Resenha do livro OS PESCADORES de Chigozie Obioma

20.05.2017

 

 

É preciso começar dizendo que essa não é uma história feliz e alegre, aqui não existem casamentos, romances ou personagens perfeitos, mas tem algumas reviravoltas curiosas que prendem a atenção. É um livro escrito por um nigeriano que nos mostra muitas curiosidades a respeito das tradições culturais de seu país, inclusive uma coisa bem pitoresca que me chamou a atenção entre tantas foi o fato de que se chamar alguém de “meu amigo” / “minha amiga” representa irritação ou impaciência. A narrativa é marcada pela dor, pelas perdas e pelas angústias de uma família simples e pacata, que se torna vítima de uma profecia lançada por um louco (Abulu). Mas o interessante é que é exatamente em torno de todo esse sofrimento que a gente encontra a poesia, a delicadeza e a força cultural da obra.

Para mim foi muito bom saber um pouco a respeito dos valores, da cultura e de algumas tradições da Nigéria, onde se passa a história nos anos 1990. Há também algumas questões políticas que aparecem na narrativa, citações sobre a Guerra Civil que aconteceu por lá entre outros fatos que são bastante importantes e muitas vezes pouco conhecidos por nós de outro continente.

 

A protagonista do romance é uma família bem tradicional e simples que reside na cidade de Akure que, devido à colonização europeia, passou por muitas transformações culturais e religiosas: Benjamin, de nove anos, é o narrador dessa história, que começa quando quatro dos seis irmãos descobrem a pescaria e decidem passar o tempo livre às margens do rio Omi-Ala. Embora sejam de classe média e não necessitem disso para viver, as idas ao rio são mais por diversão e fascínio pelos peixes, girinos e outros habitantes daquele pequeno universo que fascinam os irmãos. Quando o pai, funcionário do banco estatal, é transferido para uma cidade distante, os quatro filhos mais velhos aproveitam sua longa ausência para todos os dias, depois da aula, irem pescar no rio Omi-Ala que parte dos nigerianos acredita ser amaldiçoado e que não é um lugar seguro onde crianças possam brincar: na época em que os colonizadores chegaram da Europa e trouxeram consigo o cristianismo, o rio deixou de ser um local sagrado habitado por divindades e se tornou, como o próprio autor diz, um berço emporcalhado, no qual se faziam rituais de magia às margens.

 

Numa das idas ao rio, Ikenna, o primogênito, é amaldiçoado pelo louco da cidade, tido também como sendo um profeta. Segundo o insano, Ikenna será assassinado por um pescador. E como ele e os irmãos agora se consideram pescadores todos passam a ser atormentados pela profecia e, como diz Benjamim, Ikenna é envenenado pelas palavras cruéis de Abulu: desesperado e sem saber direito como lidar com a situação, o garoto, que tem apenas 15 anos, passa a agir de forma agressiva com os irmãos, o que aos poucos destrói a harmonia e a sintonia da família, e altera de forma triste e significativa o destino de todos eles. Basicamente o enredo é essa profecia e suas consequências. E apesar de todo o sofrimento que vem a partir dessa suposta maldição, a narrativa de Benjamin, um menino apaixonado por animais que trata sempre de fazer comparações entre as pessoas e os bichos, consegue trazer para perto de nós um pouco da África, um pouco do olhar da criança e um tanto da beleza da Nigéria com sua cultura, religiosidade e hábitos muitas vezes bem diferentes dos que conhecemos...

 

Para finalizar posso dizer que essa é uma história que descreve o drama de uma família, mostrando o quanto é difícil conviver com as diferenças, as discórdias, as crenças e as dificuldades do dia a dia, não importa em qual continente a gente viva. É um livro que mostra de forma intensa o quanto o medo pode prejudicar o amadurecimento dos jovens e os relacionamentos pessoais. Da mesma maneira a obra também nos coloca diante de uma cultura diferente e nos apresenta um povo repleto de misticismos e tradições. Gostei muito da experiência de ler um romance que se passa na África escrito por um africano! Foi uma leitura muito enriquecedora e espero que venham mais livros de Chigozie Obioma, com a sua prosa leve mesmo tratando de um assunto tão forte e complexo!

 

    Foto : arquivo pessoal

 

LEIA MAIS

Outros livros recomendados:

 

-  Análise do livro NINFEIAS NEGRAS de Michel Bussi por Maria Claudia

-  Crítica do livro Um Mais Um de Jojo Moyes por Maria Claudia

-  Os Cães nunca deixam de amar de Teresa J. Rhyne recomendado por Maria Claudia

-  O Tempo entre Costuras de María Dueñas  recomendado por Maria Claudia

-  Destino La Templanza de María Dueñas recomendado por Maria Claudia

-  A Maleta da Sra. Sinclair de Louise Walters  recomendado por Maria Claudia

-  A Lógica do Cisne Negro de Nassim Nicholas Taleb recomendado por Paulo Gustavo Ganime

- A livraria dos finais felizes de Katarina Bivald recomendado por Maria Claudia

- O Amante Japonês de Isabel Allende recomendado por Maria Claudia

 

Maria Cláudia de Macedo Miranda Marandino

 

Resendense de nascimento e carioca desde os meus três anos, sou professora (aposentada) especializada em alfabetização e pré-escolar. Amo ler pelo simples prazer de ler! Não sou especialista em literatura mas vou colaborar no 1 olhar com o resumo que faço de cada um dos muitos livros que leio na esperança de despertar o leitor que sei que vive dentro de cada um de nós: todos somos leitores, basta que o livro certo nos encontre!

Please reload

 SIGA-NOS AQUI TAMBÉM 
  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W
 os mais RECENTes : 

August 6, 2018

August 3, 2018

July 18, 2018

July 11, 2018

Please reload

Please reload

Copyright © 1Olhar 2017

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Twitter Icon
  • Grey Instagram Icon

O 1 Olhar é uma plataforma colaborativa com mais de 50 colunistas compartilhando o olhar, a opinião de pessoas normais sobre os acontecimentos que nos cercam.

Quer colaborar? Entre em contato