Traduzir-se – uma homenagem a Ferreira Gullar e à incoerência do existir.

26.12.2016

 

 

Domingo, dia 04/12/16, acordo e me deparo com a notícia da morte do grande poeta, escritor e crítico de arte Ferreira Gullar. Imediatamente, minha mente vagueia para o meu poema predileto dele:

 

 

Traduzir-se

 

Uma parte de mim

é todo mundo;

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

 

Uma parte de mim é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

 

Uma parte de mim

Pesa, pondera;

outra parte

delira.

 

Uma parte de mim

almoça e janta;

outra parte se espanta.

 

Uma parte de mim

é permanente;

outra parte

se sabe de repente.

 

Uma parte de mim

é só vertigem;

outra parte,

linguagem.

 

Traduzir-se uma parte

na outra parte

— que é uma questão

de vida ou morte —

será arte?

 

Ferreira Gullar, Na Vertigem do Dia. 1980.

 

 

 

Leio a comoção das pessoas, as postagens de notícias sobre a morte de Ferreira Gullar e um vídeo em especifico me chama atenção. Neste, Ferreira Gullar, conta que estava saindo de casa um dia em direção ao jornal que trabalhava. Estava atordoado com questões pessoais quando foi abordado por um casal que o reconheceu e o elogiou. No caminho, após esse encontro esse poema foi surgindo, enquanto ele se questionava sobre essa experiência do homem comum, com problemas pessoais e ser visto como o poeta, o jornalista e o crítico.

 

Todas essas informações, pensamentos, homenagens remetem-me ao que essa poesia me inspirou, me ajudou e sintetizou um momento difícil que atravessei. Mas, o que importa é que para mim ela legitima, dá permissão e, melhor ainda, me alivia das minhas incoerências e me abre a tentar ser tolerante e empática com as incoerências alheias.

 

Embora sejamos educados para viver em sociedade, o que implica, reprimirmos impulsos mais básicos como agressivos e sexuais, desejos escusos, ações contra o outro, somos essencialmente seres incoerentes, duais, feitos de polaridades: bem, mal, vida, morte, amor, ódio, etc. Somos educados para a coerência, linearidade e racionalidade e, parece que, ao sermos flagrados ou flagrarmos as incoerências alheias ficamos incomodados, irritados e constrangidos.

 

A loucura, a comédia, a Arte e as paixões são os lugares, nos quais, a incoerência é aceita, ainda que criticada (e talvez invejada). Quem nunca se assustou com um louco na rua? Quem nunca se espantou com uma obra de arte? Que nunca criticou a amiga que se perdeu numa paixão? E também quem nunca achou estar enlouquecendo? Ou disse algo inadequado? Ou quis dizer algo inadequado? Piadas, trapalhadas, pilequinhos são momentos muito bem-vindos e divertidos da nossa incoerência. Mas, tirando esses momentos, em quais outros nos permitimos ser incoerentes?

 

Quando não abrimos voluntariamente a porta para essa indesejada visita, ela pula o muro ou invade a nossa casa. Então, como conviver com ela de forma mais fluída e criativa? Em situações de perdas, grande stress, brigas conjugais, ela nos invade. Os homens acusam as mulheres por sua ambigüidade, por perguntarem algo esperando outra resposta, outra reação. As mulheres se queixam da falta de uma simples escuta, sem tentativas de consertos ou saídas práticas a questões emocionais. Nem coerência, nem incoerência. É preciso saber discriminar quando necessitamos de racionalidade, linearidade e pragmatismo. E quando precisamos da dualidade, da tensão de opostos e do nonsense. Nas relações, o que muitas vezes ocorre é que um desabafa algo e espera apenas ser ouvido e sai com uma lista de "to dos" para “resolver” a situação. Enquanto outras vezes há um problema prático a ser solucionado e ficamos rodando até ficarmos tontos e sem saída.

 

Agora adentremos um assunto mais espinhoso: o discurso politicamente correto, um dos grandes reguladores da voz social CORRETA e coerente. Uma parte de mim, como diria o poeta, valoriza e reconhece essa necessidade de criarmos um discurso respeitoso a camadas da sociedade que vem sofrendo preconceitos graves ao longo da história. Outra parte se espanta com a tamanha intolerância criada pelo discurso politicamente correto. Esse efeito colateral negativo deriva, a meu ver, de uma inversão de papéis. Aqueles que sofreram intolerância, muitas vezes, estão armados e interpretam qualquer fala ou pensamento mais livre, não necessariamente preconceituoso, como ofensivo, abusivo e preconceituoso.

 

 

 

Ou seja, respeitar, reconhecer não precisa levar-nos a concordar. Ser tolerante e saber conviver com as diferenças não implica falar amém só para ser correto. Antes de sermos corretos, precisamos ser reflexivos e ponderar como nos colocamos diante das diferenças. É humanamente impossível concordarmos em tudo e aceitarmos todas as diferenças. Mas, podemos respeita-las. Porém, esse respeito tem que vir de ambos os lados. Sinto muitas vezes que aqueles que sofreram alguma discriminação, acabam discriminando sem perceber seus diferentes para outros. E é aí que alguns movimentos mais radicais escorregam. Querem tolerância, leia-se aceitação cega, do que pregam mas são fechados a qualquer opinião diferente da cartilha do movimento. Ao passo que a evolução psicológica, social e cultural passa pelo diálogo das diferenças. E diálogo é escuta, troca e até discordância. Discordar não é, necessariamente, ser intolerante. E ser contra discordar é uma das maiores intolerâncias.

 

Voltando ao nosso tema inicial: será que podemos ser mais tolerantes com as nossas incoerências e com as incoerências alheias? O poeta nos responde: traduzir uma parte na outra parte é uma questão de vida ou morte ou será Arte ? Busque a sua tradução e a sua Arte e garanto que você será mais inteiro. Até nas suas incoerências.

 

 

 

 

Yedda Raynsford Macdonald, carioca de origem e de alma, paulista por hábito e respeito. Psicóloga clínica de adolescentes, adultos, casais e família. Autora do livro: Divagar, Devagar: depressão e criatividade lançado pela editora Appris e co-organizadora do livro "Pescaria Noturna: elaborando criativamente o lado sombrio da personalidade" a ser lançado em 2017 pela mesma editora. Amadora das palavras desde sempre.

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