Água doce: o pior problema atual

17.03.2017

O primeiro ponto a esclarecer é óbvio. Não existe problema de falta de água. O problema é a falta de água utilizável, que, em geral, não pode ser a água do mar.

 

É muito caro tirar o sal da água. É um processo que consome muita energia. E a energia responde por cerca de 1/3 do custo total. O custo estimado varia entre 1 e 2 dólares por m3, por volta de 10 vezes o custo da água comum nos EUA.  O descarte do sal residual é outro problema a ser enfrentado, já que o sal é um grande contaminante.

 

Apesar do custo, a dessalinização já é feita comercialmente em vários países, como Arábia Saudita, Estados Unidos, Espanha e Japão. No caso da Arábia Saudita, representa 70% do consumo de água potável. Nos EUA, apesar das exceções, a água dessalinizada  responde por apenas 0,01% do consumo de água.

 

A pesquisa continua, mas a situação atual vigente ainda é a descrita acima. Há ainda potencial em acoplar a conversão ao uso de energia solar para, pelo menos, resolver o problema da fonte de energia.



 

Estima-se que apenas 3% da água disponível são utilizáveis. Desses 2.5% estão sob a forma congelada, só restando 0,5% para consumo humano.


Onde estão esses 0,5% de água?


Um total de 10 milhões km3 estão em aquíferos subterrâneos, o que compreende praticamente 98% desses 0,5% da agua. Há alguma coisa que vem através da chuva, mas 77% dessa chuva cai nos oceanos. O resto da água doce está nos lagos, rios e em reservatórios.

 

Menos de 10 países contém 60% da água doce disponível do mundo. O Brasil é o país mais rico do mundo em água doce, em termos de vazão cúbica disponível anual, com 8.233 km3 estimados por ano, muito acima do segundo colocado, que é a Rússia.  

 

Do uso mundial de água doce, a estimativa é que apenas 8% representa uso doméstico. 22% são para uso industrial e 70% são gastos na agricultura, mas há números divergentes, em outras fontes.

 

3 países sozinhos, pelo montante de sua atividade agrícola e industrial, respondem por cerca de 38% do consumo de água do mundo: China, Índia e EUA.


No caso da agricultura, cereais com uso intensivo de água como trigo, arroz e milho respondem por 27% do uso, produção de carne 22%, laticínios outros 7%.


Existe até alguma pesquisa para algas e plantas específicas, mas de maneira geral, a água salgada NÃO pode ser usada para agricultura.  A força tarefa está mais no sentido de se tentar reduzir as necessidades de água para esse grande consumidor que é a agricultura. Há muitas iniciativas nesse sentido, mas há muita inércia também.

 

No caso da indústria,  usa-se água para resfriamento (aço, energia), papel, químicos, cosméticos, etc.. O potencial de uso de agua salgada nesse setor, infelizmente, é baixo.

Muitas soluções se baseiam na idéia de reaproveitamento da água, o que não vale, obviamente, para a indústria alimentícia.  Há vários cases interessantes de sucesso na redução do uso da água.  Por exemplo, a indústria de papel na Finlândia conseguiu reduzir o consumo de água em 90%. Uma nova tecnologia promete reduzir o consumo de água em processos resfriamento em 80%. No entanto, a maioria das iniciativas é ainda incipiente e tem um custo grande de instalação. Há muito o que se fazer, considerando o legado do parque industrial já instalado no mundo.




O sistema hidrológico é ligado ao clima, e a mudança climática afetará bem a questão da água. O derretimento do gelo do alto das montanhas e dos glaciais, que abastecem aquíferos e rios na virada de estação, tende a se intensificar. Essa água tende a se incorporar aos oceanos.

 

Acredita-se que o Aquecimento Global intensifique os extremos climáticos, com mais enchentes em alguns lugares, e mais secas em outros. O problema é que as enxurradas representam um mau aproveitamento das águas pluviais. Além disso, em áreas urbanas o excesso de chuva pode trazer risco de contaminação de lençóis freáticos.

 

Outra questão é a possível contaminação de lençóis freáticos perto da costa pela água salgada, decorrente da constante elevação do nível médio dos oceanos.


Não estamos perto de entrar em uma crise global da água. Já estamos nela.

O relatório de Riscos Globais de 2015 do Fórum Mundial Econômico já considera a questão da água a ameaça de maior impacto para o planeta na próxima década e é a primeira vez que a água assume essa posição.
Em 2017, passou para a terceira posição, logo atrás dos extremos climáticos (enchentes, tempestades, etc.) e armas de destruição em massa, sendo que esses outros riscos citados são muito difíceis de se gerir, na prática.

 

Aproximadamente 1/3 da população mundial vive em regiões com problema de água e cerca de 700 milhões de pessoas ainda vivem sem acesso à água potável segura. Reservatórios esgotados e leitos de rios secos são sintomas óbvios, mas boa parte desse quebra cabeça está invisível debaixo de nossos pés, como vimos acima.  

 

O problema é que, em muitos lugares, o consumo de água a partir dos aquíferos subterrâneos é superior à sua taxa de reposição, o que leva a um progressivo esgotamento dessas reservas.

 

Quase todas as mais produtivas fazendas mundiais, incluindo o vale central da Califórnia, a planície do norte da China, o norte da Índia e as grandes planícies norte-americanas estão consumindo excessivamente esses ativos aquíferos.


Há 3 forças que pressionam o consumo de água para cima no futuro: crescimento vegetativo (adicional ao crescimento da população), crescimento populacional e urbanização.
 

No ritmo do crescimento projetado, O Banco Mundial prevê que produção de alimento global precisará crescer 50% até  2050, que é de onde se deriva o maior consumo de água.

 

Estima-se que em mais 15 anos, 2 bilhões de pessoas irão encarar severa escassez de água potável, praticamente triplicando o número atual.

 

A crise dos lençóis freáticos está afligindo muitas das megacidades mundiais. Houston, Jacarta e Cidade do México são alguns dos centros urbanos que estão bombeando tantos os lençóis freáticos que a terra por cima está desabando. Jacarta afundou 4 metros no curso de uma geração.


O pitoresco é que 2 regiões (São Paulo e Califórnia) que estão entre os países com maior fluxo de água doce do mundo (EUA e Brasil), estão passando por sérios problemas de água.
 

Fontes gerais

1) World Business Council for Sustainable Development – Water: Facts and Trends

2) Water.org - Facts About Water & Sanitation

3) WeForum.org - Why World Water Crisis are a top global Risk?

4) Treehugger.com  -  Agriculture Consumes 92% of Freshwater Used Globally

5) Racounter - Worldwide water crisis is looming
 

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Paulo Buchsbaum

É alguém muito conectado a todas as grandes questões da atualidade, navegando em áreas tão distantes como Economia, Exatas e Psicologia. Ele atua como consultor de negócios e empreendedor, mas tem paixão por escrever, já tendo 3 livros lançados. Seu site é www.negociossa.com

 

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