Gordura saturada é o grande vilão do coração?

08.03.2017

 

 

A gordura saturada é um componente importante de muitas delícias e tida pela maioria como perigosa, especialmente para o coração. Quem não gosta de um pão com manteiga e uns ovos bem preparados? E a famosa carne, incluindo a carne vermelha?

 

Em 2015, 56,4 milhões pessoas morreram no mundo. Dentre essas, 14,2 milhões foram por isquemia (insuficiência) cardíaca ou acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico (aproximadamente 87% dos AVCs), ou seja, de cada 4 mortes uma ocorreu por problemas cardiovasculares, sendo que parte dos AVCs hemorrágicos também decorrem de aterosclerose (bloqueio nos vasos sanguíneos), que está conectado à mesma natureza dos males coronarianos. 

 

Através do Google Acadêmico, deparei-me com o artigo “Meta-analysis of prospective cohort studies evaluating the association of saturated fat with cardiovascular disease” (Meta-análise de estudos prospectivos de grupos avaliando a associação da gordura saturada com doenças cardiovasculares) publicado no The American Journal  of Clinical Nutrition (2010) .

 

Meta-análises podem ser altamente reveladoras porque, diferentemente de pesquisas individuais, elas compilam muitas pesquisas diferentes de diversos estudos, gerando resultados muito mais robustos do que pesquisas únicas.

 

O artigo citado objetivou analisar a relação do consumo de gordura saturada com doenças cardiovasculares ou coronarianas.

 

Nesse caso, os autores compilaram o resultado de 21 estudos diferentes, acompanhado 347.747 pacientes entre 5 e 23 anos, envolvendo 11.006 casos de doença coronariana ou ataques cardíacos.

 

A conclusão é inequívoca: apesar de todo o clamor da mídia popular, não há evidência significativa para concluir que a ingestão de gordura saturada está associada com um risco aumentado de problemas coronarianos.

 

Então viva a manteiga e os ovos! 

 

Os autores também evidenciam um viés, que viola a ética científica, relativo à aprovação facilitada de artigos que condenem a gordura saturada.


Além desse estudo, há vários artigos que corroboram essa tese, sem desmerecer os benefícios das gorduras poli-insaturadas (*1), particularmente aquelas ricas em Ômega 3, embora a eficácia dos suplementos de Ômega 3 (*2)  tem sido questionada, como nessa metapesquisa (2012) compilando 20 estudos com 68.860 pacientes.
 

Entretanto, se a gordura saturada pode ser relativamente inocente, o mesmo não pode ser dito da gordura trans (*3), ainda presente em muitos alimentos industrializados.

 

Em relação à gordura saturada, fiz uma análise simples compilando dados de 63 países, incluindo a maioria dos países da América do Sul, América do Norte, da Europa, da Ásia e da Oceania, baseado no índice de mortes por doenças coronarianas por país. Esse indicador foi contraposto com a mediana do consumo de gorduras saturadas sobre o total de calorias, revelando uma correlação virtualmente zerada.

 

Evitei incluir países menos desenvolvidos onde as pessoas podem morrer antes de ter a possibilidade de desenvolver males cardíacos, embora a incidência de mortes por 100.000 habitantes foi ajustada pela idade, para melhorar a comparabilidade.

 

Países como Holanda, Inglaterra, França, Dinamarca, Alemanha e Suécia; com diferentes genéticas e hábitos alimentares, tem ingestão de calorias sob a forma de gordura saturada relativa ao total de calorias menor que os Estados Unidos, mas tem menor índice de mortes por problemas do coração. Já Finlândia, Eslováquia e Hungria também tem ingestão maior que os EUA e MAIOR índice de mortes por problemas coronarianos.

 

Quais são os países do mundo com menor índice de mortes coronarianas, depois dos países orientais? França, Luxemburgo, Holanda e Portugal. Desses apenas Portugal tem consumo de gorduras saturadas similar aos EUA e pode ser considerado como parte do grupo de países adeptos da famosa dieta do Mediterrâneo.

 

A falta de evidência da relação entre a gordura saturada e doenças no coração não significa que o alto teor de LDL (colesterol “ruim”) no sangue não apresente riscos para o coração. Muito pelo contrário. Uma meta-análise publicada na revista Lancet (2010) envolvendo 170.000 pacientes em 26 estudos mostra que a redução do LDL efetivamente salva vidas.

