Filmes não criam psicopatas. Filmes tornam psicopatas mais criativos”.

 

Se essa influência fosse efetiva e, de fato, provocasse violência na nossa Sociedade, o ser humano seria um galho fraco e teríamos que transformar nossa TV, nossos games e nossa Internet; em intermináveis jograis de anjos.

 

Portanto, com ainda menos motivos, não consigo conceber que anúncios que apelem para sensualidade sejam capazes de incitar as pessoas a desrespeitarem mulheres, praticarem assédio ou cometerem estupros. De mesma forma, mulheres estiradas na areia  de costas com biquínis ínfimos também não provocam esse tipo de efeito. E, nesse caso, ninguém pode falar de objetificação externa da mulher, já que, no caso, se trata de opções delas mesmas (auto-objetificação).

 

Obrigar a transformar toda a propaganda em peças assépticas e assexuadas, para que a mulher não se sinta mais sendo objetificada, até agradaria uma parcela de feministas, mas geraria menos oportunidades de trabalho, além de uma censura, disfarçada como autocensura, que, quando começa pelas beiradas, não para mais de avançar.

 

Nesse contexto, a história da carioca Alezzia, que vende móveis de aço inox, é emblemática. Uma parcela de ativistas feministas quis jogar a população contra a  marca, só porque a Alezzia usa uma modelo em poses sexy para anunciar seus produtos.

Para efeito de comparação, o vídeo da música Eu Escolhi Você da Clarice Falcão é bem simbólico. Sem dúvida, Clarice quis criar polêmica  para ajudar a divulgar sua música usando elementos extramusicais, bem nos moldes que a Madonna fazia nos anos 80 ou a Miley Cyrus, agora, no clip da música Wrecking Ball, que ela sensualiza com uma bola  de metal pendurada.

 

Não há como negar, no contexto acima, que esse vídeo objetifica tanto a mulher como o homem, ao mostrar muitos corpos nus de frente e de costas, sem nenhum rosto, de forma totalmente despersonalizada. Alguns irão, de forma contraditória, elogiar a expressão artística desse vídeo ou do vídeo da Miley,  enquanto, por outro lado, criticam as propagandas da Alezzia.

 

No fundo, cria-se uma grande cruzada moral, onde uma marca passa a ser julgada por critérios subjetivos e ideológicos, ao invés de examinar o que realmente importa: a forma como a empresa lida com seus clientes ou pela qualidade dos produtos que ela vende.

 

No caso da Alezzia, o mais interessante é que a empresa conseguiu transformar toda essa celeuma em uma grande jogada de Marketing.

 

 

Minha crítica à implicância de certas correntes contra anúncios que sensualizam a mulher, não me impede de reconhecer que esta é ainda, aqui e ali, tratada como um objeto, especialmente no campo dos relacionamentos. Também me parece inegável que o machismo ainda está por aí, a despeito de todo o progresso que já houve, e que ainda há bastante espaço para a Sociedade evoluir.

 

 

Paulo Buchsbaum é alguém muito conectado a todas as grandes questões da atualidade, navegando em áreas tão distantes como Economia, Exatas e Psicologia. Ele atua como consultor de negócios e empreendedor, mas tem paixão por escrever, já tendo 3 livros lançados.

Seu site é www.negociossa.com

 

 

 

 

 

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