Neutralidade: a terminologia do covarde

23.12.2016

O convite para escrever no ''1 Olhar'' logo despertou meu interesse, não só pela oportunidade de contribuir com reflexões e debates relevantes, mas também por um detalhe: o nome. O ''1 Olhar'' assume a potencial existência de diversos olhares para um mesmo acontecimento, pressupondo, portanto, que haja posição, interpretação, escolha.

 

Digo isso porque vivemos, hoje, o tempo do ''neutro'', do ''são todos iguais''; dos ''sem partido''. Não me refiro às proposituras alternativas, de outros caminhos, mas aos discursos falaciosos, que se sustentam em uma suposta neutralidade, inexistente. Aliás, lembra-se: omitir-se também é tomar partido.

 

Em qualquer momento, a utilização da neutralidade pode assumir dois sentidos: o da má intenção na defesa de interesses próprios e busca pela persuasão - ou alienação - do senso comum (principalmente em momentos de crise de representações); e o da ingenuidade pura e alienada na crença de que as concepções e valores pessoais são passíveis de serem imparciais e objetivos.

 

Tanto no ''Escola Sem Partido'', quanto, ainda com mais complexidade, na atividade informativa da mídia convencional, o apelo à falsa neutralidade é evidente e parte de um objetivo bem definido: a imposição de um pensamento único; de uma só forma de observar, interpretar e entender um determinado fato, seja ele político, social, histórico.

 

Nada mais do que uma tática política que se opõe ao pluralismo e à contraposição de ideias e se materializa na intolerância à diversidade, inclusive em locais de construção e reconstrução do saber, de produção acadêmica e científica, de desenvolvimento individual e coletivo.

 

Tudo isso sob o imaginário da neutralidade, do que seria ''o natural'', porque não lhes interessa a criticidade, o diferente, mas tão somente a dominação e o controle social, através do imperativo de padrões de conduta, que excluem, oprimem e matam todos os dias. O caminho, para eles, é esse: a manutenção do status quo, a partir da marginalização, estigmatização e criminalização.

Nesse sentido, o discurso da neutralidade sustenta a conveniência - percebida em consonância aos interesses e objetivos particulares - evidenciando que há um propósito ideológico intrínseco a ele, mormente a serviço de posições dominantes e da manutenção da ordem. E que, por isso, nunca serão isentos de pretensões.

 

Como disse Paulo Freire, a neutralidade é uma opção escondida. Na prática, porta-se apenas como a terminologia do discurso pávido, de quem possui desejos, interesses, defende posições, mas não tem coragem de assumi-las.

 

Covardes.

 

Hugo Gomes Ottati de Menezes, carioca, 22 anos, graduando em Direito pela Universidade Federal Fluminense (Niterói), militante dos direitos humanos e da luta pedagógica diária e adepto à pedagogia crítica de Paulo Freire. Socialista e tricolor.'' 

 

 

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