O Brasileiro é Liberal mas não sabe (ou esqueceu)

19.03.2017

Eu, enquanto morava na França, trabalhei muito com Americanos, Europeus

(principalmente Franceses, evidentemente), Indianos, Chineses e Tailandeses. Sempre foi muito evidente a diferença cultural entre cada um desses povos. Trabalhar com um Chinês é muito diferente que trabalhar com um Indiano, um Francês é muito diferente de um Italiano, e assim vai. Cada um com suas “qualidades” e “defeitos” (do ponto de vista de um Brasileiro). Mas até então eu não tinha tido a oportunidade de trabalhar com países da América Latina, além do Brasil e de latino-americanos emigrados para outros países, ou seja, já influenciados pela cultura local.

 

Desde que estou nos Estados Unidos trabalho diretamente com Mexicanos. Muitos dizem que é um povo muito parecido com o Brasileiro. Realmente vejo semelhanças, mas identifico também muitas diferenças. Mas como estou há muitos anos fora do Brasil e sendo Brasileiro, tinha dúvida se minha percepção não estava distorcida por conta disso. Então, semana passada, em uma viagem a trabalho para o México, eu jantava com um colega Francês, que nos últimos 20 anos viveu e trabalhou em países como Brasil, Argentina, México e Estados Unidos. Fiquei curioso em saber e o perguntei, como ele, sendo Francês, ou seja, uma pessoa neutra, mas que ao mesmo tempo conhecia tão bem as duas culturas, enxergava as semelhanças e diferenças entre Brasileiros e Mexicanos.

 

Ele citou inúmeras características, fez não apenas comparações entre os dois, mas também com os demais países que ele conhece bem. Quase todas eu concordava e não me surpreendiam. Mas no meio delas, teve uma que me chamou bastante atenção e que me fez refletir por alguns minutos: “Brasileiros e Mexicanos, diferentemente dos Franceses, correm atrás do que querem, não esperam que o Estado resolva o problema deles. Estão acostumados a se virar. Sabem que o Estado não os serve, é ineficiente e ineficaz. Vão à luta e fazem e dão seu jeito para sobreviver.”

 

Quando ele terminou de falar voltei a esse ponto. Falei para ele da minha surpresa inicial, mas que depois fazia muito sentido o que ele disse. Expliquei que minha percepção até então é que Brasileiro gosta de Estado forte, Estado provedor. E após mais alguns bons minutos de boa conversa chegamos a algumas conclusões. A maior parte dos Brasileiros não gosta de Estado forte, há apenas dois grupos de Brasileiros que gostam de Estado forte.

 

 

 

O primeiro grupo é a Classe Média, que na família tem alguém com um bom emprego público ou que sonha com um. Na cidade do Rio de Janeiro, por ser antiga capital da República, isso é ainda mais forte, tendo sido uma das bases da sua economia. Mesmo com a transferência da capital para Brasília, as sedes de diversos órgãos públicos federais e empresas públicas se mantém na capital fluminense até hoje (Petrobras, BNDES, IBGE, Casa da Moeda, …). Mesmo que na gerações mais jovens essa dependência direta do Estado não seja mais tão forte, isso ainda está na cultura e nos valores.

 

O segundo grupo é o dos grandes empresários. O pequeno empresário não se beneficia do Estado, pelo contrário, ele tem o Estado como aquele sócio beberrão, que não ajuda em nada e quando aparece é ou para atrapalhar ou para pegar dinheiro ou os dois. Já o grande empresário quer um Estado que o proteja (com políticas tarifárias e cambiais protecionistas), que lhe dê obras e concessões públicas, que crie barreiras artificiais para a entrada de capitais estrangeiros e quando isso tudo não for suficiente, ele compra os agentes do Estado para se beneficiar ainda mais, como vimos nas Operações Lava Jato e Carne Fraca.

 

Voltando ao comentário do colega Francês, o Brasileiro que ele estava se referindo é o famoso “povão". Aquele que pega a condução lotada, que acorda às 4h da manhã para ir para o trabalho, que tem mais de um trabalho, que ainda faz bico para completar a renda, que enfrenta fila para atendimento em hospital público, que tem uma educação precária nas escolas públicas, que se vira para sobreviver. Esses Brasileiros, apesar de muitos acharem que não, pagam muito imposto (mais que as Classes Sociais mais altas). Como esse brasileiro, que paga muito e recebe pouco ou quase nada do Estado pode querer um Estado forte?

 

Nos primeiros anos de governo do PT, com commodities sobrevalorizadas, Copa do Mundo, Olimpíadas, BRICS, … o Brasil era a bola de vez. O “futuro” do país do futuro havia chegado. O Estado inchou ainda mais, mais empregos públicos, Bolsa Família, muitas obras públicas, Petrobras “bombando”, … a dependência do Estado aumentou, a idéia de um Estado provedor ganhou mais força. E até o “povão”, até então acostumado a se virar, começou a gostar desse “Estadão”.

 

Mas o tempo de “vacas gordas” acabou. O sonho do “Estadão” virou pesadelo. A fonte secou, as vacas eram de papelão e agora temos um elefante branco e gordo (o Estado) para alimentar. A crise, algo já costumeiro para o Brasileiro, apesar de nunca tão forte, faz o Brasileiro voltar às suas origens. Um povo que batalha para sobreviver e não depende do Estado para isso. Um povo Liberal, mesmo que não saiba ou tenha esquecido.

 

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Paulo Gustavo Ganime

Moro sozinho e fora do Brasil há quase 5 anos, mesmo longe sempre estive muito ligado ao Brasil. Muitas vezes sentia vontade de conversar com alguém e expressar minha opinião sobre as notícias e acontecimentos, mas não tinha para quem. Comecei então a escrever minha opinião no Facebook. Conforme os fatos iam ganhando importância, meu envolvimento ia aumentando e meus textos crescendo. Muitas pessoas começaram então a me dizer que eu deveria escrever num blog. Não sou especialista em Economia, Política, Direito, … , em nenhum assunto que escreverei aqui. Tudo será apenas o meu olhar sobre o tema. Gosto de debater e aprender, entao, por favor, discordem de mim e tragam visões e informações diferentes.

 

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