Cartas da gratidão

Há cerca de dois meses recebi o diagnóstico de Fibromialgia: síndrome sem muitas evidências científicas no tangente a causas e tratamentos. Nesses dois meses compreendi que eu tenho dores crônicas que maltratam, muito, mas que não matam. Tenho algo que ainda não tem cura e poderei talvez levar comigo até o fim, mas que não é terminal. Um diagnóstico que chegou para mudar a minha vida - há dois meses tenho reaprendido a viver, através da Fibromialgia.

 

Essa compreensão tem sido o meu norte, o bonde que me trouxe até aqui. Venho seguindo firme na missão de olhar para dentro de mim e ao meu redor, revisitando-me e me reconectando comigo mesma. Sigo buscando aproveitar cada momento, cada oportunidade de refazer, ou fazer diferente, e inclusive as de poder fazer diferença na vida de alguém. A rede de apoio digital que criei após o diagnóstico, e que tem crescido rapidamente, tem sido espaço de uma troca gratificante, e ouso dizer, terapêutica - de muito carinho, apoio e informação. Todos os dias recebo inúmeras mensagens: de desejos de melhoras, se eu estou em crise; De um novo tratamento ou alguma reportagem; De como o relato ou o post anterior foi útil e bem vindo. Mas outro dia fui surpreendida por uma mensagem um pouco diferente, que me questionava se eu realmente tenho Fibromialgia, e se sim, como poderia ser tão positiva e ainda sorrir.

 

Essa mensagem me deu a oportunidade de voltar a casa, lá para o início do jogo, quando

comecei a sentir as dores, quando elas foram se intensificando. Voltar pro momento do diagnóstico e da queda, e chegar até o momento em que eu resolvi escolher outras cartas, para jogar esse novo jogo da vida. Apesar de ter percorrido esse trajeto de forma ligeira -levando em consideração o tempo puramente-, devo dizer que foi um trajeto muito intenso, e dolorido, e foi justamente o sentimento de “não tenho mais tempo a perder”, que me acelerou e auxiliou nessa caminhada, até a retomada, até o recomeço. Falarei ainda detalhadamente desse trajeto - do negar, lamentar, entender, reconsiderar, aceitar -, mas por ora eu tenho a missão de responder minha colega da forma mais carinhosa e verdadeira que eu puder, e para isso eu preciso falar das cartas da gratidão, e do que me fez escolhê-las.

 

Pode parecer loucura falar de gratidão quando sofremos, sentimos dor, nos vemos sem norte e sem saída, não é verdade? Mas eu tenho uma pergunta: “De que maneira reclamar tornaria essa nova realidade melhor, ou menos ruim?” Pois é...Todos temos (já tivemos ou teremos) motivos para reclamar – problemas, decepções, planos que não se concretizaram, etc. Reclamar é algo tão natural que é quase como um reflexo. Estou exagerando? Deixe-me dar exemplos simples e rotineiros: se está muito calor, a gente reclama que está sufocado. Se chove, reclamamos do quanto é complicado sair de casa debaixo de chuva. Se a agenda está muito cheia, a gente reclama a falta de tempo, e se está vazia, nos queixamos da monotonia. Vê? É muito fácil cair na rede do negativismo e ficarmos presos nela. Óbvio que muitas vezes as coisas não vão bem mesmo, e falar delas pode ser uma forma de aliviar. Mas se você só fala dessas coisas o tempo todo, você passa a literalmente viver delas, ou para elas.

 

Era isso o que estava fazendo, eu estava vivendo para reclamar das dores que eu sentia (sinto), da má sorte de ter algo tão ruim sendo tão jovem, de não ter tratamento certo, de não ter cura... Se alguém me encontrava e perguntava como eu estava, eu já abria a torneirinha de reclamações e lamentações. Até que um dia, justo numa dessas conversas com a torneira aberta, me caiu a ficha: reclamar não está tornando as coisas melhores, pelo contrário, só está fazendo tudo parecer ainda mais pesado e negativo do que já é naturalmente. Levei isso pra terapia, e percebi que eu estava me tornando uma pessoa tóxica, desagradável. Viver para reclamar não estava atraindo nada de bom para minha vida, nem muito menos solucionando nada. Logo eu iria começar a afastar as pessoas de mim, porque o negativismo é repelente.

 

Quando eu reclamo, eu me intoxico e intoxico as pessoas ao meu redor. Como foi bom poder chegar a esse entendimento, e com ele ter a oportunidade de escolher as novas cartas. Como disse, fiquei com as da gratidão, mesmo em face à tantas outras tão mais fáceis e óbvias. Claro que não é fácil agradecer em face às dificuldades, problemas, dores, perdas... se assim fosse seríamos tão evoluídos que já não haveria sofrimento nessa terra, mas não é o caso ainda. Todavia, eu resolvi tentar, como uma espécie de mantra: “SÓ POR HOJE IREI AGRADECER AO INVÉS DE RECLAMAR”, e assim me permitir viver essa nova energia. Naqueles dias mais ruins, quando a cama tenta me segurar, tenho brigado e pulado fora. Tento colocar uma roupa mais bonita e um batom, e principalmente um sorriso no rosto, e agradeço por poder fazer isso, agradeço por estar viva, agradeço pela nova chance. Ouso dizer que isso tem atraído outros sorrisos, e abraços, e que esses funcionam como remédios para as dores.

 

Tenho experienciado na gratidão o brotar de uma onda de positividade que é capaz de confortar, aliviar a dor, permitir enxergar a outra face, outros caminhos e possibilidades. Quando eu agradeço o universo conspira, meu organismo recebe a mensagem positiva e emite ondas de prazer ao invés das ondas pesadas que vêm junto com a reclamação. As pessoas ao meu redor também se contagiam pela leveza da gratidão. No fim, é tudo sobre aquela velha conhecida, a lei da atração. E por isso a minha escolha.

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NATHÉRCIA SENA VAN VLIET

Sou brasileira, 30 anos, graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal da Paraíba, tendo atuado na área por alguns anos. Moro há pouco mais de 2 anos na Bélgica, para onde vim com

meu marido holandês e nossos 2 guris, agora 3. Ser mãe é a grande missão da minha vida, e meu job em tempo integral. E não bastasse a loucura que é a vida de imigrante e mãe de 3, fui recentemente diagnosticada com Fibromialgia. Para buscar informações e trocar experiências com outros portadores dessa síndrome, criei um perfil no Instagram, onde escrevo sobre a nova vida que eu preciso aprender a levar. Instagram: @com_fibro_e_fibra

 

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