Tolerância, reflexão e questionamento em tempos politicamente corretos

28.02.2017

 

Em tempos de politicamente correto, qualquer piada vira ofensa, qualquer pensamento livre vira processo e qualquer discussão vira briga. Estou exagerando (será?), mas às vezes é preciso colocar uma lupa sobre as atitudes impostas socialmente para que possamos questionar o lado luminoso e sombrio dessas imposições.

 

De acordo com Carl Gustav Jung, a psique é autorreguladora e quando há atitudes unilaterais o oposto se manifesta como “tentativa” de compensar essa unilateralidade ou posição radical. Esse mesmo psiquiatra trouxe para a psicologia a idéia de inconsciente coletivo, sendo assim, esse mesmo raciocínio de unilateralidade e de compensação servem para o coletivo.

 

Assistimos (às vezes como espectadores, outras como agentes) o crescimento do politicamente correto como tentativa de “corrigir” atitudes preconceituosas, mas também, criando uma sombra coletiva de hipocrisia. Explico: existe sim legitimidade dessa tentativa, mas há também medo, fingimento e repressão nessa atitude. Em psicologia analítica (Jung) chamamos de persona a máscara social necessária para se viver em sociedade. Quando esta não é exacerbada, sua função é criativa e socialmente adaptativa. Quando usada de forma defensiva, cai no vazio. O oposto da persona é a sombra: todos aqueles conteúdos reprimidos por serem considerados vergonhosos, inadequados socialmente e inaceitáveis. Assim, quanto maior a persona, maior a sombra na lógica da psicologia junguiana e vice-versa. Voltemos ao politicamente correto: quanto mais politicamente correto na consciência, mais politicamente incorreto na sombra!

 

 

Bem, para início de conversa: a palavra correto já gera limitações. Correto sob qual ponto de vista ? Moral? Social? Político ? Ético ? Ou tudo isso ? De qualquer forma, a tentativa de tornarmo-nos mais respeitosos e conscientes dos nossos preconceitos fez-se mister e o caminho para o equilíbrio sempre passa de um extremo para o outro até encontrar um lugar intermediário e mais equilibrado. A questão é se muitos de nós termos consciência dessa exacerbação do politicamente correto, porque assistimos a discursos de ódio e de segregação quando as ideias divergem? Será que o politicamente correto também não criou o preconceito oposto ? De que nada pode ser dito ? Uma hipersensibilidade a qualquer assunto? O grande risco dessa exacerbação do politicamente correto é criar posturas fixas e sem capacidade de reflexão, diálogo e questionamentos. Só para esclarecer: refiro-me aqui ao endurecimento de grupos que sofreram preconceito e (com certa razão) são defensivos, mas também vêem preconceito em tudo. Sou totalmente a favor do respeito ao diferente, mas sou totalmente contra discursos prontos, achatados e sem abertura para discussão e troca de ideias.

Voltando para a psicologia, quando abraçamos ideais coletivos para nos adaptarmos e sermos aceitos sem nos perguntarmos se isto nos pertence, tornamo-nos boicotadores de nós mesmos. Em meu texto anterior, falo da individuação como caminho de tornar-se si mesmo e de como precisamos em alguns momentos estarmos abertos para discordâncias do convencional. O novo vem da ruptura, da contra corrente e o politicamente correto traz em sua bagagem uma nova convenção, até um novo vocabulário. Mas, até aí, acho necessário para nos reeducarmos. O problema é não nos fixarmos nisso e irmos transformando essa nova postura em algo mais flexível. Sei que leva tempo, mas mais do que tempo leva trabalho, elaboração e reflexão.

 

Nas palavras de Millôr Fernandes:

 

“Sou um humanista, isso não significa ser bonzinho ou acreditar que o homem é bonzão. Significa apenas que aceito o homem como é – medroso, invejoso, incapaz, acertando por acaso e errando por vaidade: meu irmão.”

 

Acima de qualquer nomenclatura, ideologia sócio-cultural, de qualquer psicologia somos iguais em dois pontos: somos imperfeitos e vamos morrer. Se pudermos cultivar a vida, considerando esses dois pontos, talvez haja transformação porque ao nos deparamos com essa encruzilhada, com esses limites (morte e imperfeição) precisamos fazer nosso melhor por nós e pelos outros. O cultivo do respeito ao outro não vem de fora para dentro mas da consciência que somos iguais nesses dois pontos e de que estamos aqui para evoluir e não apenas repetir fórmulas coletivas prontas.

 

 

 

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Yedda Raynsford Macdonald, carioca de origem e de alma, paulista por hábito e respeito. Psicóloga clínica de adolescentes, adultos, casais e família. Autora do livro: Divagar, Devagar: depressão e criatividade lançado pela editora Appris e co-organizadora do livro "Pescaria Noturna: elaborando criativamente o lado sombrio da personalidade" a ser lançado em 2017 pela mesma editora. Amadora das palavras desde sempre.

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