Não se faz mais boa música?

09.01.2017

 

Muitas pessoas mais velhas alegam que hoje não se faz mais música boa. E que tudo que toca hoje é lixo.

 

Nada é mais longe da verdade.

 

Posso apontar quatro dos principais motivos que me levam a desacreditar dessa “verdade”, tantas vezes repetida.

 

1 -  A música é uma forma de arte que representa, no meu modo de pensar, um gosto extremamente pessoal, mais do que a maioria das outras coisas na vida. Vejo mais diversidade no gosto musical, por exemplo, do que em conceitos como apreciação de comida ou estética.

 

Isso acontece porque a forma como a música nos sensibiliza e nos mobiliza é extremamente dependente da forma como cada um de nós funcionamos por dentro, mesclado com todas as nossas lembranças conscientes e inconscientes.

 

Para muitas pessoas, a música é um dos mais poderosos conectores de emoção que nosso cérebro dispõe. A sucessão de acordes, palavras, instrumentos e ritmos trazem elementos completamente diferentes pessoa a pessoa.

 

Antes da Internet, eu não tinha essa visão tão clara na minha mente. Achava que as pessoas tinham que gostar de certas músicas que eu gostava. Hoje convivemos online com o gosto de milhares de pessoas e não canso de me impressionar.

 

É incrível quantas vezes eu vejo no YouTube ou na Amazon um internauta comentar que essa ou aquela canção é a melhor música de todos os tempos, ainda que, muitas vezes, ela não signifique nada para mim!  E isso não me faz pensar que a outra pessoa está errada. Não existe isso. Apenas entendo cada vez mais a absurda diversidade no que se refere ao gosto das pessoas.

 

2 - Quando vamos ficando mais velhos, a vida tende a ficar um pouco mais linear e menos emocionante. Os fatos e acontecimentos nos impressionam menos. Já vimos quase de tudo um pouco. E nossas conexões neuronais se consolidaram.

 

Nesse contexto, as músicas que marcaram nossa juventude terminam se destacando de todas as demais, porque elas marcaram nossos grandes momentos. E as novas músicas têm dificuldades de se encaixar nesses padrões e mexer com os cordões de nossa alma.

 

Eu, sendo uma pessoa que viveu principalmente a música dos anos 70 e 80, tendo a não apreciar tanto a música que veio depois. No entanto vejo muitas pessoas mais novas evocarem grande saudade nos anos 90 com sendo a década final das grandes músicas. Pessoas mais velhas que eu tendem a fixar nos anos 60 e até nos anos 50!

 

3 – Antigamente gravar música era uma empreitada bastante cara. Havia estúdios de gravação caríssimos que os músicos eram obrigados a contratar, pagando a hora de gravação a peso de ouro, caso eles decidissem partir para produção independente.

 

Caso contrário, os artistas ficavam presos aos esquemas das gravadoras. De todo o modo, a distribuição para as  lojas era uma questão complexa e era difícil fazê-la de forma independente.

 

Hoje é tudo muito barato. Com poucos milhares de reais, é possível adquirir computadores e acessórios que permitem fazer gravações bastante profissionais.

A música passou a ser bit. CDs, DVDs, Blue-rays estão entrando em extinção. A moda passou a ser áudio e vídeo on demand. Fala-se em YouTube, Now, Netflix, Pandora, Spotify, Apple Music, Apple TV, etc.

 

Ainda que rumando para a obsolescência, prensar CDs de forma artesanal não é mais um bicho de sete cabeças. A Amazon vende a música tanto em CDs, como em arquivos digitais. A gigante iTunes, da Apple, vende apenas em formato digital.

 

Qualquer artista pode usar essas plataformas, se eles deixaram uma percentagem de suas vendas para elas. Não é preciso mais fechar contrato com uma gravadora.

 

Por outro lado, ganhar um dinheiro razoável com música se tornou mais desafiante. A pirataria, o hábito de “assistir” música (Youtube, Spotify;  dentre outros) streaming (sem baixar, direto na nuvem), a decadência das mídias físicas; vieram para complicar a vida de quem quer viver de música. Para ganhar dinheiro em maior escala, o artista depende muito mais dos shows.

 

4 – A Internet mudou e está mudando o mundo. Ela permite em todos os campos a proliferação de nichos dos mais triviais aos mais exóticos. Adoradores de travesseiros de pena de ganso podem se descobrir e se encontrar pelas ondas online. E isso vale para tudo.

 

No campo musical, há 20 anos seria impossível que determinados estilos musicais existissem e se perpetuassem, além de um nível muito rudimentar. Não havia fãs suficientes para sustentar economicamente grupos ou artistas de certos estilos.

Há vários sites que permitem a exploração de dezenas e até centenas de estilos musicais, possibilitando um autêntico e permanente ambiente de descoberta.

 

O Spotify, por exemplo, por um preço mensal bem módico, permite que o ouvinte descubra e navegue em tudo que é estilo musical. Ambientes desse tipo ficaram extremamente populares entre os jovens.

 

Entretanto, não posso negar que o que chega nas principais estações de rádio é extremamente mais limitado do que o universo musical existente. Isso pode criar a falsa impressão que é só isso que existe.

