Na Páscoa tem Cerveja? Tem sim senhor!

14.04.2017

Amigos, depois de um intenso verão carioca de muito trabalho, estou de volta. Me perdoem o grande hiato entre as colunas, mas promessa de Páscoa: vou escrever em intervalos menores. E falando em Páscoa, cerveja tem tudo a ver com a Páscoa.

 

A cerveja possui uma proximidade com as religiões, em especial o cristianismo. A ligação entre a Igreja e a cerveja era tão forte que a cerveja era considerada um alimento. Para quem não sabe, os monges católicos europeus em especial, são exímios produtores de cervejas. Muita dessa habilidade tem relação com a páscoa. O período denominado de quaresma, entre a quarta-feira de cinzas e o domingo pascoal era um período de jejum entre os monges. Para garantir a “sustância”, o consumo de cerveja era diário. Conhecido pela alcunha de pão líquido, pelos ingredientes água e malte, a cerveja foi o alimento de monges na quaresma por séculos. O Papa Adriano IV chegou a emitir uma bula papal autorizando o consumo não apenas durante a quaresma, mas mesmo na sexta-feira santa, ocasião para qual os monges reservavam suas mais nobres e fortes cervejas. O exemplo mais célebre é o dos monges alemães da ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula que por volta do século XVI desenvolveram um estilo especialmente para o jejum quaresmal: o doppelbock. Uma cerveja escura, maltada e alcoólica, muito apreciada até os dias de hoje. Foi essa cerveja que deu origem à conhecida e mundialmente renomada Paulaner Salvator.

 

Com a inventividade dos cervejeiros e a ampla possibilidade de sabores que a cerveja proporciona, não é de admirar ninguém que tenhamos cervejas de chocolate. Não necessariamente a cerveja possui chocolate em sua composição. Um dos ingredientes principais da cerveja é o malte de cevada. Esse malte recebe um processo de tosta em diversos níveis, desde mantendo praticamente suas características inalteradas ou até uma tosta bem forte, lembrando café expresso sem açúcar. Um dos níveis de tosta do malte, combinado com sua caramelização do amido presente no grão, remete ao sabor de chocolate. Um dos estilos de cerveja que melhor lembra chocolate é o estilo inglês Porter.

 

No Brasil a lei sobre fabricação de cervejas está atrás do resto das principais nações cervejeiras. A criatividade dos cervejeiros locais fica limitada pela lei que proíbe produtos de origem animal como leite e mel, por exemplo. Como alternativa, vem sendo utilizada pelos cervejeiros brasileiros a adição de baunilha, cacau e outros ingredientes como avelã e a própria lactose (o açúcar presente no leite e seus derivados), para aproximar o paladar da cerveja ao chocolate.

 

O paradoxal é que não podemos produzir cervejas com produtos de origem animal aqui no Brasil, porém importar e vender em território nacional pode. Vai entender esse Brasil.

 

Entretanto, mesmo com tal restrição, os cervejeiros brasileiros conseguem produzir cervejas de “chocolate” de grande qualidade. A seguir irei apresentar algumas cervejas de chocolate para consumo nessa Páscoa ou em qualquer época do ano, afinal, ter chocolate e cerveja é motivo de alegria sempre.

 

Da microcervejaria mais antiga do Brasil, a Dado Bier, temos uma parceria com a famosa marca de chocolates premium Kopenhagen, a Dado Bier Double Chocolate Stout, uma Russian Imperial Stout produzida com o mais nobre extrato 70% cacau, exclusivo da Kopenhagen. Possui ainda uma complexa composição de maltes, cevada tostada, aveia e lúpulos.

 

De uma cervejaria também antiga, a Baden Baden, temos a Baden Baden Chocolate, que utiliza cacau junto com uma mistura de maltes especiais que, favorecem esses aromas e sabores. A Baden Baden Chocolate é uma edição especial e limitada. Uma receita bastante cremosa que realmente parece ter chocolate na composição.

 

Da cervejaria amazônica Amazon Beer, temos a Cupulate Porter, em parceria com as cervejarias paranaenses Bodebrown e De Bora Bier. A Cupulate Porter é uma cerveja escura com adição do Cupulate da Amazônia, chocolate feito com a semente do cupuaçu, ao invés do tradicional cacau. O Cupulate possui muitas semelhanças com o chocolate, como textura, gosto e calorias, exceto pelo aroma, que pode ser um pouco mais adocicado e intenso do que o chocolate tradicional. A Cupulate Porter apresenta coloração marrom profundo, com espuma bege abundante. No aroma e sabor, as características predominantes de maltes torrados conferem notas de café, chocolate e toffee.

 

Da Bodebrown, para aqueles que gostam de chocolate, mas não abrem mão do amargor

do lúpulo, temos a Cacau IPA, feita em parceria com a cervejaria americana Stone Brewing. Essa cerveja possui aromas que lembram frutas cítricas provenientes das adições de lúpulos cítricos norte-americanos combinado com os aromas que remetem ao chocolate provenientes das adições de cacau em formato "nibs” durante a fervura e maturação. No sabor se encontra um balanço entre o maltado com caramelo, além do médio amargor presente através dos lúpulos.

 

Se você é fã da Bodebrown, mas quer deixar um pouco o amargor de fora na páscoa, temos a Cacau Wee, uma cerveja de estilo escocês a Wee Heavy. A cerveja é composta por sete tipos de maltes, leveduras escocesa e adições generosas de Cacau brasileiro (pedaços da semente do Cacau com tosta controlada) proveniente de fazendas na cidade de Ilhéus, Bahia.

 

A atual melhor cervejaria brasileira, Tupiniquim, nos proporciona uma grande cerveja com a Monjolo Floresta Negra, uma Imperial Porter com adição de cacau, baunilha e framboesa,

onde toda a base alcoólica se harmoniza com o dulçor do chocolate e baunilha e a acidez da framboesa.

 

Da Inglaterra, temos a tradicional Young’s Double Chocolate Stout, uma Sweet Stout, feita com barras do tradicional chocolate Cadbury, adicionado junto ao lúpulo durante a fase de

cozimento da cerveja.

 

E por fim, da aclamada cervejaria americana Brooklyn temos a Black Chocolate Stout, uma Russian Imperial Stout elaborada com uma seleção de maltes tostados, produzindo notas intensas de chocolate e café. O chocolate amargo domina o paladar.

 

Como visto, temos muitas opções de cervejas de chocolate para combinar perfeitamente com sua páscoa, qualquer que seja o seu gosto. E também podemos nos livrar da culpa religiosa, com uma autorização do próprio Papa para tal tradição cervejeira. Então, escolha a cerveja, esteja entre família e/ou amigos e brinde com todos. Saúde!

 

Dica do dia: Minha dica será um pouco diferente do meu texto. Uma das melhores harmonizações que fiz foi uma cerveja de cereja ou frutas vermelhas, podendo ser a Floris

Kriek, Kriek Boon ou Mort Subite, todas belgas. Harmonize com chocolate branco. Coloque um pouco de cada na boca, mastigue e degluta junto. Sensacional.

 

 

 

 

 

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Rafael Pina é sócio proprietário do Serpentina Bar Artesanal, na Freguesia/RJ. É formado Sommelier de Cervejas pelo SENAC / Doemens Akademie, Análise Sensorial de Cervejas pela Academia Barbante de Cervejas / FlavorActiv, Tecnologia Cervejeira Básica pelo SENAI e é Mestre em Estilos pelo Instituto da Cerveja do Brasil.

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