Liberdade

14.05.2017

Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

 

Dois dos grupos políticos mais ativos no Brasil hoje utilizam alguma variação da palavra liberdade em seus nomes: o MBL, Movimento Brasil Livre, e o PSOL, Partido Socialismo e Liberdade. Uma vez que estes dois grupos se encontram em polos opostos do espectro político (respectivamente, direita e esquerda) e defendem quase sempre pautas conflitantes, é possível desconfiar que ao usar a palavra liberdade os dois estão pensando em coisas muito diferentes. E de fato estão.

 

Ao utilizar a palavra liberdade o PSOL está seguindo a tradição de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Rousseau foi um dos principais filósofos do Iluminismo francês, mas foi um iluminista bastante peculiar. Se fosse possível identificar uma palavra de ordem dentro do iluminismo, esta palavra seria progresso. A crença geral dos filósofos iluministas era de que caso os indivíduos fossem livres para utilizar a razão, o resultado inequívoco seria o progresso, ou seja, uma melhora nas condições de vida de todos. A razão empregada por elas é aquela mesma que nos diz que um triângulo tem três lados, mesmo sem vermos o triângulo para conferir o número de lados. Em outras palavras, os iluministas acreditavam que, através do uso da razão, os indivíduos poderiam construir um futuro melhor do que o passado. Rousseau duvidava disso. Sua perspectiva era de que os indivíduos do passado viviam muito melhor do que os indivíduos do presente. A introdução da vida em sociedade e, principalmente, da propriedade privada, havia provocado um terrível declínio na vida dos indivíduos. Mas Rousseau não acreditava que uma volta ao passado fosse possível. Ao invés disso, sua proposta era a construção de uma sociedade onde a vontade geral superasse a vontade dos indivíduos. E “quem se recusar a obedecer à vontade geral a isto será constrangido pelo corpo em conjunto, o que apenas significa que será forçado a ser livre”.

 

François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (1694-1778), deu uma ácida resposta à Rousseau:

 

"Recebi, Monsieur, vosso novo livro contra o gênero humano. E eu agradeço. Agradará aos homens, a quem vós dirigis vossas verdades, e vós não os corrigireis*. Não poderíamos pintar com cores tão fortes os horrores da sociedade humana, cuja nossa ignorância e nossa fraqueza prometem-nos tanta consolação. Jamais se empregou tanta vontade em querer nos tornar animais. Sente-se ganas de andar com quatro patas quando se lê vossa obra. No entanto, como perdi esse hábito há mais de sessenta anos, sinto que infelizmente não tenho como retomá-lo, e deixo este comportamento natural aos que são mais dignos do que o senhor e eu.

(…)

M. Chappuis informou-me que vossa saúde anda muito mal; seria necessário vir restabelecê-la respirando o ar da terra natal, gozar a liberdade, beber comigo o leite de nossas vacas e pastar o nosso capim. Muito filosoficamente e com a mais alta estima, etc.”

 

A resposta de Voltaire é deliciosa para aqueles que gostam de um certo tipo de humor, mas não foi a única. Adam Smith, geralmente lembrado como o inventor da Economia como uma disciplina acadêmica moderna, foi antes um filósofo moral que procurou oferecer uma resposta para Rousseau. Na leitura de Adam Smith, a vida em sociedade não corrompe o indivíduo tornando-o egoísta, ao contrário: é justamente na vida em sociedade que somos forçados pelas circunstâncias a prestar mais atenção aos desejos e necessidades do próximo, ainda que por motivos inicialmente egoístas. Daí a famosa formulação de Adam Smith de que “não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses”. Ou seja: ainda que motivados por um desejo que podemos considerar mesquinho (o lucro puro e simples), as pessoas precisam prestar atenção às necessidades dos outros. Um padeiro que não faça um pão gostoso a um preço acessível não pode esperar muito lucro. A não ser que use violência.

 

Edmund Burke, pai do conservadorismo moderno, também ofereceu uma resposta a Rousseau. Em sua visão, é justamente na vida em sociedade que nos tornamos livres. Thomas Hobbes já havia observado que sem uma sociedade organizada “a vida do homem é solitária, pobre, desgraçada, bruta e curta”. Mas Hobbes era muito abstrato para Burke, que seguiu um raciocínio mais concreto: todos nós nascemos em famílias, e é somente pelo cuidado de nossos pais que chegamos a ser adultos independentes. Ou seja: sem a sociedade não somos nada.

 

John Locke também seguiu um raciocínio diferente de Rousseau. Locke concordava com Rousseau que a vida em sociedade possui empecilhos que não encontraríamos em uma vida selvagem. Porém, esta vida selvagem, longe de idílica, possuiria suas próprias dificuldades. A solução para Locke é uma vida em sociedade onde direitos fundamentais do indivíduo são respeitados. Ou seja: vivemos em sociedade para nos proteger, mas precisamos nos proteger uns dos outros (ou ao menos dos outros mal intencionados).

 

A filosofia política de Rousseau só pode levar a ditaduras onde a liberdade de consciência é um detalhe a ser relevado. A filosofia política de Burke, e principalmente de Adam Smith e John Locke, leva a uma sociedade onde nada está garantido em termos de riqueza material, mas onde nossa liberdade de consciência está assegurada.
 

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Bruno Rosi é Historiador, Internacionalista e Cientista Político e professor de Relações Internacionais na Universidade Candido Mendes.

 

 

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