E O PALHAÇO BRASILEIRO? O QUE É?

27.06.2017

E O PALHAÇO BRASILEIRO? O QUE É?

PARTE 2: OS PALHAÇOS NO

BRASIL IMPÉRIO

 

 

No último texto tratamos da presença de graciosos e cômicos nos tempos coloniais, vendo que momentos de comicidade e brincadeira já constaram nos primeiros relatos escritos em terras brasileiras. Prosseguindo, vamos falar um pouco sobre a atuação de palhaços no Brasil Império.

 

O período imperial brasileiro começa com a proclamação da independência, em de 7 de setembro de 1822, e vai até a e 15 de novembro de 1889, quando é instaurada a república. Registros encontrados sobre a presença de palhaços no Brasil durante este período foram sistematizados na pesquisa Circos e palhaços no Rio de Janeiro: Império, realizada por Daniel de Carvalho Lopes e Erminia Silva 1 . Os autores analisaram um total de 67 diferentes títulos de periódicos da época, onde encontraram 1.610 ocorrências a respeito da atuação de circenses na cidade do Rio, entre elas propagandas, críticas, sátiras, gravuras, notas e notícias. Assim foi comprovada a presença de 20 companhias circenses em território brasileiro entre os anos de 1831 e 1871. Em apenas um desses circos não foi encontrada evidência da atuação de palhaços; em todos os demais podiam-se encontrar anúncios que convidavam o público a se divertir com seus cômicos ou notas e críticas sobre o trabalho dos clowns e suas jocosidades.

Imagem de palhaços sobre cavalo em anúncio feito pelo Circo Americano no Correio Mercantil, em 1848 2 .

 

Os documentos não fornecem muitos detalhes de como eram as apresentações realizadas pelos palhaços, mas deixam ver que boa parte deles eram artistas equestres, que faziam acrobacias e comicidades sobre cavalos. Anúncios feitos pelo o Circo Olímpico, no Correio Mercantil, em 1856, falam do palhaço José Soares de Mello, que “sobre um cavalo a galope, com suas jocosidades divertirá o respeitável público com as transformações do chapéu de mil feitios” (Correio Mercantil, 01/10/1856) e que “tão desfrutável em suas pilherias, contos e anedotas, fará um dos seus trabalhos a cavalo a todo galope” (Correio Mercantil, 16/10/1856). 3 Os números de palhaços a cavalo remetem à própria origem do circo moderno, que surgiu na Inglaterra em meados do século XVIII, a partir de companhias que faziam exibições de habilidades equestres. Pouco a pouco artistas cômicos foram se inserindo nestes espetáculos, parodiando os cavaleiros, e foi justamente devido a este tipo de exibição que, no Brasil, os circos ficaram popularmente conhecidos como “circos de cavalinhos”.

 

Circus, Pablo Picasso, 1918. Disponível em: http://www.pablo-ruiz- picasso.net/work-2317.php

 

Registros comprovam que em 1858 esteve no Brasil a "Companhia Italiana Equestre, Ginástica e Mímica", que realizava espetáculos com cavalos e cenas com duplas de palhaços. Também foram encontradas notícias sobre palhaços acrobatas no famoso Circo Chiarini: “Pode-se dizer que na sua especialidade o Sr. Ronland (clown) é um homem inimitável. Provoca francamente o riso enquanto executa equilíbrios e saltos dos mais perigosos e difíceis". (Jornal A Reforma, 29/03/1870). E ainda: “No gênero palhaço é fora de dúvida que nunca veio ao Brasil um só que, à ligeireza dos saltos, originalidade das posições e profusão de ratices, reúna, como o Sr. Ronland, a elasticidade muscular e essa destreza natural tão necessária ao verdadeiro CLOWN”. (A Vida Fluminense, de 2 de abril de 1870). Cabe observar que naquele tempo a palavra clown era usada como sinônimo de palhaço, sendo apenas a tradução em língua inglesa para o termo. Ainda não havia surgido no Brasil a dicotomia que afetou o ofício no final do século XX, gerando uma suposta diferenciação hierárquica entre os palhaços de circo e os "clowns" do teatro. Trataremos do assunto em uma próxima vez.

 

Os circos que funcionaram no Brasil no período imperial também apresentavam peças cômicas, como pantomimas e farsas. Os palhaços atuavam nessas representações geralmente assumindo os papéis principais. Os espetáculos eram denominados de diversas formas, como "farsa mágica", "farsa fantástica", "farsa cômica", "farsa dramática-fantástica", "burleta", entre outros. Alguns tinham vários atos, quadros e números musicais. Possuíam cenografia e figurinos elaborados e muitas vezes contavam com a participação de artistas locais como cantores, compositores e atores de teatro.

 

Além disso, os teatros da época estavam preparados para receber espetáculos circenses e alguns, como o Theatro São Pedro de Alcântara (atual teatro João Caetano, na Praça Tiradentes), foram várias vezes ocupados por companhias de circo. Os espetáculos circenses se tornaram extremamente populares no Brasil do século XIX, de forma que muitos circos trabalhavam sempre com casas lotadas e atingindo públicos de todas as classes. Esta concorrência gerou reações e resistência por parte dos críticos e artistas de teatro. O ator e ensaiador João Caetano, grande personalidade do teatro brasileiro, considerava o circo como um entretenimento menor, sem nenhum valor educativo que ainda afastava o público do teatro. Em 1862 ele solicitou ao Marquês de Olinda que as companhias circenses fossem proibidas de trabalhar nos dias de teatro nacional, em função da necessidade de "regenerar e preservar o teatro".

 

Em 1876, nas propagandas do Circo Chiarini, já surgiam notícias sobre a presença de artistas locais trabalhando como palhaços. Eles se apresentavam cantando modinhas, dançando maxixes e lundus e tocando violão. Pouco a pouco, foram consolidando um jeito brasileiro de ser palhaço. No próximo texto falaremos um pouco sobre o trabalho e a história destes palhaços cantores, que gravaram muitos discos - em cilindros e chapas de 78 rpm - e deram um belo impulso à nascente indústria fonográfica brasileira.

 

Até lá!

 

 

 

1 LOPES, Daniel de Carvalho. Circos e palhaços no Rio de Janeiro: Império. Daniel de Carvalho Lopes e Ermínia Silva. Rio de Janeiro: Grupo Off-Sina, 2015.

2 Idem. p. 42.

3 Idem. p. 90.

4 Idem. p. 142.

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Lili Castro

 

Palhaça, comunicadora e atriz. Participa de festivais e eventos nacionais e internacionais. Dá cursos de palhaçaria e circula com o espetáculo solo “O maior prêmio do mundo”. Atualmente cursa o mestrado em Artes Cênicas na UNIRIO, onde desenvolve uma pesquisa sobre a dramaturgia do palhaço.

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