Tranformando vidas através do Xadrez

18.01.2017

Durante esses quase 30 anos trabalhando com Xadrez, o que mais gosto de fazer é jogar. O combate no tabuleiro, o olho no olho, a discussão não verbal entre os adversários sobre as estratégias que serão usadas na batalha, um mesmo exército, um único campo de batalha onde nunca se joga a mesma partida duas vezes, enfim, a dinâmica do Xadrez é uma das coisas que faz com que a pessoa que aprende e quer jogar nunca mais pare. Incrível a quantidade de ex-alunos que me encontram e falam: Ainda jogo, ensinei meu primo, etc... é realmente gratificante.

 

Dar aulas é outra coisa que me agrada, mas gosto ainda mais quando são em projetos sociais. Aprendi Xadrez em um projeto social, acredito nisso, então, quando tenho a oportunidade de trabalhar com Xadrez em comunidades eu vibro.

 

 

Uma vez tive a felicidade de trabalhar na Mangueira, uma comunidade muito grande no Rio de Janeiro. Lá existe um projeto para encaminhar jovens para o mercado de trabalho. Eu, conhecedor de suas dificuldades e muito empolgado com a chance, pensava em como poderia ajudar aqueles garotos e garotas. Acreditando que poderia ensinar algo para a vida deles, fui com toda a força catalisadora do esporte e minha história de vida.

 

Sempre acreditei que os jovens de favelas precisam de oportunidades, mas também precisavam de alguém para mostrar-lhes como era possível melhorar suas condições. No xadrez temos um exemplo: Quando o peão chega na última fila, ele pode ser trocado por qualquer outra peça, menos o Rei. Então pensei que seria um bom começo, fazer com que acreditassem neles mesmos e buscassem a evolução material.

 

Depois de os ensinar a jogar, perguntei que peça eles achavam que eram naquele lugar. Os que se achavam mais espertos falaram rapidamente que eram os Reis do pedaço. Os que tinham problemas de comunicação e timidez, lógico, eram os peões e ainda havia aqueles que adoravam dizer que eram o cavalo porque gostavam, e assim foi.

 

Passei boa parte da aula tentando mostrar que estamos em várias partidas simultâneas na nossa vida, que em alguns momentos somos peões, outros peças maiores, mas que o nosso objetivo era ser Rainha. Os garotos não gostavam disso, as garotas vibravam e eu, no meio, mostrando que no tabuleiro a Rainha é a mais poderosa, anda para todos os lados, ataca muito bem e, sem dúvida, na maioria das vezes que o peão chega do outro lado do tabuleiro, se transforma na Rainha.

 

Depois de investir um tempo precioso no debate sobre em que momentos da vida eles eram as peças, e que essas peças tinham um valor enorme, eles conseguiram entender. Pedi então que preparassem uma redação mostrando os momentos, as peças e porque achavam que naqueles momentos eram aquelas peças.

 

Na semana seguinte, acreditando que teria uma quantidade enorme de redações, fui surpreendido com a baixa adesão. Muitos disseram que não tiveram tempo, outros que tiveram que fazer entrevistas em empresas e blá, blá, blá. Como não estava valendo nota, peguei minha frustração e fui corrigir as que tinha recebido.

 

Há muito tempo que ser professor deixou de ser apenas passar conhecimento. Não existe um professor que não tenha tido a experiência de aprender com seus alunos. Hoje, com a internet, isso fica cada dia mais visível, e nesse meu caso a surpresa foi grande.

 

Um dos menores garotos da turma, o mais quieto e que estava sempre com sono me entregou uma das redações que jamais vou esquecer. Ele não só entendeu tudo o que eu tinha explicado, como conseguiu identificar em sua vida onde ele estava, o que ele era e onde ele iria chegar. Para mim foi um sentimento de realização, de que tinha conseguido.

 

Não vou redigir a redação aqui, mas posso dizer que o garoto acordava às 3h da manhã, ia até uma padaria ajudar o padeiro a fazer o pão (logicamente que se identificava como o peão nesta área), e com isso ganhava algum dinheiro para ajudar sua mãe, que estava desempregada, e seus dois irmãos. Por volta das 7h ele ia em casa se arrumar, para ir ao curso na Mangueira e tentar ser aprovado e indicado para alguma empresa (neste caso disse que entre os alunos não era peão, porque tinha sempre um dinheirinho para comprar alguma coisa e sempre ajudava se um de seus amigos precisasse).

 

Mas a grande surpresa foi quando disse que em casa ele era o Rei. Durante as aulas eu evitei que se comparassem ao Rei, nem falamos sobre ele. Mas esse menino disse que quando chegava em casa, brincava um pouco com seus irmãos enquanto sua mãe fazia o café para tomar com o pão que ele tinha levado e ela perguntava o que ele iria querer comer a noite quando chegasse da escola. Era pra ele uma demonstração de que estava no caminho certo para ser o Rei, já que sua mãe aceitava suas idéias não só sobre a comida mas sobre tudo, seus irmãos o adoravam e seus amigos o tinham como um bom conselheiro. Além disso, ele ainda escreveu o que achava que um Rei tinha que fazer para que seus súditos o amassem. Ao final do curso, ele estagiou em uma empresa e depois foi contratado.

 

Em tempo algum eu desisti de fazer por alguém o que fizeram por mim quando me apresentaram ao Xadrez, mas este menino, sem dúvidas, me deixou muito feliz. Hoje, quando nos falamos pelas redes sociais, ele demonstra muito agradecimento pelo que fiz, mas sempre deixei claro que ele que tinha feito mais por mim, tinha me dado a certeza que o que eu estava fazendo estava certo, que o que eu estava querendo, transformar a vida daqueles garotos, era possível e, principalmente, saí de lá com uma motivação muito maior do que quando cheguei. 

 

Sem dúvida nenhuma posso afirmar que o Xadrez é mágico.

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Renato Carvalho

 

Olá, meu nome é Renato Carvalho, sou profissional de Xadrez há mais de 20 anos com títulos regionais e nacionais, como treinador fui também Campeão brasileiro por equipes e vários atletas Campeões nacionais. Atualmente sou treinador da equipe de Fluminense Football Club, escrevo sobre Xadrez no site Xadrez sem Mistério onde também encontrarão várias matérias de outros profissionais.

Forte abraço

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