O perfeccionismo é imperfeito

Acredito que todos temos um pouco de perfeccionistas. Sempre haverá algo que buscaremos fazer com maestria, assim como saberemos valorizar quem o faça. Há contudo outras pessoas que não apenas possuem esse quê, mas que o são num todo. Essas pessoas se guiam dentro de um padrão exaustivo de perfeição. O perfeccionismo é um traço extremamente notório na personalidade, e uma característica atribuída muitas vezes até aos signos do zodíaco, algo do tipo “se nasce sendo”. Será?

 

É muito fácil reconhecer um perfeccionista, não é, contudo, assim tão simples se reconhecer enquanto um. Ao menos para mim nunca foi. E sim, me descobri uma ao fazer terapia. “Grande parte dos portadores de Fibromialgia são perfeccionistas, assim como você!”, disse minha terapeuta. “Oi? Mas eu não sou perfeccionista. Gosto das coisas certas, mas não é para tanto.”, retruquei. E ganhei como tarefa de casa uma autoanálise focada nesses traços já tão óbvios para a profissional, após algumas sessões de terapia, e tão imperceptíveis (ou corriqueiros?) para mim. Mas, ainda assim, o que pode haver de tão ruim em ser uma perfeccionista? De que maneira isso poderia me adoecer?

 

Aceitei o desafio de me analisar quanto a esse aspecto, e confesso, não foi uma tarefa tão simples. Aos poucos fui enfim conseguindo enxergar, nas mais minúsculas coisas, como isso está impregnado na minha vida. Vi-me implicando com a forma como meu marido separava os ingredientes ao me ajudar a fazer um bolo, ou do desenho do meu filho que podia ser mais colorido, ou da letra A do outro filho que podia ser mais bonita. Vi-me postergando tarefas, por “não estar pronta”, ou não valorizando outras realizadas, pois não estavam de acordo com o esperando. Flagrei-me reclamando dos meus feitos, mesmo em face de elogios alheios. Peguei-me até mesmo adiando esse texto, que na verdade era um outro, e que ficou inacabado e impublicado por não ser bom o suficiente.

 

Consegui ir mais fundo e olhar pro meu passado. Revisitei o momento em que passei no vestibular público em segundo lugar para o curso que eu desejava, e ao invés de ficar orgulhosa de mim, lamentei o meio ponto que me separava do primeiro lugar. Enxerguei com saudade todos os hobbies que eu abandonei − a escrita, a música, as artes manuais − e isso tudo de forma paralela, num momento, o qual desconheço em exatidão, em que passei a julgar que toda essa atividade/produção não eram bons o suficiente. Encarei com dor as oportunidades profissionais que perdi por me achar incapaz e não me dar a chance de sequer tentar. E são tantas e tantas coisas, pequenas e grandes, que resumirei por aqui. Mas o mais importante vem agora: ao analisar tudo isso, fui sendo capaz de realizar o tamanho incômodo que essas coisas “imperfeitas” (ou feitas de outra maneira que não a minha?), ou “não boas o suficiente” me causam. Mensurei o peso desse comportamento na minha vida, e na vida das outras pessoas (aqui senti muito por meu marido e meus filhos). Entendi de que forma o perfeccionismo foi capaz de me adoecer.

 

O perfeccionismo é imperfeito, utópico, inatingível. Nós, mortais, somos imperfeitos. Como poderíamos então realizar coisas perfeitas? Perseguir esse ideal de perfeição é exaustivo física e mentalmente, e ainda nos imprime sentimentos de negatividade, depreciação, desvalorização. Essa busca exacerbada pelo perfeito pode nos guiar até quadros depressivos, patológicos, nos levando a abandonar tarefas que nos davam prazer, atingindo nossas relações familiares, profissionais e sociais.

 

E como eu indagava lá no início, será que já nascemos perfeccionistas? Acredito que muito mais que os astros, é explicação essa sociedade atual em que vivemos, que nos impõe essa necessidade de sermos sempre melhores e melhores, de superar ao outro e a nós mesmos, em busca de reconhecimento. Somos constantemente cobrados por excelência, e é ai que essas duas palavras se cruzam e se confundem. Excelência é completamente diferente de perfeição. Ser excelente é fazer o melhor possível, e não o impossível.

 

Eu infelizmente descobri-me perfeccionista um pouco tarde, depois de deixar essa busca

incessante pelo perfeito me guiar numa viagem cega, em que adoeci a minha mente e o meu corpo. E como disse, sem ao menos perceber. Repito: é fácil reconhecer um perfeccionista, mas não é tão fácil se reconhecer um, ou compreender os danos desse comportamento na nossa vida. Você já pensou sobre isso? Sempre é tempo de fazer o caminho de volta, esse que eu estou fazendo agora, esse em que tenho trabalhado aceitação (da maneira do outro ser/fazer), esse em que venho expandindo meus horizontes (outros caminhos/outras possibilidades), e principalmente esse em que não significa que eu não possa me empenhar em “coisas excelentes”, mas no qual eu tenho buscado reconhecer o valor do bom, e usufruir dele.

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NATHÉRCIA SENA VAN VLIET

Sou brasileira, 30 anos, graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal da Paraíba, tendo atuado na área por alguns anos. Moro há pouco mais de 2 anos na Bélgica, para onde vim com

meu marido holandês e nossos 2 guris, agora 3. Ser mãe é a grande missão da minha vida, e meu job em tempo integral. E não bastasse a loucura que é a vida de imigrante e mãe de 3, fui recentemente diagnosticada com Fibromialgia. Para buscar informações e trocar experiências com outros portadores dessa síndrome, criei um perfil no Instagram, onde escrevo sobre a nova vida que eu preciso aprender a levar. Instagram: @com_fibro_e_fibra

 

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