UM EXÉRCITO ARMADO COM TORTAS DE CREME

28.12.2016

“Tenho sincero respeito por aqueles

artistas que dedicam suas vidas

exclusivamente à sua arte – é seu

direito ou condição! -, mas prefiro

aqueles que dedicam sua arte à vida.”

AUGUSTO BOAL

 

 

Em meu último texto falei do palhaço como aquele que erra e é amado, servindo para nos lembrar de que todos nós, falíveis e imperfeitos, merecemos ser amados também. Estamos mesmo entrando em tempos onde os palhaços são cada vez mais necessários, pois enquanto eles falam de amor, humanidade e imperfeição, uma grande onda de intolerância cresce e inunda o planeta. O ano de 2016 foi cheio de surpresas nefastas, revelando uma generalizada dificuldade em respeitar diferenças e uma tendência à valorização do pensamento e “verdade” únicos. Como se isto fosse possível... Entre os motivos que me levaram a escrever para o 1 Olhar está justamente a crença em que precisamos valorizar a diversidade e aprender a respeitar as divergências de opinião. Nenhuma verdade é absoluta! Concordo com a sentença e assino embaixo. E hoje quero falar sobre os artistas que usam a palhaçaria como instrumento de luta por um mundo mais tolerante e igualitário.

 

Sempre defendi uma visão da arte como instância de pensamento político e arma de transformação social. Me inspiro e partilho das ideias de Augusto Boal (i), que costumava dizer que todo teatro é necessariamente politico, porque políticas são todas as atividades do homem. E a palhaçaria, claro, não poderia ficar de fora! O palhaço já é uma figura revolucionária em si: estúpido, desajeitado, indelicado, surpreendente e provocador. Representa a liberdade e a anarquia, a subversão do poder, o questionamento da ordem. O palhaço possui uma visão de mundo a partir de uma lógica invertida e sua atitude depõe contra a meritocracia e a competitividade da nossa sociedade.

 

Diversos artistas, ampliando a dimensão de seu exercício político e social, vão para além do espaço cênico, atuando diretamente em zonas de conflito. No Brasil e no mundo muitos grupos se mobilizam para realizar intervenções de palhaços em comunidades carentes ou prestar ajuda humanitária em hospitais, creches e asilos. Existem também organizações internacionais como os Pallasos en Rebeldía e o Payasos sin Fronteras, que reúnem artistas para atuações em territórios em situação de guerra, miséria e risco social.

 

O Payasos sin Fronteras surgiu no natal de 1992, quando um grupo de estudantes secundaristas de Barcelona pediu ao palhaço Tortell Poltrona (ii) que se apresentasse para crianças refugiadas numa aldeia na península de Ístria, atual Croácia. Eram refugiados da guerra na ex-Iugoslávia desmembrada. A partir desta experiência é fundada uma ONG com a missão de melhorar a situação emocional de crianças que padecem consequências de conflitos armados, guerras ou catástrofes naturais. Isto é feito através da realização de espetáculos de palhaços que trabalham como voluntários e a organização conta com colaboradores oriundos de diversos países, inclusive do Brasil.

 

Expedição do Payasos Sin Fronteras no Congo, em abril de 2009. Foto: Walter Astrada.

 

Outra reconhecida organização é a Pallasos en Rebeldía, com a qual colaboro desde 2013. A ONG é dirigida pelo palhaço Ivàn Prado (iii) e realiza caravanas e festivais em áreas como Palestina, Saara, Síria, campos de refugiados na Jordânia e no Líbano e comunidades zapatistas no México. No Brasil realizou, em 2016, o festival “Festiclown pela Terra”, trabalhando com populações indígenas em situação de conflito como os Kariri Xocó em Alagoas, os Guaranis em Santa Catarina e os Guaranis Kaiowá no Mato Grosso do Sul e também em assentamentos e acampamentos do MST. O festival contou com a colaboração de diversos artistas realizando espetáculos, debates, oficinas de palhaço e de técnicas circenses. O trabalho funciona como uma via de mão dupla: os artistas chegam ao local para fazer espetáculos, intervenções e oficinas. Doam riso, amor e realizam capacitação em atividades artísticas. Mas também ouvem e aprendem sobre os costumes e problemas da população local e, ao partir, atuam como porta-vozes, trazendo para o mundo informações sobre as dificuldades e opressões vividas pelos povos visitados. Além de levar arte, também servem como veículo de denúncia, informação e conscientização.

