Não aprendi dizer adeus

25.02.2017

Há 15 anos ela entrou em  minha casa e na minha vida. Vi seus filhos nascerem, crescerem, casarem. Comemoramos  alegrias  e nos consolamos no amargo que a vida, às vezes, traz.

 

Quando virei vegetariana, ela inundou meu paladar com prazeres sem carne. Se esforçou pra não me deixar sem proteínas. E aí adaptou o tradicional cuscuz de frango, para um divino cuscuz de quinoa. O quibe de forno assado, ela sofisticou com a soja. Introduziu nozes e castanhas picadas na salada de berinjela, entre tantas outras delicias sem carne. 

 

Um dia, acordei vegana. Comuniquei  a novidade à minha fiel escudeira e lá foi ela adaptar novamente as refeições, agora sem nada de leite, seus derivados e ovos. E continuou arrasando no hommus (pasta de grão de bico), no babaganuche (pasta de beringela) , no falafel (o melhor sanduíche do planeta), no tabule e na infinidade de variedade de hambúrgueres feitos de feijão, lentilha e outros  grãos que devoro por dia. Isso sem contar que dia sim, dia não, sempre esteve me esperando na geladeira o lindo e apetitoso queijo de castanha crua. Entre um prato e outro, nos contávamos, como amigas que sempre fomos. 

 

 Em dezembro saiu em férias e ontem voltou. Hoje ela me disse que ia retornar pra Bahia, de mala, filhos, gato e cuia. Pra sempre!

 

Fui admiravelmente compreensiva e desejei à ela (sinceramente) tudo de melhor desta vida. Mas quando ela fechou a porta  da minha casa, pela última vez, meu coração partiu e derrubou toda água dos meus olhos. Revivi minha história através dessa despedida... a morte do Late Show, a morte  das minhas cadelas Preta, Tchuca e Dino, os meus naufrágios e minha ressurreição.

 

Em todos esses anos só não consegui, ainda, uma coisa de minha parceira querida: que se tornasse vegetariana. Mas ainda vou ter essa grata surpresa. Ela merece esse privilégio. 

Enxuguei as lágrimas, voltei à superfície mas não consegui desatar o nó que apertava meu peito. 

 

 

 

Não aprendi dizer adeus.

 

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Minha vida sempre se equilibrou, de forma muito louca, entre a alegria e a dor. E do bulling por ser gorducha, pulei para o lugar mais alto do pódio, em se tratando de graça e beleza. Meu trabalho sempre foi uma festa. De repórter à assessoria de Imprensa, tudo foi arte, show e rock and roll. Mas o tempo, implacável que é, machuca e te joga de novo no olho do furacão do bulling da idade avançada e da cara caída do trem. O glamour de ontem ficou lá atrás. Hoje rio da dor, do desamor e essa outra pessoa que habita em mim, é bem melhor do que já foi.

 

 

 

 

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