Trump: fazendo inimigos e se isolando

28.01.2017

 

Trump, de forma até surpreendente, insiste em construir o tal muro entre o México e os Estados Unidos, que ele tinha prometido durante a campanha.

 

Muitos achavam que era só bravata de candidato, só que não.


Alguns partidários de Trump estão se jactando que ele apenas estaria cumprindo suas metas de campanha. Eu não me orgulharia tanto se as promessas são ruins. Prefiro que ele as descumpram do que cumpri-las e prejudicar a relação com outros países.

 

Hoje, de certa forma, já existe uma barreira que cobre cerca de um terço da fronteira de mais de três mil quilômetros entre EUA e México. Ela foi erguida e reforçada pelos presidentes mais recentes, incluindo democratas e republicanos. Essas áreas com barreiras estão entre as mais visadas e populosas do EUA e do México.
 

Uma curiosidade que poucos sabem: de 2009 a 2014 mais pessoas deixaram os Estados Unidos pelo México do que o oposto. Nesse período, estima-se que 1 milhão de mexicanos e suas famílias deixaram os Estados, incluindo crianças norte-americanas. Por outro lado, calcula-se que  870.000 mexicanos deixaram o México.

 

Não está dizendo com isso que o governo norte-americano não pode combater a  imigração ilegal. Está no seu direito. O próprio nome já deixa claro: ilegal. O que está em discussão aqui é a forma e o modo com que isso está sendo conduzido.

 

A nota mais curiosa dessa história é a insistência do Trump que o custo da construção do muro, estimado entre 14 bilhões de dólares e 20 bilhões de dólares, seja absorvido pelo México.

 

Esse tipo de imposição tende a estremecer a relação entre os 2 países e jogar mais o México para o lado da China e outros países.  Em resumo, não é uma estratégia inteligente.

Depois do muro construído, a tendência será a de se abrir vários buracos nele durante a madrugada para a entrada de ilegais. Portanto será preciso um trabalho de manutenção eterno, com a conta paga pelo México, é claro.

A alternativa seria uma vigília constante 24 horas por dia em todos os 3 mil quilômetros de fronteira, com todos os custos recorrentes associados.

Nesse caso, ressuscitaremos o tempo da temida Stasi, polícia da antiga Alemanha Oriental, que atirava nos "desertores", só que do lado oposto da fronteira. Falando em Alemanha Oriental, Checkpoint Charlie em Berlim é uma exibição turística de um antigo posto militar  junto ao antigo muro de Berlim, com uma pequena e interessante exposição anexa.

Quem sabe o Trump queira repassar também esse custo para o México, incluindo o custo da munição ...

"Os fatos não mudaram. Construir uma muralha é a mais cara e menos efetiva maneira de proteger a fronteira", disse Will Hurd, deputado federal republicano pelo Texas em um  distrito eleitoral, perto do oeste do México, que tem mais de 1.280 quilômetros da fronteira. "Muitas áreas no meu distrito são exemplos perfeitos de lugares nos quais uma muralha é desnecessária, e afetaria negativamente o meio ambiente, os direitos individuais de propriedade e a economia".

Esse tipo de atitude, e mais as exageradas tintas protecionistas, se passarem pelo Congresso, o que não é fácil, tenderiam a atirar os EUA por trás de uma cortina de isolamento insano e fortalecer posições de países como China, Índia, Rússia e até Brasil.

Em relação à importação, surpreendentemente os EUA  está entre os 4 países que menos importam em relação ao seu PIB, de uma relação de 139 países. Em 2015 os EUA importam apenas 15,5% do seu PIB; o Brasil, 14,32%, o Sudão, 12,07% e a, Argentina 11,87%.

Brasil é sempre o Brasil, Argentina, o lanterninha, está diante de uma moratória ainda não levantada e o Sudão tem um estado extremamente precário. Venezuela, Cuba e Coreia do Norte estão fora dessa lista.

Trump alega que os empregos foram roubados pelos estrangeiros, só que curiosamente a taxa de desemprego nos EUA estava em apenas 4,3% em novembro de 2016, número considerado bom. Se fosse comparado com a Europa, seria a quarta taxa mais baixa de 30 países da Europa, só superado pela Alemanha(4,1%),  República Checa (3,7%) e Islândia (2,8%). Alguns dos outros países desenvolvidos incluem Japão: 3,1%, Inglaterra: 4,8%, Nova Zelândia: 4,9%, Austrália: 5,8%, Canadá: 6,9%, França: 9,5%, Itália: 11,9% e Espanha: 19,2%. O eterno Brasil está com 11,9% de desemprego. Até agora.

Ou seja, as tais  "perdas internacionais", tão citadas pelo finado Brizola em outro sentido, não está nessa dimensão toda alardeada pelo Trump.