 

Da mesma forma, a falta de provas contra a gordura saturada, não quer dizer que pessoas obesas ou sedentárias estão livres de problemas.


Como é difícil testar diretamente de forma confiável o sedentarismo, a relação com mortes por doenças coronarianas com obesidade é bem mais efetiva. Os mesmos 63 países dão uma correlação de 0,23 dessas mortes com a incidência de obesidade (índice de massa corporal > 30) na população adulta, o que é relevante considerando a multiplicidade de causas para males coronarianos.

 

Quando se usam valores de índice de massa corporal entre 25 e 30, que seria considerado acima do peso, essa correlação some. No entanto, quando analisado isoladamente, o sobrepeso, assim como a obesidade, são questões sérias não só para problemas no coração, mas também para outras causas de morbidade.

 

 

A motivação desse texto nasceu da minha curiosidade da questão do glúten, questão muito popular nos dias de hoje.

 

Durante o carnaval, em uma feira do livro no centro de Cabo Frio me chamou atenção o livro A Mentira do Glúten de Alan Levinovitz.

 

Inicialmente o rejeitei, porque o autor não é um cientista e o texto parecia carregar demais nas tintas. Depois de ler algumas avaliações profissionais sobre o livro, me animei e o comprei.

 

O livro, de fato, faz um bom trabalho no sentido de retirar o glúten do panteão dos demônios, de forma bem embasada, incluindo a citação de diversos estudos e trabalhos, ainda que de forma meio repetitiva.

 

O glúten é o novo vilão da saúde das pessoas. Bilhões de dólares têm sido ganhos com a venda de alimentos sem glúten, que são muito mais caros que alimentos convencionais.

 

Lógico que não me estou referindo aqui a aquelas pessoas que tem a doença celíaca, doença de natureza genética, com incidência aproximada de 1% da população, que impede o devido processamento do glúten.

 

Há ainda uma minoria, sem doença celíaca, que apresenta algum tipo de alergia ao glúten, embora isso ainda seja sujeito a alguma controvérsia científica. Uma pesquisa, conduzida em 2013,  por autores que tinham comprovado a existência da sensibilidade ao glúten, mas não ficaram confortáveis com os resultados; mostrou, em muitos casos, que essa sensibilidade é puramente psicológica.

 

Assim as pessoas gastam toneladas de dinheiro com “alimentos sem glúten” para alegria de setores da indústria alimentícia, sem que isso traga qualquer benefício para a maioria das pessoas que não tenha sensibilidade ao glúten.

 

Outros trechos do livro trabalham para absolver diversos outros “vilões” alimentares, incluindo o famoso MSG (glutamato monossódico), tão usado na comida japonesa, que foi atacado por muitos anos, lembrando que o Japão, que tanto consome MSG, é o país de maior expectativa de vida do mundo!  Em 2014, a Ásia respondeu por 88% do consumo mundial de MSG.

 

Não li ainda o livro todo, mas o capítulo sobre gorduras saturadas me surpreendeu. Fiquei muito desconfiado da absolvição do velho candidato a vilão. O texto não é tão bem embasado, dando uma aparência algo leviana.

 

Afinal, um tiro certeiro não implica que todos os disparos serão certeiros, ainda mais que o autor, ainda que escolado, não é da área.

 

Isso me levou a escrever o texto acima.

 

(*1) Gorduras poli-insaturadas, presente principalmente em alguns peixes, óleos vegetais e oleaginosas (nozes, castanhas, etc.), são aquelas com mais de uma ligação dupla entre carbonos, ao contrário das gorduras saturadas, que não têm esse tipo de ligação, e geralmente são sólidas na temperatura ambiente, ao contrários das gorduras insaturadas. 

 

(*2) Ômega 3 é o ácido alfa-linolênico, encontrado em  peixes (salmão, atum, arenque, sardinha, etc.), linhaça, cânhamo, semente de abóbora, groselha negra, gema de ovo, canola e soja.

 

(*3) Gorduras trans são, em geral, obtidas em um processo industrial de hidrogenação da gordura vegetal, que a converte para o estado sólido.

 

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Paulo Buchsbaum

É alguém muito conectado a todas as grandes questões da atualidade, navegando em áreas tão distantes como Economia, Exatas e Psicologia. Ele atua como consultor de negócios e empreendedor, mas tem paixão por escrever, já tendo 3 livros lançados. Seu site é www.negociossa.com

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