E O PALHAÇO BRASILEIRO? O QUE É?

19.04.2017

E O PALHAÇO BRASILEIRO? O QUE É?

PARTE 1: GRACIOSOS E CÔMICOS

NOS TEMPOS COLONIAIS

 

 

A palhaçaria é tão antiga quanto o próprio teatro e está presente em terras Brasileiras desde a nossa formação. O palhaço chegou de navio ao Brasil colônia, brincou e dançou com os índios, trabalhou em circos de pau-a-pique e se apresentou fazendo saltos e acrobacias equestres nos tempos imperiais. Cantou modinhas e lundus no século XIX e seguiu ampliando suas funções ao longo do século XX. Pouco a pouco foi desenvolvendo uma linguagem própria e ganhando espaço nos palcos de teatro, no cinema e na televisão. Atualmente podemos encontrá-lo nos mais diversos ambientes como praças, escolas, lanchonetes e hospitais. Apesar disso, o trabalho e a história dos nossos palhaços ainda são pouco conhecidos. Por isso decidi me debruçar sobre o assunto e, em meus próximos textos pra o 1 Olhar, pretendo traçar um breve panorama da atuação dos palhaços no Brasil e da formação de uma palhaçaria tipicamente brasileira.

 

É difícil precisar a origem dos palhaços brasileiros, isso vai depender muito do que se entende por palhaço. Fenômeno parecido acontece em relação à história do teatro. O importante crítico e teatrólogo Décio de Almeida Prado nos esclarece que "o teatro chegou ao Brasil tão cedo ou tão tarde quanto se desejar. Se por teatro entendermos espetáculos amadores isolados, de fins religiosos ou comemorativos, o seu aparecimento coincide com a formação da própria nacionalidade, tendo surgido com a catequese das tribos indígenas feita pelos missionários da recém-fundada Companhia de Jesus. Se, no entanto, para conferir ao conceito sua plena expressão, exigirmos que haja uma certa continuidade de palco, com escritores, atores e público relativamente estáveis, então o teatro só terá nascido alguns anos após a Independência, na terceira década do século XIX." 1  E há ainda alguns, como nosso grande Ariano Suassuna, que defendem que manifestações teatrais indígenas já ocorriam antes da presença portuguesa em nossas terras, através de representações que eram feitas com belas máscaras e caracterizações. 2 O mesmo problema pode ser aplicado à formação do nosso país: Quando surge o Brasil? Com o descobrimento? Com a independência? Com o desenvolvimento de uma identidade e cultura específicas? A resposta varia conforme o que se entenda por nação e por brasilidade. A questão dá pano pra manga, mas extrapolaria em muito os objetivos deste texto...

 

 

Vemos que não há um consenso sobre a existência de um marco inicial da palhaçaria brasileira, pois, além da relatividade implícita na questão da determinação originária, há o problema da escassez de documentos sobre expressões artísticas ocorridas em nossas culturas autóctones e também nos primeiros tempos do Brasil colônia. O que sabemos é que espetáculos teatrais eram realizados a bordo das naus portuguesas e que as artes circenses chegaram ao Brasil com as caravelas. Por isso, vamos começar falando da presença de palhaços estrangeiros em nossas terras para, mais adiante, tentar entender e contextualizar a formação de uma palhaçaria tipicamente brasileira.

 

Uma das poucas - mas boas! - obras que trata da história dos nossos palhaços é "O Elogio da Bobagem", de Alice Viveiros de Castro, pesquisadora que entende o palhaço como aquele que possui a função social de provocar o riso. Alice fez um levantamento de documentos que comprovam a presença de palhaços durante os tempos coloniais e, para ela, um primeiro momento de palhaçaria brasileira acontece ainda em 1500, através da interação festiva do português Diogo Dias, cômico que viajava com Pedro Álvares Cabral e que, no Domingo de Páscoa, realizou intervenções cômicas e brincadeiras junto à população indígena. Documentos escritos por Pero Vaz de Caminha mostram que Diogo Dias foi um importante articulador das relações entre portugueses e índios, sendo designado por Cabral para participar de missões de contato com os indígenas "por ser homem alegre, com que eles folgavam3 .

 

O palhaço brasileiro foi gestado ainda nos tempos coloniais, nas festividades onde pessoas saíam às ruas mascaradas e vestidas ao "gracioso burlesco". Saltimbancos e cômicos já andavam pelo Brasil no início do século XVIII e alguns registros desta presença foram encontrados nas correspondências do Santo Ofício. Em uma carta de 1727, Frei Antônio de Guadalupe pedia instruções sobre como proceder com artistas nômades que “infestavam as povoações da Capitania, principalmente instalados na Vila Rica do Ouro Preto, realizando com grande aparato, comédias e óperas imorais”.

 

Em 1743, Dom João da Cruz ameaçou de excomunhão aqueles que comemorassem festas de Santos com comédias, bailes e apresentações mascaradas. Há também diversos pedidos de licença para realização de espetáculos em praça pública feitos por saltimbancos durante o século XVIII e documentos de artistas que cruzaram as fronteira da Argentina ao Brasil para aqui se estabelecer e trabalhar. No livro "Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro" Vieira Fazenda nos apresenta uma bela descrição de um grupo de cômicos da época: “Compunha-se o tal bando de 3 figuras principais d entremez, o gracioso e dous barbas, o primeiro vestido de arlequim e os segundos enfronhados em negra camisola, burlescamente sarapintadas, tendo ambos à cabeça longo chapéu afunilado. 4

 

Já nos primeiros anos do século XIX um número significativo de circos e artistas apresentava-se pelo Brasil afora. Estes circos tinham por base a organização familiar e o elenco, ainda primordialmente composto por artistas estrangeiros, já começava a contar com a participação de alguns circenses nascidos no Brasil. Estas trupes viajavam em navios e carroças e quando paravam em alguma cidade erguiam barracas de madeira cobertas com tecidos ou construíam circos de pau-a-pique. Os espetáculos contavam com apresentações eqüestres, acrobacias, exibições de animais e, claro, palhaços!

 

Pouco a pouco nossos palhaços foram desenvolvendo uma linguagem própria e começou a surgir o germe de uma comicidade tipicamente brasileira: musical, falante e miscigenada como nosso povo. Mas isto já é assunto para o próximo texto, onde falaremos sobre a presença e atuação dos palhaços durante o Brasil império. Até lá!

 

 

 

1 In FARIA, João Roberto de. (direção) História do Teatro Brasileiro: Volume I - Do Modernismo às Tendências Contemporâneas. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 21.

2 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cps7JP4qGsc

3 CASTRO, Alice Viveiros de. O Elogio da Bobagem – palhaços no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Editora Família Bastos, 2005. P. 85.

4 IN:CASTRO, 2005, p.89.

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Lili Castro

 

Palhaça, comunicadora e atriz. Participa de festivais e eventos nacionais e internacionais. Dá cursos de palhaçaria e circula com o espetáculo solo “O maior prêmio do mundo”. Atualmente cursa o mestrado em Artes Cênicas na UNIRIO, onde desenvolve uma pesquisa sobre a dramaturgia do palhaço.

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