Individualismo, individualidade e individuação – diferenças que fazem toda a diferença.

29.01.2017

Você sabe a diferença entre individualismo, individualidade e individuação? Já ouvi muitas vezes as pessoas confundindo esses três conceitos, ou melhor reduzindo-os apenas ao individualismo, o que dificulta a percepção da importância da individualidade para o processo de individuação. Por outro lado, o excesso de individualismo e narcisismo do mundo contemporâneo também atrapalham a tal individuação. Explico.

 

Individualismo é centrar-se em si mesmo, sem considerar o outro e o como as nossas escolhas e ações possam afeta-los. Individualidade é uma noção de si, dos seus limites e da necessidade de estar consigo para realizar projetos, interiorizar conteúdos e se respeitar. Mas, diferente do individualismo não desconsidera o outro, pelo contrário, reconhece que estar só e voltado para sua interioridade poderá reverter-se em relações mais qualitativas e trocas interessantes.

 

Relacionamentos amorosos, casamentos e famílias esbarram muito nessa confusão. Especialmente quando um dos indivíduos ou todos tem ou almejam fazer coisas que fazem sentido para si e não para os outros. Eis aí a sutileza: estaria essa pessoa sendo individualista ou respeitando a sua individualidade? Bom, se essa pessoa SÓ faz coisas pra si, sim estaria sendo individualista. Mas, se em alguns momentos, volta-se para si e para seus projetos, isso é saudável. Respeitar a sua individualidade e a do outro gera relações de maior troca e crescimento. Quando estamos grudados no outro, dependentes e só fazemos tudo juntos perdemos a nossa identidade e se o outro vai embora, desmoronamos. O velho clichê de que os opostos se completam ou de que precisamos do outro para sermos inteiros cai por terra. Cada pessoa é uma inteireza, um universo particular que ao se ligar ao outro deve trocar, agregar e ampliar e não reduzir-se a metade e delegar ao outro a sua responsabilidade por crescer e se desenvolver psicologicamente. Isso é altamente nocivo a saúde mental e para a auto-estima.

 

 

 

Passemos para o terceiro conceito: individuação. Esse termo foi cunhado pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung para designar o processo de tornar-se a si mesmo, o encontro com a nossa essência. Nascemos em uma família e meio social com valores próprios a esse grupo. O processo de individuação é a busca de quem somos, a que viemos sem desconsiderar o nosso meio. É a arte de encontrar-se consigo mesmo sem isolar-se do mundo e das pessoas, sem ser individualista, mas com uma busca profunda de autoconhecimento e de individualidade. Somos muito mais do que papéis sociais e quando estamos desconectados da nossa contribuição ao mundo e de nós mesmos, além de nos frustrarmos, privamos a nós e aos outros da ampliação de consciência que nosso autoconhecimento possa gerar em nosso entorno. Ou seja, cada um de nós é um agente coletivo. Pessoas éticas, com autoconhecimento, respeito e amor próprio são pessoas melhores para si e para o mundo. Assim, esse processo que dura a vida toda tem como finalidade a busca interior sempre acompanhada pelo estar no mundo. A consciência de nós mesmos, de nossa luz e de nossa sombra, é um grande catalisador de mudanças externas.

 

Jung conta que atendeu por um tempo um alcoolista e que chegou no limite de seus conhecimentos para ajudá-lo. Disse ao paciente para procurar um caminho religioso, algo além da psicoterapia para seu problema. Anos depois, ele recebeu uma carta de um dos co-fundadores dos Alcoólicos Anônimos agradecendo-o pelo conselho que dera a seu paciente, que foi também o outro co-fundador dos alcoólicos anônimos. Percebam nesse exemplo a importância da consciência dos nossos limites e habilidades. Como apenas um bom conselho gerou consciência no paciente que fundou, a partir de um problema seu, algo que beneficiou e vem beneficiando milhares de pessoas. Histórias como essas mostram como estar conectado consigo próprio, com nossas limitações e sendo seres éticos geram no coletivo grandes repercussões. A consciência individual quando bem trabalhada é um agente social. Assim conhecer a si próprio transcende a individualidade e abre nosso potencial para mudanças a nosso redor.

 

     Nas palavras do próprio Jung:

 

“A individuação é o tornar-se um consigo mesmo, e ao mesmo tempo, com a humanidade toda, em que também nos incluímos.”

 

 

 

 

 

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Yedda Raynsford Macdonald, carioca de origem e de alma, paulista por hábito e respeito. Psicóloga clínica de adolescentes, adultos, casais e família. Autora do livro: Divagar, Devagar: depressão e criatividade lançado pela editora Appris e co-organizadora do livro "Pescaria Noturna: elaborando criativamente o lado sombrio da personalidade" a ser lançado em 2017 pela mesma editora. Amadora das palavras desde sempre.

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