Hepatites virais: Conhecer para se proteger

 

O termo ‘hepatite’ se refere a qualquer inflamação no fígado, transitória ou crônica, que pode ter origem em causas diversas.

 

Uso excessivo de álcool e medicamentos, doenças metabólicas e auto-imunes, toxinas, infecções virais... Muitos são os agentes causadores dos diversos tipos de doença, conjuntamente classificados como hepatites. Entre as razões mais comuns está a infecção pelos vírus das hepatites, dentre os quais, cinco agentes já são bem conhecidos. Eles são classificados de A a E de acordo com características específicas do microorganismo e com os modos de transmissão da doença.

 

As formas mais comuns são as hepatites A, de transmissão entérica (aquela feita a partir do consumo de água e alimentos contaminados ou pelo contato direto com fezes e urina de pessoas infectadas), C e B, respectivamente de transmissão sanguínea e sanguínea/sexual. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 2 bilhões de pessoas já foram infectadas em algum momento de suas vidas pelo vírus da hepatite B, e que cerca de 500 milhões de pessoas sejam portadoras crônicas das hepatites B e C, que estão entre as principais causas de morte por câncer de fígado no mundo. Esse número é cerca de 12 vezes maior do que o número de pessoas que hoje vivem com HIV/AIDS em todo o mundo.

 

 

No Brasil, dados do Ministério da Saúde coletados entre 1999 e 2011 apontam para cerca de 340 mil casos de hepatites virais notificados, dentre os quais a hepatite C, apesar de não ser a mais prevalente, é a principal causa de doença hepática e a mais frequente indicação de transplante de fígado.

 

De acordo com uma pesquisa publicada pelo Datafolha em junho de 2011, é surpreendente a falta de conhecimento dos brasileiros com relação às hepatites. Esse estudo demonstrou que grande parte da população desconhece o papel das hepatites como doenças potencialmente graves, bem como informações sobre tratamento e vacinação. Dados da Organização Mundial de Saúde sugerem que esse desconhecimento também seja frequente em diversas partes do mundo, sendo Ásia e África as regiões do globo mais afetadas e onde menos se tem conhecimento sobre sua relevância e medidas de prevenção. Não é a toa que essas doenças foram, até bem recentemente, classificadas internacionalmente como doenças negligenciadas.

 

Mas qual seria o risco representado pelas hepatites virais? Apesar dos vírus de transmissão entérica levarem, normalmente, a uma doença branda e auto-limitada, os de transmissão sanguínea/sexual podem levar a manifestações severas, representando graves consequências à saúde pública. A grande preocupação com relação as hepatites transmissíveis pelo sangue é o seu potencial de cronificação, que faz com que a doença seja lenta e silenciosa, porém, progressiva. A infecção causada por esses vírus apresenta elevado risco de evolução para doença hepática, acarretando em perda da qualidade de vida e até mesmo morte por câncer ou necrose do fígado.

 

O principal sintoma indicativo de hepatite é a icterícia, caracterizada pela cor amarelada na pele e na parte branca dos olhos, decorrente do mau funcionamento do fígado. Entretanto a infecção pode ser assintomática, assim como outros sintomas também podem estar presentes, como náuseas, vômitos, mal-estar geral, urina escura (cor de coca cola), fezes claras (esbranquiçadas), inchaço e dores abdominais. Mas como é possível se prevenir? Além das medidas de saneamento básico e acesso a água tratada que apresentam alto impacto na prevenção das hepatites de transmissão entérica, hábitos de higiene pessoal, lavagem e preparação adequada de alimentos também ajudam a prevenir o surgimento de novos casos. Com relação às hepatites transmissíveis sexualmente e/ou pelo sangue, a prevenção é realizada pelo uso de preservativos durante a relação sexual, triagem adequada de sangue e hemoderivados, o não compartilhamento de objetos pessoais como seringas, alicates de manicure, barbeadores, escovas de dente, entre outros. Vale lembrar também que alguns desses vírus podem ser transmitidos através da placenta ou na hora do parto, podendo também estar presentes no leite materno, de modo que é de extrema importância a realização adequada do pré-natal.

 

Já existem vacina para as hepatites A e B e ambas fazem parte do calendário vacinal oferecido pela rede pública. Entretanto, para a hepatite C, considerada por muitos especialistas como a forma mais grave devido aos elevados índices de cronificação, ainda não há uma vacina disponível. Apesar disso, em função de avanços na terapia nos últimos anos, grandes melhorias foram alcançadas para os portadores crônicos da doença. Até pouco tempo, o tratamento para a hepatite C se mostrava ineficaz em um número considerável dos casos (~60%), além de apresentar severos efeitos colaterais. Entretanto, a partir de 2012, após a introdução das primeiras drogas de ação direta (DAAs, do inglês "Directing Acting Drugs") já é possível se vislumbrar uma cura para os pacientes infectados pelo vírus da hepatite C. O Brasil é um dos primeiros países em desenvolvimento a incorporar esse novo tratamento no sistema público de saúde. Só em 2015, cerca de 30 mil pessoas foram beneficiadas com o acesso a essas novas drogas. O que se espera é acarretar, a longo e médio prazo, uma redução considerável na morbidade, internações e transplantes associados à doença.

 

Apesar de representarem um mal silencioso, acarretando graves consequências para a saúde pública, as hepatites virais são, em sua maioria, tratáveis e possíveis de prevenção. O desconhecimento e falta de informação são os principais entraves em um cenário onde se objetive a erradicação dessas doenças.

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Bárbara Vieira do Lago é biomédica formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), mestre e doutora em Biologia Celular e Molecular pelo Instituto Oswaldo Cruz, pós-doutora em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e atua como Biotecnologista na Fundação Oswaldo Cruz.

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