Desengavete-se – a auto-realização e a busca interior

27.05.2017

 

Sabe aquela vaga sensação de vazio, tédio ou de que a vida podia ser mais? Então, pare

e pense: quais são os projetos, hobbies e idéias não realizados? As justificativas para tal

são as mais comuns a todos nós adultos: falta de tempo, problemas, preocupações, preguiça, mas sobretudo, eu arriscaria dizer que somos dominados pela idéia coletiva de que se não for produtivo ou para gerar algo concreto não damos valor ou espaço para essas outras coisas. O pragmatismo mata a criatividade e, muitas vezes, o prazer de fazer coisas pela auto-realização. Outro aspecto importante que pode barrar essas atividades é a falta de persistência e disciplina. Ter um potencial não basta para se desenvolver em algo ou chegar a tal auto-realização. Desde aprender um instrumento musical até pintar, cerâmica, escrever, correr, dançar requerem certa disciplina e insistência.

 

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Por que essa busca interna é importante? Em psicologia, observamos que quando um potencial não está sendo realizado, além de gerar frustração, pode transformar-se em sintoma físico ou mental. Um dos grandes fatores de adoecimento no mundo contemporâneo é a falta de investimento em atividades puramente criativas que por si só são terapêuticas. Sair do foco das preocupações diárias (profissionais e pessoais) ajuda a criar novas sinapses cerebrais, além de trazer alívio de tensões e ampliação do nosso repertório na vida.

 

Além dessa temática mais direta e observável na nossa saúde, a auto-realização é a meta do nosso processo psicológico e quando rejeitada vira peso interno. Até uma certa idade dedicamos nossa vida para atividades mais concretas: estudos, investimento na carreira, família, etc. A partir da meia-idade começamos a nos questionar o que deixamos para trás ou sentimos o tal vazio ou falta de sentido à vida. Desta forma, há que se questionar, refletir o que ainda não foi feito (claro que jamais faremos tudo) e o que cabe na nossa vida. Sempre lembrando a questão da disciplina e persistência. Quando lemos um texto de algum grande escritor ou contemplamos uma obra de Arte, temos a falsa impressão de que aquilo foi naturalmente concebido, sem grandes esforços. É o mito da vocação. Digo mito porque nas biografias de grandes mestres da humanidade (cientistas, artistas, místicos, etc) todos contam como foram construíndo seu caminho para chegar aonde chegaram. E todos falam de três pontos: disciplina, persistência e prática. Até os grandes gênios dizem isso. Não quero dizer com isso que estamos tratando aqui de genialidade. É que esses grandes homens são modelos para nos inspirarmos. A vocação, a inclinação, a predisposição para algumas atividades de fato é pessoal e variável de pessoa para pessoa, mas ela sozinha não vingará sem atenção, dedicação e concretização.

 

Voltando: para encontrarmos novos sentidos, precisamos nos perceber. Parece simples, mas acabamos esquecendo-nos de nós no cotidiano e só nos damos atenção quando algo nos incomoda. E como se faz isso? Retornando ao começo do texto: perguntando-se o que foi engavetado ou deixado de lado. Elaborando um espaço na agenda para incluir essa nova atividade e buscando caminhos para iniciar esse novo projeto, hobby ou idéia (cursos, contato com pessoas que já fazem isso, leitura). Depois é praticar, persistir e desistir da idéia de que tudo que fazemos precisa de um lugar prágmático. O lugar dessa nova atividade é o prazer e a auto-realização. Se isso virar algo maior na sua vida será conseqüência natural e não a causa. E se continuar sendo apenas um hobby, simplesmente curta e seja feliz. Coloque sua imaginação para funcionar e projete-se nos seus desejos não realizados.

 

“A imaginação é a sinfonia da alma que toca no palco da mente.” Frase de minha autoria postada no meu Instagram versotilidade. Meu novo hobby e que me inspirou a compartilhar nesse texto essa busca. Para quem quiser me seguir lá é só procurar versotilidade. Boas buscas interiores !

 

 

 

 

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Yedda Raynsford Macdonald, carioca de origem e de alma, paulista por hábito e respeito. Psicóloga clínica de adolescentes, adultos, casais e família. Autora do livro: Divagar, Devagar: depressão e criatividade lançado pela editora Appris e coorganizadora do livro "Pescaria Noturna: elaborando criativamente o lado sombrio da personalidade" a ser lançado em 2017 pela mesma editora. Amadora das palavras desde sempre.

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