Cenas do cotidiano

Sempre que Margareth, minha neta peluda, vem dormir aqui em casa, é uma alegria só. Bem, pelo menos até a hora de ir dormir. Colocar uma caminha pra ela no chão é pura perda de tempo. Ela passa ao lado daquilo várias vezes por dia, mas no máximo dá uma espiada rápida com ar de desdém. Quase posso ouví-la dizer "ué, será que mora algum cachorro aqui? Não estou entendendo essa caminha..." Chega a noite, deito pra dormir, e ela dá um vôo rasante sobre o meu rosto, tentando tomar conta do travesseiro. A respiração dela em cima de mim incomoda. Peço com toda delicadeza pra ela se deitar na beira da cama. É claro que ela permanece imóvel, fingindo não entender. Meu marido tenta ajudar, arrasta a bichinha até o ponto que seria confortável para nós três, mas é em vão. Imediatamente ela volta, agora encostando todo seu corpo na lateral do meu. O calor dela me lembra uma bolsa de água quente. Bate o desespero, afinal tem feito quarenta e tantos graus todos os dias, o que potencializa minha intolerância ao calor. Empurra daqui, empurra dali, e eu acabo adormecendo, vencida pelo cansaço. Ao longo da noite essa história se repete pelo menos umas cento e cinquenta vezes. Em alguns momentos ela preferiu se esticar na horizontal, fazendo com que sobrassem apenas alguns milímetros pra mim. Também não sei precisar quantas vezes acordei com o coração aos pulos, enquanto ela latia e saltava em direção à porta pra nos salvar do inimigo oculto das trevas da noite.