Escutam sem ouvir, falam sem conversar

03.05.2017

Sinto profundo medo do que nossa geração está deixando acontecer de forma tão contundente e aprovada que se torna até estranho tratar do assunto em qualquer ambiente.

 

Vida de "emotions", falas pesadas e cheias de certeza quando na verdade elas, as falas e as certezas, são em geral extremamente desprovidas de conteúdo, verborragicamente expostas em redes sociais, seios familiares, cultos, universidades e em praças públicas.

 

Ouvir se tornou uma virtude cada vez mais rara, talvez entendida como a qualidade dos "indecisos". Não me entenderei como indeciso, ou "isentão" como chamam hoje quem não se posiciona politicamente em um dos polos que desde 2013 começaram a incendiar o país, pois ter opiniões além dos dois lados que afundaram a nação em discórdia é algo mais do que natural.

 

Esse fenômeno que hoje o país vive tem muito a ver com formas e meios de comunicação, talvez muito mais do que com conhecimento ou prática ideológica. Se adequar a contextos é uma obrigação nesta sociedade maniqueísta e tratada como gado digitalizado.

 

Escolhi o título deste breve texto, lembrando o trecho da música "Songs of Silence" , de Simon & Garfunkel, que em tempos distantes, entoaram a realidade dos zaps-zaps, das reuniões empresariais, das festas em família, do discurso acadêmico. Hoje realmente falamos sem conversar na maioria dos lugares.

 

O pensamento vindo do ócio criativo dá lugar a reprodução elogiada de artigos e textos de doutrinadores nas Universidades, a novidade é rechaçada com o comum argumento da falta de embasamento. Imagino se Sócrates e seus questionamentos, vindo de um homem mal vestido, teriam o mínimo de lugar nesta sociedade. Seria julgado pior do que em seu tempo. Evoluímos? Não sei responder, mas acredito que cresci em um mundo em que se construíam ideias, e não eram artifícios que parafraseavam autores já aceitos. A criatividade hoje só tem espaço nas áreas científicas e tecnológicas, pois as ciências humanas e sociais apenas viraram reprodutoras de ideias. Muitas delas, pavorosas e perigosas.

 

Estamos saindo da década do "politicamente correto", como bem faz a crítica desta geração o Professor Clóvis de Carvalho, e entrando na era dos raciocínios dos "extremos", relegando inúmeras conquistas contra a barbárie, em discursos que se assemelham aos momentos em que o mundo entrou nos piores conflitos entre nações, estamos aplaudindo a escalada nacionalista tão podre quanto o populismo socialista, mesmo sabendo que a História já nos demonstrou que ambos movimentos causaram genocídios e o Holocausto.

 

Estamos trocando a troca de ideias no trabalho pelo medo de parecer fora da curva medíocre do normalmente aceitável, trocamos a mesa de estar pela tela minúscula de um Iphone. Trocamos os afetos pelos presentes, trocamos os sentimentos pela aprovação, trocamos a vida pela imagem dela em uma tela de rede social.

 

Vivendo a ideia que deva existir um "Coach", um Acadêmico ou um Psicólogo, para te ensinar a ser bom, melhor, mais aceito, quando uma das maiores virtudes da diversidade de pensamento é a síntese filosófica, o debate sempre promoveu o surgimento de questões que ajudaram a humanidade, o contrário sempre piorou o ser humano, o desvalorizou como ser único, o relegou a mediocridade intelectual.

 

A ditadura da felicidade é tão podre quando é colocada em programas rigorosos do "que fazer" e do "que não fazer" enriquecendo o bolso dos Instrutores deste Circo de Horror, o movimento de padronização do homem.

 

Como todos, ou maioria, me incluo nesta troca. E vamos teclando e lendo livreto de auto-ajuda, escutando as baboseiras de teorias motivacionais que foram feitas para seres hipoteticamente iguais. Nem irmão gêmeos são assim...

 

Esqueçamos o bom dia, a porta do elevador, o assento especial do metrô, pois se não nos fotografarem agindo moralmente bem, para quê fazer isso? A geração de adolescentes cheios de certezas nos mostra que se aos 18,19 anos não se escuta, o que dirá destes futuros senhores na fase adulta. O mundo produzindo ditadores caseiros em grande escala.

 

 

 

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JAN VAN CREVELD CARVALHO MONTEIRO

 

Especialista em Segurança Pública pela UFF- INeac, pós graduado em ciências sociais e policial há 14 anos, atualmente no posto de Capitão.

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