 

Festiclown pela Terra, 2016. Foto: Pallasos en Rebeldía/Divulgação

 

Nesta senda, artistas de vários países constituem uma rede de solidariedade, rizomática e nômade, que não reconhece diferenças sociais, barreiras linguísticas ou fronteiras. A rebeldia natural do palhaço é levada para além dos picadeiros e palcos e se levanta contra formas de injustiça, tirania e abuso de poder. Estes palhaços subvertem a ordem, se mobilizam e formam um verdadeiro exército: são tropas armadas com tortas de creme e narizes vermelhos, na luta por um mundo melhor!

 

Chegando aos últimos dias de 2016, após tantas decepções e incertezas, perplexa, mas esperançosa, brado por menos verdades e por mais tolerância. Por menos certezas e mais diversidade. Por menos bombas de gás e mais tortas de creme. Empunhemos nossa arte e sigamos em luta!

 

 Foto: Fabian Bimmer. Berlin, 2007.

 

 

i - Augusto Boal (1931-2009), diretor e autor teatral brasileiro, é um dos grandes nomes do teatro internacional, sobretudo pela repercussão de suas teses sobre o Teatro e a Estética do Oprimido. Começou sua carreira artística em 1956 e durante toda sua vida trabalhou no desenvolvimento do teatro como instrumento de luta e emancipação popular. Seus livros já foram traduzidos para 22 línguas e sua metodologia do Teatro do Oprimido atualmente é praticada nos cinco continentes.

 

ii - O palhaço catalão Tortell Poltrona (1955) é fundador e atual presidente Payasos sin Fronteras e criador do Circ Cric, circo que influenciou várias gerações de artistas. Ao longo de seus 40 anos de carreira se apresentou ao redor do mundo, ganhou incontáveis prêmios e é considerado uma referência internacional na arte da palhaçaria.

 

iii - O palhaço e diretor Iván Prado (Lugo/ES) tem reconhecida atuação no cenário artístico internacional. É criador e diretor de diversos festivais de palhaços como o Festiclown (Galícia), Magiclown (Ibiza), Firaclown (Barcelona) e o Festiclown Palestina. É porta voz do Pallasos en Rebeldía e cofundador do “Artist Against The Wall” junto a Leo Bassi e Patch Adams. Atua e ministra cursos ao redor do mundo. No Brasil dirigiu o Festiclown Favela (Rocinha, 2014) e o festival Festiclown pela Terra (2016). http://www.festiclownpelaterra.org

 

Lili Castro

 

Palhaça, comunicadora e atriz. Participa de festivais e eventos nacionais e internacionais. Dá cursos de palhaçaria e circula com o espetáculo solo “O maior prêmio do mundo”. Atualmente cursa o mestrado em Artes Cênicas na UNIRIO, onde desenvolve uma pesquisa sobre a dramaturgia do palhaço.

Please reload

 SIGA-NOS AQUI TAMBÉM 
  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W
 os mais RECENTes : 

August 6, 2018

August 3, 2018

July 18, 2018

July 11, 2018

Please reload

Please reload

Copyright © 1Olhar 2017

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Twitter Icon
  • Grey Instagram Icon

O 1 Olhar é uma plataforma colaborativa com mais de 50 colunistas compartilhando o olhar, a opinião de pessoas normais sobre os acontecimentos que nos cercam.

Quer colaborar? Entre em contato