O delicado equilíbrio necessário

05.04.2017

Frente a um cenário mundial cada vez mais polarizado, onde as pessoas já têm suas verdades absolutas e não estão dispostas a ouvir e discutir nada, eu gostaria de dissertar sobre a importância do equilíbrio. Pretendo focar meus textos neste espaço em temas como política, visões de mundo e atualidades, e o equilíbrio se apresenta para mim como algo que representa a melhor possibilidade que nós humanos temos de viver, de conviver, de sobreviver. Nesse contexto, achei importante introduzir uma reflexão inicial como base para defender alguns dos meus posicionamentos posteriores.

 

A natureza, como a conhecemos, pode ser considerada extremamente bela ou

extremamente cruel, dependendo do ponto de vista com que se analisa, mas é fato

que ela deu um jeito de ser equilibrada, e é só por isso que estamos aqui. Um exemplo

claro são as mutações genéticas, que podem ser tão cruéis para o indivíduo, mas são

exatamente a ferramenta que permite a diversidade, a continuidade e a evolução das

espécies.

 

Felizmente, o fato de sermos seres dotados de inteligência nos permite analisar exatamente essa dualidade entre individual e coletivo e escolhermos a forma de vida que queremos ter. Não somos só instinto, somos na verdade a única espécie que pode viver controlando seus instintos, se achar que esses instintos nos ferem ou ferem a outrem.

 

Essa dualidade não difere em nada de diversas outras dualidades com as quais convivemos, e uma delas inclusive pode ser adaptada da disputa entre o individual e o

coletivo. Mais explicitamente, quero estabelecer relação entre esses conceitos com os

conceitos de liberdade e igualdade, valores tão arduamente perseguidos pela

humanidade através dos séculos.

 

Quando os franceses revolucionários estabeleceram mais claramente sua tríade de valores ideais, provavelmente já sabiam que a liberdade e a igualdade representam opostos e que seus extremos são mutuamente exclusivos. Fazendo uma comparação simples com coisas que ocorrem na natureza, a liberdade total para o predador pode determinar a extinção completa da presa. Mas é importante lembrar que sem as presas, o predador também morre. Se tentarmos igualar os “direitos” de predadores e presas, certamente também não obteremos sucesso. Só o equilíbrio pode determinar a sobrevivência de ambos. Por vezes, esse equilíbrio pode ser cruel se analisarmos somente do ponto de vista individual, mas é essencial e belo coletivamente.

 

Se pararmos para analisar mais profundamente, a própria liberdade se auto confronta, porque a liberdade de um pode significar a falta de liberdade de outros. Assim como a igualdade, pois como igualar seres completamente diferentes, seria justo? Viável? Na natureza isso claramente não existe. O equilíbrio se dá de maneira completamente diferente.

 

Trazendo essa discussão para as relações humanas, percebemos o imenso confronto histórico que essa dualidade produziu e produz. Tanto em nome da liberdade quanto em nome da igualdade, o ser humano já produziu massacres inúmeros. Cada defesa apaixonada e extremista de fórmulas perfeitas para a felicidade humana sempre ignora que os valores e anseios humanos são distintos, diversos e por vezes mutuamente excludentes.

 

Como insinua Isaiah Berlin em sua mensagem para o século XXI(1) , Hitler acreditava na raça pura, nos seres superiores, que se deixados a sós, resolveriam os problemas do nosso mundo. O que fazia com que o mundo fosse imperfeito para ele e seus seguidores eram os judeus, os negros, os deficientes, enfim, os não arianos. Os russos revolucionários acreditavam que todos deveriam ser iguais em todos os níveis para que a humanidade se tornasse justa e feliz. Deu no que deu. Os libertários julgam que somente a liberdade na sua totalidade pode salvar a humanidade. E está aí o capitalismo selvagem, produzindo cada vez mais desigualdade e miséria. E poderia enumerar diversos outros exemplos, todos eles tentativas de fórmulas únicas e salvadoras para o completo bem-estar humano.

 

O que precisamos destacar e refletir são as consequências da certeza de estar certo. Se você passa a ter certeza de uma fórmula dessas, acredita cegamente nisso, se você realmente acredita numa solução única para humanidade, com certeza para você os fins vão justificar os meios e, se nesses meios você tiver que dizimar quem pensa diferente de você, é isso que você vai fazer. No entanto, através de séculos, todas as milhões de mortes e sacrifícios feitos em nome do mundo ideal foram em vão. Todos os extremismos impostos à força fracassaram e a humanidade segue perdida, duelando nas suas inúmeras dualidades.

 

Então você me pergunta, se não podemos perseguir uma fórmula perfeita, o

que vamos fazer, como vamos fazer? Obviamente não vou saber te responder isso,

justamente porque não existe uma resposta única para nada nesse sentido. O que eu

proponho não é novo, muita gente já escreveu sobre isso, mas o mundo ainda

continua refém dos extremos, dos binarismos.

 

Eu acredito que nós podemos sempre partir do ponto em que não temos conflito, e a partir disso negociar o resto. Eu não acredito nos extremos, eu realmente os abomino. E não tenho problemas em ser taxado de covarde, em cima do muro, desapaixonado ou qualquer outro adjetivo semelhante. Eu acredito no balanceamento, no diálogo, na empatia, no respeito mútuo mesmo na diferença. Não é possível ter liberdade nem igualdade completa. Não sou eu que afirmo isso, é a história que nos conta. Não é possível priorizar nem o indivíduo nem o coletivo. Simplesmente porque somos diferentes, porque nossos valores e anseios, nossa cultura, nossa religião, até a nossa forma de se comunicar é distinta. Nunca vamos conseguir dizimar os conflitos, mas podemos abrandá-los. E não existe outra forma de fazer isso que não seja buscando exatamente o que denominamos equilíbrio. E por isso para mim essa é a palavra mágica. Não é fórmula, não é certeza, não é estática. O equilíbrio é dinâmico, mutável, conciliador. E pode ser a solução para diminuir os conflitos, nos proporcionando liberdade e igualdade em doses viáveis.

 

 

 

 

(1) Berlin, I. UMA MENSAGEM PARA O SECULO XXI. 1ª edição (2016), Editora âyiné.

 

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 Daniel Daipert

 Mestre em ciências pela UERJ, com MBA em gestão em saúde pela Copeadd/UFRJ, é biólogo formado pela Universidade Gama Filho. Atualmente é doutorando em Biodiversidade e Saúde na Fundação Oswaldo Cruz e cursa os períodos finais de Engenharia de Produção na Universidade Estácio de Sá. Trabalha com pesquisa na Fundação Oswaldo Cruz, mas possui gostos e interesses muito generalistas, com destaque para política, literatura, saúde, música, futebol e atualidades em geral. Ao escrever neste espaço, tem como pretensão principal expor sua opinião sobre diversos temas, sem nunca se considerar dono de verdades.

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