 

Eu reconheço que não gosto dos estilos que predominam hoje na rádio, mas minha filha gosta.

 

E eu tenho que respeitar isso, de verdade. É o que está mexendo com a juventude atual. E eles vão se lembrar de tudo isso com a mesma saudade que nós tínhamos das décadas passadas!

 

 

Como amante de música, durante mais de 20 anos, desde o advento da Internet, pesquiso novas canções de forma quase obsessiva, desde os anos 50 até os dias atuais. E vivo me surpreendendo. Com o passado e até com o presente. 

 

Confesso que não tenho muita paciência com música clássica ou erudita. Admiro quem aprecia, mas não alcancei isso. Identifico-me muito mais com músicas cantadas. O máximo que eu chego, são algumas músicas clássicas isoladas, alguma coisa de jazz instrumental e instrumental, especialmente para se ouvir ao vivo ou em um filme, e música barroca espanhola, pois adoro o som do violão clássico.

 

Para quem quer viajar em algumas das músicas instrumentais mundialmente conhecidas, eis aqui uma amostra de 79 pequenos trechos.

 

No âmbito da música pop, achei algumas músicas extremamente raras, com pouquíssimas visualizações, mas que eu me encanto por elas, independente de sua popularidade.

 

Por exemplo, como seria possível antes da Internet achar uma música beatlesca como Let Love In de 2002 do grupo The Elms, que tem apenas 730 visualizações ou as belas guitarras de Whisper Softly de 1998 do grupo Myracle Brah, com pouco mais de 4.000 visualizações?

 

 

Dentre outros estilos, eu também gosto de músicas lentas, embora reconheça que a maioria das baladas são medíocres, compostas de maneira quase industrial.

 

Muitas pessoas não curtem música lenta, porque consideram quase todas tremendamente enjoativas. Eu respeito essa opinião, mas penso diferente.

Para quem curte música lenta, mas acredita que só existe o passado, não é bem assim.

 

A música Say Something original foi composta a gravada pelo trio indie A Great Big World em 2013. Não chamou muita atenção e vendeu pouco. No entanto, a estrela pop Christina Aguilera conheceu a música e se encantou por ela. Ela entrou em contato com eles e os seduziu para regravar a música, com ela participando dos vocais, no final de 2013.

 

No final, essa canção chegou na quarta posição da Billboard, vendendo mais de 4 milhões de cópias nos EUA e chegando a número 1 na Austrália, Bélgica e Canadá. A música ganhou até um Grammy em 2015. O vídeo do YouTube foi visto quase 320 milhões de vezes.

 

Cada um irá preferir uma das versões: a versão original ou a versão com Aguilera; ou nenhuma delas. Em todo o caso, é preciso admitir que essa composição não é uma música produzida em série como tantas outras: tem uma letra com significado, uma emoção e uma autenticidade.

 

Para quem gosta de uma música mais para cima, temos a música "Philomena" do grupo The Decemberists de 2015, com um estilo que lembra a música Island in the Sundo grupo Weezer de 2001.

 

Para quem aprecia música brasileira, mais na linha da antiga MPB, temos, por exemplo, a Banda do Mar, liderada por Marcelo Camelo, ex-líder da banda Los Hermanos, com bonitas canções como "Mais Ninguém"  e "Dia Clarear", ambas de 2014.

 

 

Não se faz mais boa música?

 

A se basear pelo que toca no rádio, para nós mais velhos, é o que parece. Entretanto, se você mergulhar um pouco mais, irá descobrir muitos tesouros, do presente e do passado, mesmo que os seus tesouros sejam diferentes dos meus. 

 

Está tudo na nuvem!

 

 

LEIA MAIS

 

ARTIGOS RELACIONADOS:

 

-Traduzir-se – uma homenagem a Ferreira Gullar e à incoerência do existir por Yedda Macdonald

 

-Uma revolução alimentar vem ocorrendo mundo afora por Sandra Zatz

 

-Divagando por Suely Rosset

 

 

Outros Artigos:

 

-Início do Século por Paulo Gustavo Ganime

 

-Doenças comuns ainda matam na infância por Eduardo de Mello Volotão

 

-Alimentos contaminados por Fabiana Gil Melgaço

 

 

 

Paulo Buchsbaum é alguém muito conectado a todas as grandes questões da atualidade, navegando em áreas tão distantes como Economia, Exatas e Psicologia. Ele atua como consultor de negócios e empreendedor, mas tem paixão por escrever, já tendo 3 livros lançados. Seu site é www.negociossa.com

Please reload

 SIGA-NOS AQUI TAMBÉM 
  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W
 os mais RECENTes : 

August 6, 2018

August 3, 2018

July 18, 2018

July 11, 2018

Please reload

Please reload

Copyright © 1Olhar 2017

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Twitter Icon
  • Grey Instagram Icon

O 1 Olhar é uma plataforma colaborativa com mais de 50 colunistas compartilhando o olhar, a opinião de pessoas normais sobre os acontecimentos que nos cercam.

Quer colaborar? Entre em contato