O Homem x a Máquina

14.02.2017

 

Segundo o editor chefe da Newsweek, Steven Levy, aconteceu em 1997 um dos eventos mais simbólicos do século XX, o match entre o campeão mundial de Xadrez Kasparov, considerado por muitos o melhor de todos os tempos, contra Deep Blue, a máquina da IBM. Homem X Máquina, intuição contra força bruta.

 

Esta história não começa aí. No ano anterior Kasparov venceu por 4 X 2 o Deep Thought, e saiu dizendo: “o computador não escreve como Shakespeare, não pinta como Velásquez e não joga Xadrez como Kasparov” e ainda: “Não consigo imaginar uma vida onde o raciocínio do computador seja superior ao da mente, eu o venci para proteger a raça Humana”. A arrogância e prepotência do Campeão, no auge de sua carreira, como todos sabem, é o início da queda.

 

Deep Blue calculava 200 milhões de posições por segundo,  tinha um banco de dados de mais de 700 mil partidas e um poderoso hardware, foi preparado para fazer o Campeão engolir suas palavras.

 

A programação consistia em uma análise genérica da situação, a partir de parâmetros estipulados previamente, mas não quantificados (por exemplo, a importância da segurança do Rei frente ao domínio do centro do tabuleiro). Os valores para cada parâmetro eram determinados pelo próprio computador, a partir da análise das partidas armazenadas nos bancos de dados. Mas a grande diferença foi a inteligência artificial, que foi usada durante as partidas. Ainda assim o engenheiro responsável disse que haveria a possibilidade de Kasparov ganhar de 6 X 0, o que chamaria de Deep shit.

 

A primeira partida foi um desastre para a Máquina. O Campeão varreu o tabuleiro com a máquina se descuidando da defesa do Rei. Isso, alguns especialistas acham, não foi bom para o Campeão, fazendo-o pensar que seria fácil como o ano anterior. Que pena pra ele.

 

Já na segunda partida, o que se viu foi um computador cuidadoso e magnífico. No jogo que iniciou toda a polêmica da competição, Deep Blue tomou extremo cuidado com o Rei, a ponto de Kasparov dizer que eram máquinas diferentes. 

 

A partida parecia caminhar para um empate, mas Kasparov entrou numa posição complicada, perdedora. O computador chegou a “pensar” 15 minutos numa única posição, o que não é comum dada sua capacidade de processamento. Numa tentativa de salvar o jogo, Kasparov sacrificou um peão. Tudo ou nada! Ele imaginou que o raciocínio materialista do computador proporcionar-lhe-ia reigualar o jogo através de contra-ataques.

 

Isso faz parte do que os especialistas chamam de “estratégia anti-computador”, onde todo o poder computacional não representa vantagem em relação à compreensão intuitiva que o ser humano tem de determinada situação, sem que precise de análises mais profundas.

 

Um jogador experiente tem a capacidade de olhar uma posição e compreender suas possibilidades sem recorrer a cálculos precisos nem estruturados. Mas o computador rejeitou o peão, fazendo um lance de segurança, garantindo a vantagem posicional. Para agravar ainda mais a situação, Kasparov ainda deixou passar uma chance de empate com xeque perpétuo, após um erro infantil de Deep Blue. Mas como o computador que fazia lances brilhantes, ponderou, deixaria passar uma possibilidade dessas? Teria errado depois de lances magníficos?

 

Isso teria levado-o a um desequilíbrio emocional, pois achava que estava havendo interferência humana. O campeão acreditava que a IBM pudesse ter usado um ou mais Grandes Mestres para influenciar o computador em situações críticas.

 

O computador não jogava num nível acima do esperado, jogava de forma diferente do esperado. Kasparov entendia que, por suas características, uma máquina avaliava variantes concretas e não conceitos abstratos, como a qualidade de uma estrutura de peões, por exemplo.

 

Mais tarde ele admitiria que essa derrota teria custado-lhe o match inteiro, pois não conseguiu recuperar-se do abalo. Se o adversário fosse um humano, disse Kasparov, eu perceberia que ele havia aprendido algo. Mas sendo uma máquina, ele não deixava de se perguntar como havia feito aquilo.

 

E, numa deselegante entrevista, comparou o jogo ao gol (de mão) de Maradona contra a Inglaterra na Copa de 1986, quando ele disse que foi a mão de Deus. Benjamin e sua equipe sentiram-se ofendidos com a acusação de trapaça.

 

Os empates nas partidas 3, 4 e 5 mostraram o Campeão caído, na lona, em xeque, pronto para levar o Mate. Mas, na partida 5, exausto, Kasparov foi aplaudido de pé pelo público, reconhecendo seu esforço hercúleo para tentar ganhar do Gigante. Depois de perder a sexta e última partida do Match, tendo jogado só para cumprir o contrato, quando errou de maneira infantil.

 

Perdeu por cansaço e psicológico ou foi Marketing? As más línguas disseram que ganhou uma fortuna, outros que só perdeu por que usaram outros jogadores durante as partidas. Polémicas à parte, o engenheiro saiu dizendo ”nós o quebramos”, as ações da empresa subiram 15%, não deram Revanche, e o Deep Blue foi desmontado e jogado em uma sala. Pela sua capacidade, o computador analisa muitas variantes, o homem com sua intuição pode, mesmo que por caminhos diferentes, achar a melhor resposta. Mas qual é o limite de cada um deles? Hoje essa realidade é diferente? Já podemos dizer que a máquina superou o Homem?

 

Eu só digo uma coisa. O XADREZ É MÁGICO.

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Renato Carvalho

 

 

Olá, meu nome é Renato Carvalho, sou profissional de Xadrez há mais de 20 anos com títulos regionais e nacionais, como treinador fui também Campeão brasileiro por equipes e vários atletas Campeões nacionais. Atualmente sou treinador da equipe de Fluminense Football Club, escrevo sobre Xadrez no site Xadrez sem Mistério onde também encontrarão várias matérias de outros profissionais.

Forte abraço

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