Viajar, resistir a si mesmo

17.05.2017

Em vez de seguir com as dúvidas de sempre e nossos questionamentos diários, há quem prefira largar tudo em algum momento e sair por aí, seja pelo interior, seja através de carona, seja utilizando-se de algum dinheiro guardado para desaparecer por algum tempo, levando dentro da sua mala a necessidade do desconhecido.  Quem peregrina vai devagar, anda por terras distantes e possui qualidades raras, quase especiais e normalmente não se interessa pelo turismo convencional. Quase sempre se sente um estrangeiro, até mesmo em terra natal. É importante lembrar que em momento algum podemos comparar a deportação, que constitui uma viagem forçada, ao deslocamento de espaço ao qual me refiro. Esta é fruto do exílio, da civilização doente e exatamente o contrário do ato intencional de viajar. É o que aconteceu com o povo cigano, por exemplo, oriundo da Índia, que possuía raízes sedentárias enquanto clãs. Somente após a colonização inglesa é que se tornaram nômades.

 

Mas iremos nos ater ao indivíduo em geral que tende a buscar essa forma de viver, por dias, meses, anos ou aproveitando um feriado mais longo. E quanto mais se viaja, menos roupas e pertences o viajante se acostuma a levar dando a devida atenção a tudo que realmente precisa desanuviando as costas, as mãos e os pensamentos. Pois viajar é acima de tudo não sobrecarregar-se de coisas desnecessárias, é disto que se tenta escapar. Por mais que a locomoção seja de avião, de carro, bicicleta, moto ou ônibus, o fato é que serão os pés o transporte daquele que está em busca de autoconhecimento, da descoberta de novas formas de vida em uma cidadezinha do interior ou mesmo em um país longínquo. Caminhando sem rumo somos inerentes ao novo e nos deparamos com situações e espaços que jamais encontraríamos seguindo a rota convencional.

 

Por necessidade, entretenimento, prazer, fuga ou frustração ela é internacional. O mais interessante dentro do ato de viajar é a passagem entre o ponto de partida e a linha de chegada. Também o espaço entre o destino atingido e a volta. O que você conseguiu? O que aprendeu? O que foi somado em sua vida? Muitas vezes, ao reduzir o tempo de chegada, como é o caso dos aviões, reduz-se também a possibilidade de transformações durante o deslocamento de um viajante para outro lugar. Realidade decorrente dos avanços tecnológicos que dão preferência a nossa zona de conforto ao invés da grande roda que é o mundo, ou seja, uma transição constante. As necessidades humanas expressas pelo sedentarismo levam aquele que visita o mesmo local novamente a usar sempre o conhecido hotel, a frequentar o mesmo restaurante e consequentemente tornar-se tão idêntico ao que somos em nosso dia a dia.

 

A viagem turística se aproxima muito mais do passeio, da brincadeira e não tem outro objetivo. O leitor dos guias de viagens não transita em torno do espaço. É o espaço que se mobiliza ao seu redor.

 

Todos nós possuímos dentro da gente o caráter sagrado da viagem decorrente das antigas civilizações que se espalharam em busca de alimentos e sobrevivência, descobrindo a partir daí outros mundos e ganhando conhecimento.

Viajar! Perder países!

 

Viajar! Perder países!

Ser outro constantemente,

Por a alma não ter raízes

De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!

Ir em frente, ir a seguir

A ausência de ter um fim,

E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.

Mas faço-o sem ter de meu

Mais que o sonho da passagem.

O resto é só terra e céu.

 

Fernando Pessoa

 

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Susana Savedra

 

É poeta, arte educadora, atriz, modelo vivo e estudante de letras. Integra duas coletâneas, "Lar" e "Baseado na estrada". Para conhecer melhor seu trabalho acesse sua página no Facebook e seus blogs:

Facebook: CurtaPoesiaVidaLonga

www.joaninhasusana.zip.net

www.cafeconpochoclos.blogspot.com.br

 

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