A relação do policial militar com a sociedade brasileira

21.02.2017

A criminalização da pobreza e o policial neste contexto:

 

 

Quando falamos sobre a questão da letalidade entre policiais militares, não podemos deixar fora deste contexto a alternância de discursos no tocante das causas e consequências da violência urbana. No Brasil existe um profundo abismo social entre uma minoria abastada e influente política e economicamente e uma grande massa de pobres abaixo da linha da pobreza, fatores que sem dúvidas influenciam de sobremaneira na realidade violenta de nossa sociedade.

 

 foto:  Alicia Nijdam (Flickr), via Wikimedia Commons

 

No caso específico fluminense, fica ainda mais evidente tal realidade, onde convivem lado a lado suntuosos condomínios em frente a comunidades carentes de todos os recursos do Estado, cabe citar como exemplo a proximidade das comunidades da Zona Sul como a Rocinha e Vidigal próximas a bairros como Leblon e Ipanema, onde estes possuem uns dos metros quadrados mais caros do mundo, superando inclusive cidades europeias como Paris. Como exemplificou a reportagem do Globo on line, site G1 de 03/09/2014, de Cristiane Cardoso:

 

“O Rio de Janeiro continua sendo a cidade com metro quadrado

mais caro do país. O preço médio dos imóveis ficou em R$

10.749 em agosto, segundo pesquisa da Fundação Instituto de

Pesquisas Econômicas (Fipe) Leblon, na Zona Sul, é o bairro

com valor mais alto, R$ 23.613, de acordo com o Sindicato da

Habitação do Rio (Secovi-Rio). O preço calculado no bairro

representa um aumento de 0,73% em comparação com julho (R$

23.443), e crescimento de 6% em relação a agosto do ano

anterior, quando o metro quadrado custava R$ 22.276, informa o

Secovi-Rio. Já segundo o FipeZap, o preço médio do metro

quadrado no bairro é de R$ 22.712. Ipanema, também na Zona

Sul, é o segundo metro quadrado mais caro, com preço de R$

20.422. O valor registrou queda de 0,72% em comparação com

julho, quando custava R$ 20.570. Em relação ao mesmo período

do ano anterior, houve aumento de 6,07%”.

 

O sentimento do consumismo desenfreado cria um ambiente propício a ações violentas por parte dos que anseiam os bens que olham diariamente de posse de pessoas que transitam nas suas caras, o individualismo dos que mais possuem e a indiferença destes para com a dificuldade dos moradores de comunidades cria naturalmente um sentimento de exclusão social, que, sobretudo nos mais jovens pode-se traduzir na busca a qualquer preço pela aquisição dos bens que o processo histórico social brasileiro e as políticas estatais desde sempre o distanciaram deste poder de consumo.

 

É importante salientar que a maioria dos moradores de comunidade, trabalhadores proletários, busca sua sobrevivência com trabalho árduo e muitas vezes é explorado como herdeiro dos tempos da escravidão, sendo este mais um motivo para a também natural revolta que leva jovens para o crime, pois não vendo oportunidades e olhando pais e avós sendo tratados como servos dos novos senhores contemporâneos, são absorvidos pelo mercado ilegal de drogas ou na prática de crimes diversos como furtos e roubos.

 

Neste contexto conflituoso atua o policial militar, com o objetivo de manter a ordem publica e trazer para a sociedade a “sensação de segurança”. Um agente que muitas vezes vem desta parcela estigmatizada e criminalizada da população, e que ele, como agente da lei, também faz parte.

 

Vimos ainda um Estado que não atende satisfatoriamente a grande massa da população, que não possui serviços básicos em determinados territórios, a população local não vê o agente de segurança pública como um prestador de serviço para os mesmos e sim como um agente repressor que limita suas ações para defender os interesses de uma pequena parcela da sociedade, a elite.

 

Observamos na sociedade, especialmente na carioca, o repúdio às práticas policiais, sobretudo nas classes mais humildes por motivos que são facilmente entendidos que serão relatados adiante, mas também nas classes intelectualmente influenciáveis, bem como pela mídia carioca.

 

O uso do aparelho policial militar por diversos governos estaduais no enfrentamento ao tráfico de drogas gerou um ethos de guerreiro na formação policial, sendo incentivado o combate aos traficantes das favelas, como se este fosse o ponto crucial no combate à violência urbana, o que claramente não seria uma forma lógica de retirar as drogas de circulação, até porque, atingir este objetivo é um pensamento utópico.

 

Em toda a história da humanidade o ser humano teve a necessidade de procurar substâncias para alterar seu estado mental e emocional, em diversas culturas e épocas.

Não se quer neste discurso justificar ou não a liberação do uso de drogas ilegais segundo a legislação brasileira, até por não ser o tema deste trabalho, mas sim, verificar como um combate insano que só gerou mortes de parte a parte, sempre de pobres, fardados ou não, só agravou a sensação de insegurança no Rio de Janeiro. Segundo estudos realizados por LEMGRUBER (2004) a criminalidade violenta cresceu predominantemente nas periferias das grandes cidades brasileiras ocasionando mortes e incapacitando fisicamente cidadãos e policiais.

 

Diante deste quadro alimentado por gestões não preocupadas em resolver os problemas estruturais e sim dar soluções imediatistas, o policial militar fluminense se viu cada vez mais distante do reconhecimento da sociedade que atende, sendo estereotipado, pré-julgado e penalizado pelos erros e crimes de uma parcela de militares, caso que dificilmente se vê de tal forma em outras instituições que sofrem com problemas de corrupção por exemplo.

 

Sobre segurança pública, entendemos que a discussão acerca deste assunto é de grande relevância, visto que é crescente o nível de insegurança vivenciado pelos cidadãos e é crescente a insatisfação da sociedade diante disto. A implementação de políticas públicas direcionadas a segurança pública depende da participação popular.

LEIA MAIS:

 

Outros Artigos:

 

- Gestão (?) pública por Paulo Gustavo Ganime

- Armas geram ou evitam violência? por Paulo Buchsbaum

- Manifesto para acabar com a sacanagem no Brasil!!! por André Ferraz

- Doutrinação nas escolas por Suely Rosset

 

 

JAN VAN CREVELD CARVALHO MONTEIRO

 

Especialista em Segurança Pública pela UFF- INeac, pós graduado em ciências sociais e policial há 14 anos, atualmente no posto de Capitão.

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