O financiamento de campanhas na base do caos político.

26.05.2017

Cada brasileiro não alienado assiste hoje ao caos que se instalou no país e reage, no mínimo, com grande indignação. Todos querem mudanças, mas ninguém sabe por onde começar. Talvez seja por isso que enquanto os políticos e empresários envolvidos em escândalos de corrupção tentam a todo custo se salvar, a população continua num embate mesquinho, cheio de ódio e com uma polarização absurda. Cada um defendendo seu “lado”, mesmo sabendo que a sujeira está em TODOS os lados.

 

Mas tudo tem raízes. E para mudar alguma coisa, temos que começar a mudar por essas raízes. Temos que cortar as raízes que alimentam a podridão. Há anos que pra mim é óbvio demais que o financiamento privado de campanhas e o tipo de relação existente entre o público e o privado no Brasil são um câncer para o país, e uma hora essa bomba ia explodir. Mas mesmo imaginando a corrosão que esse sistema provoca, eu não esperava uma bomba atômica. As coisas são bem piores do que se podia imaginar.

 

Nunca foi difícil imaginar que essa relação, do jeito que sempre se deu, era inviável. Pense

bem, você decide se candidatar, escolhe um partido que defenda as ideias que você defende, o partido vê em você um possível bom quadro político e resolve investir em você. Agora procure saber o quanto se investe nas campanhas de cada político eleito nesse país. Não vou colocar dados aqui porque pelo menos os valores oficiais são fáceis de se ter acesso. Só os números oficiais já são absurdos, e agora estamos tendo acesso aos incríveis números dos caixas 2.

 

Se te dissessem que você precisa investir dois milhões de reais para se eleger e seu salário será de 8 mil reais por mês, você investiria seus dois milhões? Acho que se você for um pouquinho esperto você vai preferir investir até na pobre poupança, que te renderá mais do que os 8 mil reais por mês e você não vai precisar fazer nada, só esperar o dinheiro render. Então porque eles gastam isso? A resposta está todo dia na TV e nos jornais. Cada político nesse país é vendido, cada um precisa entrar lá para defender os interesses de quem o financiou ou financiou o partido. Para esses financiadores cada centavo investido vale muito, porque o retorno vem em facilidades, em leis para benefício próprio, isenções de impostos e mil outras formas de transformar os 2 milhões em 200 milhões.

 

Nesse cenário é fácil entender o porquê de uma joalheria que emprega meia dúzia de pessoas conseguir isenção fiscal do governo. Fica fácil entender o motivo pelo qual os ruralistas conseguem desmatar a Amazônia. Os financiamentos só saem para os grandes. As leis e impostos burocratizam o sistema e dificultam e inviabilizam os pequenos negócios, que não à toa estão se extinguindo. Os direitos sociais conquistados com muito suor vão sendo atacados sem dó. O SUS definha na medida que a prioridade são os planos de saúde. A educação pública é precarizada enquanto os grandes grupos internacionais de ensino ganham terreno. E os bancos, ahhhh os bancos, recorde atrás de recorde nos lucros. Fica fácil entender.

 

É um sistema macabro, inviável, feito pra beneficiar quem já é gigante e subjugar quem é pequeno. Não existe possibilidade de um país dar certo dessa forma, independente da ideologia política que se defenda. O financiamento de campanhas do jeito que é atualmente é responsável direto pelo caos. O ser humano é corruptor e corruptível. Se você deixa uma porta escancarada que permite a corrupção, a corrupção vai acontecer.

 

 LEIA TAMBÉM: O delicado equilíbrio necessário por Daniel Daipert

 

Está na hora de revirarmos nossos neurônios e pensarmos numa solução para os gastos

com campanhas políticas. Ninguém que entra na política pode ter rabo preso. Eu defendia que cada candidato recebesse um valor fixo igual para cada cargo, vindo de verbas públicas. Por mais que pareça um absurdo o nosso dinheiro financiar campanhas, no final o valor gasto é bem menor do que o que temos no atual sistema. Mas hoje, com a internet e as redes sociais bombando, acho que o dinheiro público nem deveria ser mais necessário. Dá pra fazer campanha utilizando somente a internet, dá pra defender as ideias, os ideais, dá pra fazer muito com pouco. Mas isso é uma ideia bem superficial, acho que dá pra melhorar muito, amarrar algo que possa impedir que aconteça o que acontece hoje. E você, o que acha disso? Ainda acredita, depois de tudo isso, que o financiamento privado de campanha pode existir? Não acha importante que essa discussão seja central na tentativa de iniciarmos as mudanças?

 

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Daniel Daipert

 

Mestre em ciências pela UERJ, com MBA em gestão em saúde pela Copeadd/UFRJ, é biólogo formado pela Universidade Gama Filho. Atualmente é doutorando em Biodiversidade e Saúde na Fundação Oswaldo Cruz e cursa os períodos finais de Engenharia de Produção na Universidade Estácio de Sá. Trabalha com pesquisa na Fundação Oswaldo Cruz, mas possui gostos e interesses muito generalistas, com destaque para política, literatura, saúde, música, futebol e atualidades em geral. Ao escrever neste espaço, tem como pretensão principal expor sua opinião sobre diversos temas, sem nunca se considerar dono de verdades.

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