Convite para um novo espetáculo

Há cerca de 10 dias, deslizando pelo Facebook, me deparei com uma notícia de morte, de uma cantora paraibana, vítima de acidente automobilístico. Vi que havia muitos comentários, e fui contra meu “princípio” de "não leia-os", e cliquei. Que péssima ideia! Me assombrei com fotos e vídeos do acidente, das vítimas, sendo postadas e repostadas, comentários e mais comentários que traziam teorias, julgamentos, perícias, e até chacota... um verdadeiro horror! Fiquei péssima, tive uma noite de sono terrível, e uma pergunta ficou ecoando em mim: por que as pessoas gostam desse tipo de conteúdo?

 

E sem que essa inquietação tivesse passado, cheguei nesse fim de semana a mais um vídeo que se tornou viral, dessa vez não de morte, não de acidente, mas de uma pessoa vítima de dependência química, sendo massacrada, ridicularizada, enquanto sucumbia ao provável efeito de drogas lícitas ou ilícitas, o que não vem aqui ao caso. Já é espantoso por si só que pessoas diante daquele cenário, ao invés de estender uma mão, estendam uma câmera, que ao invés de palavras de apoio e conforto, gritem xingamentos e busquem ridicularizar ainda mais a vítima. Mas nesse caso se torna ainda mais espantoso, pela pessoa em questão ser um ator, global, lindo, famoso e outrora amado, idolatrado por muitos - quem sabe até muitos daqueles que estavam ali xingando e filmando tenham tentando se aproximar mais cedo, durante a festa, e pedir um autógrafo, ou sendo mais atuais, uma selfie. E não, não cito esse fato como se o Fábio Assunção fosse alguém especial ou diferente por ser famoso, mas para ressaltar que ainda assim, não apareceu naquela hora nenhum fã, todos estavam ocupados com outro espetáculo: o da banalização do sofrimento.

 

Esses dois breves e recentes exemplos que cito, explicitam uma realidade: o mundo está doente, as pessoas estão doentes! Busquei na minha memória quando deixei de ler comentários de reportagens e porque, e recordei que foi justamente pela toxidade deles, pelo quanto me fazia e faz mal ver toda essa podridão sendo vomitada pelos dedos em nome da liberdade de expressão. As redes sociais ficam normalmente com a culpa, como se elas fossem o vírus que desencadeou essa doença. Mas seria isso de fato algo contemporâneo, fruto da nova era digital? Para que esse conceito caia por terra basta que relembremos um pouco das nossas aulas de história, de quando multidões se reuniam, por exemplo, no coliseu na Roma Antiga, para assistirem PESSOAS sendo torturadas; se reuniam ao redor das fogueiras, durante a Revolução Francesa, para assistirem PESSOAS sendo queimadas; eu poderia ir além nos exemplos, mas creio desnecessário ser redundante quando já o fomos com uma palavra: PESSOAS - são elas os autores, atores, e o público desse espetáculo de horror.

 

Há algo muito doentio quando constatamos que a violência é espetáculo, que o sofrimento do meu semelhante é banal. Como notamos, é histórico, está entranhado no ser humano desde o princípio esse gosto pelo macabro. Mas aí chegamos na contemporaneidade, e o espetáculo do horror está por toda parte, as plateias são imensas e propagam e produzem constantemente novos conteúdos como os que citamos a princípio. Cada smartphone é como uma arma apontada, cada pessoa é uma vítima em potencial. Esses urubus das redes digitais não dormem, não descansam, não tiram férias. Eles estão por toda parte: nas catástrofes, nos atentados terroristas, na violência urbana diária, nos nudes que vazam, no bullying, no racismo, na homofobia. Estão sempre prontos a destilar seu veneno, em foto, em vídeo, em memes, em comentários cheios de erros gramaticais, ou de palavras rebuscadas para travestir a maldade de inteligência. E aqui sim entram as redes sociais, com seu poder de disseminar a informação -ou desinformação- de forma instantânea; aqui estão elas como um palco, no qual cada vez mais e mais pessoas desejam subir e “brilhar”. Mas é imprescindível lembrar que as redes são apenas isso - palco, lugar. Quem faz acontecer são os atores. Ou seja, o que acontece não é culpa ou mérito do palco.

 

O mais triste de tudo isso é perceber que cada vez mais pessoas são afetadas por esse vírus que lhes faz perder a capacidade de discordar, se escandalizar, se doer pelo outro, se inconformar e se posicionar contra. É como se nada realmente impostasse, por pior que seja, pois afinal não é comigo, é com o outro. Esse texto, discreto e mínimo diante de tudo que pode ser dito a cerca desse assunto, tem a pretensão de chegar a você aqui nesse palco em que todos estamos, como um convite: para que sejamos autores e ATORES: da empatia, do amor, da solidariedade. Para que trabalhemos juntos na construção de um novo espetáculo, de uma nova onda, para que agreguemos mais e mais atores e façamos crescer essa plateia, esse núcleo, esse sentimento, afinal, lembremos: são os atores que

fazem acontecer.

 

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NATHÉRCIA SENA VAN VLIET

Sou brasileira, 30 anos, graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal da Paraíba, tendo atuado na área por alguns anos. Moro há pouco mais de 2 anos na Bélgica, para onde vim com

meu marido holandês e nossos 2 guris, agora 3. Ser mãe é a grande missão da minha vida, e meu job em tempo integral. E não bastasse a loucura que é a vida de imigrante e mãe de 3, fui recentemente diagnosticada com Fibromialgia. Para buscar informações e trocar experiências com outros portadores dessa síndrome, criei um perfil no Instagram, onde escrevo sobre a nova vida que eu preciso aprender a levar. Instagram: @com_fibro_e_fibra

 

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