PALHAÇOS, FOLIAS E ABACAXIS

27.02.2017

 

Escrevo este texto num domingo de carnaval, segundo dia da maior festa popular do Brasil. Da minha janela em Santa Teresa vejo os foliões na rua com suas fantasias: piratas, melindrosas, enfermeiras, bate-bolas, noivas, abacaxis (Sim! Abacaxis! Curiosa moda do carnaval de 2017!). Ouço os batuques dos blocos da Lapa e, ao longe, o rebuliço da Sapucaí, onde logo logo começará mais um desfile. O povo brasileiro sempre gostou de festejar e, desde os tempos coloniais, já saía às ruas fantasiado, em folguedos que mesclavam brincadeiras, encenações, músicas, danças... e palhaços! Sim. Palhaços! Pouco a pouco a coisa foi crescendo e se modificando, formando cordões, ranchos, blocos e, por fim, as escolas de samba. Mas as festas populares sempre contaram com alguma figura cômica, como os velhos do Pastoril, os Mateus e Biricos dos Bois e os palhaços das Folias de Reis. Muitas destas tradições ainda permanecem vivas entre nós e foram fundamentais na formação da comicidade brasileira.

 

A figura do palhaço está presente nas Folias de Reis, que são festejos do ciclo natalino e vão desde a véspera de natal até 6 de janeiro, dia dos Reis Magos. Estas folias saem pelas cidades à noite, visitando as casas que têm presépios, cantando louvores e pedindo donativos. A cada vez que a folia entra em uma casa são servidos café, bebidas e pequenas refeições. Os cortejos tradicionalmente são formados por uma porta-bandeira, um mestre, um coro com alguns instrumentistas, três reis magos e dois ou três palhaços. Os palhaços fazem suas próprias vestimentas, que são folgadas e coloridas, usam uma máscara de couro de bode e um bastão e vão dançando e fazendo acrobacias atrás dos reis. A função deles é proteger a bandeira e, quando os foliões entram nas casas, devem esperar do lado de fora. O público da cidade vai acompanhando o cortejo pelas ruas e casas e as pessoas jogam moedas para os palhaços. Os palhaços da Folia de Reis têm sua origem na lenda de que Herodes, ao tomar conhecimento do nascimento de Jesus, ordenou que dois soldados seguissem os magos para encontrar o menino e matá-lo. Os soldados se disfarçaram com máscaras para acompanhar o cortejo e, quando finalmente chegaram até o menino, foram tocados pela luz divina e se tornaram protetores da Bandeira do Divino e eternos guardiões do Menino Jesus.

Palhaços da Folia de Reis. Disponível em: http://www.secult.es.gov.br/noticias/22316

 

Outro festejo típico do ciclo natalino é o Pastoril, cortejo que representa a visita dos pastores ao estábulo de Belém, e é constituído por jornadas, canções e coreografias. O palhaço do Pastoril é o Velho, que usa maquiagem exagerada, pintando ao redor dos olhos de branco e preto e a boca de vermelho. Usa roupas de cores berrantes, calça listrada, gravata imensa e leva uma bengala torta e um chapéu de muitas abas. Foi na figura do velho que o famoso apresentador chacrinha se inspirou para criar seu personagem. Estes festejos, que surgiram para comemorar datas religiosas, com o tempo passaram a apresentar grande mistura entre o sagrado e o profano. Atualmente os velhos usam de um humor sem restrições, pleno de duplos sentidos, declamam versos indecentes e realizam o cortejo vendendo as sensuais pastorinhas. A venda é literal, pois os homens do público oferecem dinheiro para dançar e brincar com as moças. O Pastoril ainda é comum no nordeste, sobretudo em Alagoas, mas já foi realizado no Rio de Janeiro e influenciou a criação dos primeiros cordões carnavalescos. Segundo Câmara Cascudo, o velho era uma das figuras tradicionais do antigo carnaval carioca e realizava uma dança especial, dificílima e sempre muito aplaudida, e o povo cantava: “O raia o sol suspende a lua, bravos ao velho que está na rua!”.

 

Há também as festas do boi, que estão presentes em todo o Brasil, assumindo diferentes formatos e nomes em distintas regiões: Bumba-meu- boi, Boi-bumbá, Cavalo-marinho, Boi de mamão, Boi-calemba ou simplesmente Boi. O enredo básico é a história de um vaqueiro que mata o boi preferido do patrão para atender aos desejos de sua mulher grávida e depois tenta ressuscitar o bicho para não ser punido. Três tipos cômicos são comuns nas folias do boi: Catirina, Birico e Mateus, todos com o rosto pintado de negro, geralmente com cinzas de cana queimada. Catirina, uma personagem escandalosa e faladeira, costuma ser feita por um homem que, vestido de mulher, atua com trejeitos exagerados, cai no chão, mostra as calcinhas, e se atira no colo dos passantes. Já Mateus e Birico são os vaqueiros e formam uma dupla cômica, sendo Mateus o líder e Birico o tonto. Existem algumas variações de região para região, mas a comicidade está sempre presente. Hoje em dia a parte dramatizada está desaparecendo, mas a representação permanece, feita ao som de rabeca, pandeiro e algum instrument de corda ou sanfona.

 

Além destes, poderia dar inúmeros outros exemplos de figuras cômicas oriundas das comemorações populares, afinal, festa e riso sempre andaram juntos. Nossas festas tradicionais constituem fonte indispensável para o estudo e compreensão do palhaço brasileiro, que é festivo, musical e miscigenado como nosso povo. Os festejos e folguedos chegaram aos dias atuais, estão vivos e em constante transformação e do lado de fora da janela o carnaval segue a todo vapor com seus pierrôs, marinheiros, Carmens-mirandas, chinesinhos e mais alguns abacaxis... E agora eu, brasileira, mestiça e palhaça, encerro este texto, abro uma cerveja (Clek!) e busco uma fantasia – que não seja de abacaxi! Desço para tomar parte na folia e nos cordões que vejo enquanto escrevo.

 

Bom carnaval e boa brincadeira a todos!

 

 

Lili Castro

 

Palhaça, comunicadora e atriz. Participa de festivais e eventos nacionais e internacionais. Dá cursos de palhaçaria e circula com o espetáculo solo “O maior prêmio do mundo”. Atualmente cursa o mestrado em Artes Cênicas na UNIRIO, onde desenvolve uma pesquisa sobre a dramaturgia do palhaço.

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