No dia 25 de janeiro, Rodriguez Peña Nieto, presidente do México, declarou, diante do decreto de construção do muro assinado pelo Trump, após a exortação do Trump pelo seu ressarcimento: "O México não acredita nos muros. Já disse várias vezes, o México não pagará nenhum muro".

Em reposta, no dia 26 de janeiro, Trump postou no Twitter o seguinte: "... Se o México não quer pagar pelo tão necessário muro, seria melhor cancelar o encontro”, referindo-se ao encontro entre ele e Rodriguez Peña em 31 de janeiro.

O que Rodrigez Peña fez? Cancelou a reunião com o presidente Trump. Não havia outra alternativa. 
 

Trump já declarou, de forma tacanha, que irá fazer o México pagar pelo muro taxando em 20% os produtos mexicanos exportados para os Estados Unidos. Interessante. Ao invés dos mexicanos pagarem, eles irão diversificar seus mercados e quem pagará será o povo norte-americano, diante de outras alternativas, todas mais caras.
 

Em suma, Trump está praticando os ensinamentos do famoso livro de Dale Carnegie: Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, só que o contrário:

                                   "Como Fazer Inimigos e se Isolar das Pessoas."


Esse livro, se existisse, certamente não seria um best-seller.


 

Talvez ainda seja cedo para dizer isso, mas parece que o estilo trator dele é mais real do que se pensava e que Trump não hesitará, se o assunto lhe interessa (como no caso do México), em passar por cima da autoridade nomeada, no caso o polêmico Secretário de Estado Rex Tillerson, ex-CEO da Exxon (que tem estreitos negócios com a Rússia e perdeu com as sanções à Rússia após a anexação da Crimeia, mas isso já é outro assunto).


No fundo, Trump está se sentindo como o CEO dos Estados Unidos, que tentará fazer valer suas vontades, independente dos seus secretários de governo ou do Congresso norte-americano, como se ele fosse o presidente todo poderoso de uma grande empresa, sem a ingerência de um Conselho de Administração. Só que, em algum momento, ele perceberá que não é bem assim que a banda toca, pelo menos no que se refere ao Congresso, ainda que seja de maioria republicana. 

 

Eu só fico imaginando que qualquer conversa entre Donald Trump e algum mandatário de um país civilizado deverá ser algo meio tenso, considerando o estilo direto, agressivo e nada diplomático que Trump tem demonstrado, talvez com exceção do Vladimir Putin, que joga o mesmo jogo.

 



Os partidários de Trump, que acreditavam que ele era a antítese necessária à "esquerda"  de Hillary Clinton, vão demorar para cair em si e perceber que Trump não é aquele liberal típico a favor da livre iniciativa, que representa a antítese das ideias de esquerda. Trump aparentemente está mais na linha de um populista truculento, autoritário e imprevisível com rompantes de um protecionismo retrógrado, que vai contra a cartilha de qualquer liberal digno desse nome.  


Atitudes protecionistas só são aceitáveis em um curto de espaço de tempo, para proteger um setor da indústria nascente ou estratégica do sucateamento pela concorrência internacional. No entanto, como o Bolsa Família precisaria ter e não tem, deve haver sempre um plano de saída. Em relação ao protecionismo, seria preciso um plano estratégico para preparar o setor beneficiado para concorrer sozinho em poucos anos.

Em geral, o protecionismo beneficia um grupo limitado de pessoas, mas onera toda a cadeia produtiva que usa aqueles produtos protegidos, ao aumentar seus custos, além dos consumidores diretos e indiretos.

As imagens da decadência de Detroit, ligada à decadência da indústria automotiva norte-americana, são usadas para defender o protecionismo. São evidências reais, mas apenas pontuais, quando comparadas à totalidade da população dos Estados Unidos. Empregos são perdidos aqui e recuperados em outros setores, senão o desemprego não estaria em apenas 4,3%. 

 

Uma boa analogia é se o estado do Rio de Janeiro hipoteticamente resolvesse reduzir drasticamente o número de funcionários comissionados. Para aquele pequeno grupo, seria horrível, mas a população do estado como um todo se beneficiaria se o estado tivesse uma carga menor de despesas recorrentes. 
 

 

Muita gente investiu tanta paixão durante a eleição de Trump, que pelo bom e velho mecanismo da Dissonância Cognitiva, vão continuar tentando achar que ele será aquilo que eles acreditam que ele seja.

 

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Paulo Buchsbaum é alguém muito conectado a todas as grandes questões da atualidade, navegando em áreas tão distantes como Economia, Exatas e Psicologia. Ele atua como consultor de negócios e empreendedor, mas tem paixão por escrever, já tendo 3 livros lançados. Seu site é www.negociossa.com

 

 

 

 

 

 

 

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